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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Concorrência estimulante ou predatória?


Crianza: Três meses em barricas de carvalho e três meses na garrafa.
Cor: Vermelho rubi intenso com tonalidades violáceas próprias de sua juventude, aspecto limpo e brilhante.
Aroma: Frutado, geleia de frutas vermelhas e especiarias como a pimenta em suave marco de baunilha aportada pelo carvalho.
Sabor: Se apresenta exuberante, com taninos presentes e maduros. De longo e complexo final.
Assim é descrito, previa tradução minha, o vinho Cabernet Sauvignon 2010 marca Aberdeen Angus produzido pela Finca Flichman de Mendoza e vendido a R$ 9,80 num supermercado de Porto Alegre.
Minha definição após demorada degustação desta joia da vitivinicultura argentina:
Carvalho nem em fotografia, meses de garrafa durante a viagem e na curta estadia na prateleira.
Cor: Vermelho pálido, mais para clarete que para tinto, sintoma indiscutível de duas possibilidades: mistura de branco com tinto ou uso da produtiva uva Criolla como matéria prima. Cabernet Sauvignon? Será que tem?.
Aroma: Neutro com um ligeiro cheiro de vinho, tímido, recatado. Pimenta e baunilha reinam pela sua ausência.
Sabor: Aguado, sem a mínima expressão, de tão curto, junta o inicio com o final.
Este vinho, que com certeza envergonharia o Sr. Flichman, mentor do famosíssimo Caballero de la Cepa é uma comprovação que confirma a sentença que fez o Presidente da OIV em sua visita na década de noventa: o Brasil é a lixeira da vitivinicultura mundial.
Fica um pouco mais claro a razão de seu preço inferior a R$ 10,00. A mistura de uma pequena parcela de vinho tinto de boa cor com vinho branco escorrido, é a fórmula utilizada para baixar os custos a níveis infames. As uvas brancas utilizadas nestes vinhos, assim como a Criolla Grande, produzem mais que 30 toneladas por hectare. Custo? Próximo de zero. Preço FOB baixo traz consigo a vantagem de detonar os impostos ad valorem como ICM e outros.
Ao provar este vinho me perguntei: É isto que queremos importar? Estes vinhos estimulam a concorrência desafiadora, provocante, ou a predadora, aquela que nivela por baixo? Quem se favorece com estes vinhos invadindo o mercado? O consumidor que aprende a beber isso? O importador que usa estes produtos para baixar preços e aumentar o giro? Ou a região produtora de origem que se livra desta porcaria?
A livre concorrência, sem impostos diferenciados, sem taxas, sem barreiras de qualquer tipo, é salutar e todos a defendemos com todas as forças. E a defendemos porque a concorrência é o motor do crescimento, todos querendo participar do mercado utilizando suas melhores armas: qualidade e preço justo.
Este vinho e muitos mais que se encontram nas prateleiras dos supermercados não oferecem nem qualidade nem preço justo, porque não valem nada. O crescimento brutal das importações em especial da Argentina e Chile é baseado neste tipo de vinho e nível de preço.
Quero chamar a atenção para a diferença de realidade entre os importadores que trazem produtos de qualidade, sérios, representativos das regiões de origem, e favorecem o consumidor alargando a oferta, e aqueles que estão pouco interessados no mercado futuro, são imediatistas, focam preço em detrimento da qualidade.
Será que vale a pena sacrificar tanto os produtores brasileiros? Será que é assim que provocamos o aumento da qualidade do vinho nacional, tão questionada as vezes ou a empurramos ladeira abaixo?
Eu não sei. Me ajudem a entender.

10 comentários:

Marcelo disse...

Inicialmente, foi um prazer conhecê-lo no Rio. Quem tem o que falar não deve se calar mesmo, foi por isso que criei a minha home page este ano.
Aliás, dá uma passada lá, fiz uma matériasobre o evento do Rio.
Parabéns pelos seus espumantes - a Elaine já vinha me dizendo que eram excelentes e é verdade - e pelo blog.

Enoabraços

Cello Carneiro - www.vinoarti.com.br

Tiago disse...

Prezado Adolfo Lona

Seu comentário é sem dúvida muito pertinente e sua análise é muito bem-feita.
Infelizmente o consumidor brasileiro é um voraz comprador dos vinhos "de prateleira de supermercado", onde são encontradas jóias como esta que o sr. degustou.
Por serem de baixo custo, o consumidor os compra, acha que os mesmo são isentos de defeitos e acredita no que diz no contra-rótulo. Aí vem a frase que escuto sempre, inclusive escutei a algumas semanas: "o vinho importado é melhor e mais barato; quando o vinho nacional é bom, é sempre caro".
O que fazer para acabar com este conceito tão equivocado?

Abraço e parabéns pelo blog

Tiago Bulla
www.universodosvinhos.com

Chiquinho Badaró disse...

O problema é que vinhos do mercosul não podem sofrer aumento de impostos.
Isso é que deve ser modificado, esses casos específicos.Não o todo.
um abraço

Kelly Bruch disse...

Parabéns pela análise: séria, madura, delicada! O senhor realmente é nosso professor!

Kelly Bruch disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vinho para Todos disse...

Adolfo,

mais um post de grande utilidade e credibilidade, porque ao contrário de nós, enófilos, sua análise é muito técnica.

Saúde!

Gil Mesquita
www.vinhoparatodos.com

Andrea Vilaronga disse...

Adolfo, boa tarde

Li o teu post no blog e gostaria de fazer um comentário.
Sou brasileira e moro em Mendoza na Argentina. Conheço essa bodega que é de família portuguesa e já provei alguns vinhos deles e não são ruins...gosto da linha de alta gama que não sei se exportam para o Brasil. Esse vinho que você degustou não conheço, mas fiquei curiosa em conhecer-lo. Vou provar-lo, mas sobre os vinhos brasileiros e importados, acho que cada um tem seu espaço no mercado, o que acontece "na minha opinião" é que o vinho nacional é pouco divulgado no próprio país. Quando estou em São Paulo não vejo divulgação das marcar brasileiras, a não ser as grandes bodegas.
Aqui na Argentina eu defendo muito o nosso produto brasileiro, trato de divulgar os prêmios que ganham nos concursos internacionais. Esse vinho que está sendo vendido por menos de R$ 10,00 reais em Porto Alegre deveria ser questionado, porque aqui na Argentina já não encontramos vinhos assim tão baratos...ao contrário...um vinho dessa mesma gama aqui encontramos por 40 a 50 pesos argentinos no supermercado, restaurante quase o dobro!! Já cai no conto das promoções de vinhos no Brasil e tive que jogar fora, porque devido ao mal acondicionamento os vinhos estavam picados e eram vinhos finos! Enfim...o vinho brasileiro deve buscar uma maneira de melhorar seu posicionamento no mercado sem aumentar os impostos, o brasileiro já está cansado de pagar essas contas altíssimas. Todos temos o direito de provar e tomar um bom vinho, seja ele nacional ou importado, desde que possamos pagar um preço justo por eles. Espero poder conhecer-lo e quem sabe poder discutir esse assunto degustando um bom vinho nacional. abraços. Andrea Vilaronga

Fernando Luiz disse...

Caro Lona

Muito pertinente tua análise. Infelizmente a maior parte da população brasileira é "colonizada" culturalmente, ou seja, considera o importado melhor, basta ser importado. E isso também nas camadas de maior renda e maior escolaridade. Poucas pessoas tem senso crítico.
Agora, o bom trabalho de promoção que o IBRAVIN vem fazendo demorará para fazer efeito pois há um grande esforço comercial das importadoreas que devem trabalhar com margens estupendas, pois, em termos vinhos da Europa o preço do varejo no Brasil é 5 a 6 vezes maior que o preço no varejo lá. Eu não consigo compreender as pessoas que topam para este mark-up e ainda acham que estão fazendo um ótimo negócio.

Fernando Motta (Porto Alegre)

umpierre disse...

Prezado Adolfo Lona,

Depois de tanta bobagem, escrita e falada nos últimos dias,finalmente um comentário lúcido,inteligente e realista,de alguém que ao contrário dos pseudos entendidos de plantão, conhece profundamente este mercado vitivinícola.

Parabéns pelo brilhante conteúdo deste comentário!

Paulo Umpierre
http://pro-vinhos.zip.net

Adolfo Lona disse...

Prezada Andrea:
A Finca Flichman foi pioneira, na década de sessenta, na elaboração de grandes vinhos e o Caballero de la Cepa seu principal ícone. Infelizmente estas vinicolas familiares foram adquiridas e os novos proprietários focam volumens em detrimento da qualidade. Pouco se importam em imagem. Vccê comprova que há algo de milagroso nesse preço inferior a R$ 10,00. Será um prazer recebê-la em minha pequena produtora de espumantes em Garibaldi e conversarmos sobre este e outros temas ligados ao fantástico mundo da uva e do vinho.