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sábado, 31 de março de 2012

Que volte o bom senso


É realmente triste e frustrante assistir a reação de alguns proprietários de restaurante que como medida de represália à infeliz ideia de impor salvaguardas aos vinhos importados proposta pelas entidades que supostamente representam o setor, decidiram fazer uma corrida ás bruxas com os produtores de vinhos nacionais. Estão combatendo radicalismo com mais radicalismo. Agora alguns restaurantes estão retirando TODOS OS VINHOS NACIONAIS, das vinícolas que apoiaram a salvaguarda e daquelas que foram contra.
Como pequeno produtor sempre procurei oferecer ao mercado produtos de qualidade, feitos com responsabilidade e seriedade, dignos de competir de igual para igual com os bons vinhos e espumantes disponíveis no mercado. Agora, perante esta situação, me sinto invadido por um sentimento de temor em relação a meu futuro e ao dos pequenos produtores tão castigados com a burocracia, impostos, concorrência predatória, etc.
Quero imaginar que logo voltará a reinar o bom senso e a tranquilidade neste maravilhoso mundo da uva e do vinho que encontra a cada dia mais seguidores e admiradores. São a razão da existência de todos nós e é perigoso expô-los a esta luta entre aparentes mocinhos e bandidos. Tomara que todos reflitam e deixem as posturas extremistas contra os vinhos importados ou contra os vinhos nacionais para assumir a defesa da instituição VINHO. Que façam isso em sinal de respeito aos que produzem uvas e vinhos com esforço e amor e aos que o consomem com o mesmo sentimento.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Salva-vidas


Que bom seria poder estar todos no mesmo barco ainda que alguns remando e outros tirando água com balde. Infelizmente as diferença de conceito de qualidade e de visão de mercado afastam a cada dia mais as grandes vinícolas, corporativas, das pequenas, familiares, artesanais. As grandes defendem selo fiscal, salvaguardas, benefícios. As pequenas menos carga tributária, menos "burrocrasia", mais acesso a recursos para capital de giro, tão necessários para quem elabora vinhos e espumantes sem pressa, respeitando o tempo.
Quando foi “inventado” o selo fiscal como ferramenta de salvação do setor frente ao imenso volume de vinhos contrabandeados, já alertávamos para a ineficiência da medida. Contrabando se combate com fiscalização e policia não com uma etiqueta.
Agora fica comprovado que o selo não resolveu nada e surge outra ideia brilhante que aparentemente, na cabeça dos grandes, servirá como reforço da primeira. Criar barreiras aos vinhos importados.

Eu acho que será, como disse o ditado, “uma pá de cal”...em todos nós.

De continuar assim, no lugar de salvaguardas vamos precisar de salva-vidas para não afundar.

quarta-feira, 21 de março de 2012

O alvo continua errado


Aproveitando o furioso debate ocasionado pelo inicio, a pedido das entidades de classe da vitinivicultura nacional, do estudo para a aplicação de salvaguardas no mercado de vinhos finos, quero aportar algumas considerações que são expressão da minha opinião, nada mais que isso:

1. O quadro acima mostra que o mercado cresceu nos últimos oito anos 85% ou quase 8% ao ano. Tudo indica que continuará crescendo em especial na base ou em vinhos com preços mais competitivos.
2. Nos mesmos oito anos, o crescimento dos vinhos importados foi de 175% ou quase 13,5% ao ano.
3. Neste mesmo período os vinhos nacionais caíram quase 14%.
4. Com este resultado a participação dos vinhos importados no mercado foi de 54% para 78%.
5. Desse crescimento de 5,1 milhões de caixas, 4,6 ou quase 91% foi de 4 países: Itália, Portugal, Argentina e Chile. Um rápido levantamento nas gôndolas de supermercados mostra um milagre digno de ser imitado: vinhos argentinos e chilenos vendidos a menos de R$ 10,00 a garrafa. A grande maioria é claro, importados diretamente pela rede.
6. Como é possível ter margem de lucro (rede e produtor) se considerarmos que neste preço estão incluídos IPI, ICM, despesas aduaneiras, frete, garrafa, rolha, rótulo, caixa e vinho?
7. Está certo que estes países tem alta produtividade e baixos custos mas é feito de uva ou de arroz? É rolha ou tampão de pano? É garrafa de vidro ou PET? É caixa ou engradado?
8. Não há como explicar este milagre à luz da carga tributária brasileira que “carrega” Funrural, PIS, COFINS, IR, ICM, IPI e uma dezena mais que não recordo, além dos tributos pagos na mão de obra, municipais, etc.
9. O mercado consumidor brasileiro é formado por 10% de pessoas que gostam e sabem beber vinhos, tem poder aquisitivo e adquirem seus bpns produtos de importadoras que contribuem para expandir o mercado de qualidade e 90% de pessoas que gostam de vinho, são atraídas por seus encantos, seu “valor social” (é chique beber vinho, se for tinto melhor porque é o verdadeiro vinho, o homem moderno tem de beber e entender de vinhos, etc. ) e o adquirem em supermercados com um olho na origem (importado sempre é melhor, dá status, impressiona mais, etc) e outro no preço (que não dá para jogar dinheiro fora). Esta postura dos 90% é resultante da imagem que estes consumidores tem do vinho importado e nacional: o primeiro é bom e barato, o segundo quando é bom é caro.

Ante esta situação e ante a necessidade de manter o mercado crescendo para que haja lugar para todos, considerando ainda que o vinho importado realiza um papel importante neste crescimento, ao menos até que o os esforços do Ibravin resultem numa mudança da imagem citada acima, A SOLUÇÃO NÃO É AUMENTAR A CARGA TRIBUTÁRIA DOS VINHOS IMPORTADOS E SIM DIMINUIR A DOS VINHOS NACIONAIS.
Aumentando a carga de uma das partes faremos felizes nossos piores sócios (governos municipal, estadual e federal) e daremos exemplo para que mais cedo ou mais tarde aumentem a carga da outra parte.
Seria salutar também para todos e em especial para os órgãos arrecadadores, entender melhor o milagre dos vinhos com preços em prateleiras abaixo de R$ 10,00, Acharão oportunidades de recuperar arrecadação perdida ou acharão inspiração para entender a absurda e feroz carga tributária interna.
Acho que diminuindo a carga tributária dos vinhos nacionais, com a concordância dos principais países exportadores, e fazendo conjuntamente ações que busquem o aumento do consumo de vinhos no Brasil, o futuro será brilhante para todos. Não podemos nos conformar com os ridículos 2 litros consumidos por habitante / ano.

sábado, 17 de março de 2012

Para não esquecer


Sempre que meus amigos Maria Helena e Tadeu Zanettini passam por Garibaldi, pernoitam no charmoso Hotel Casacurta, jantamos juntos com minha esposa Silvia na Hostaria do hotel, a melhor cozinha da região, e aproveitamos para degustarmos juntos espumantes e vinhos. Tadeu é um excelente degustador e já coloquei alguns dos meus espumantes para sua apreciação. Ontem foi o ORUS 2012 que será lançado em novembro deste ano e por tal razão ainda está “verde” mas mostrando já toda a sua elegância e potencia.
O vinho trazido por Tadeu que acompanhou os pratos foi o Cadus (*) 2005, que é um varietal 100% Malbec, de Mendoza, elaborado pela Nieto Senetiner. Quando conferi a graduação alcoólica, que esperava fosse alta, me surpreendi ao ver que era de 15,5%. Seria minha primeira experiência (que não é pouca) com um vinho com graduação tão alta, quase de um licoroso. Para elaborar um vinho com esta graduação é necessário dispor de uvas extremamente maduras, quase passas. No contra-rótulo tinha a recomendação de guarda: beber entre 2009 e 2015, ou seja, estávamos na época ideal,
Como era de esperar a garrafa bordelesa era do tipo pesada, com vidro abundante e escuro, e a rolha de excelente qualidade com um comprimento superior a 50 mm, digna de segurar esta fera.
Vou tentar descrever as impressões sobre este vinho que sem sombra de dúvida, é daqueles para não esquecer.

Cor: Vermelha muito intensa, quase violácea com tons marrons escuros, sem nenhuma transparência. Este aspecto é absolutamente normal e mostra a grau de concentração das uvas. Quanto mais intensa a cor menos se percebe a evolução, variável que transmite a impressão de “passado” quando excessivamente laranja. A cor já nos dizia: “Tomem cuidado comigo”.

Aromas: O primeiro ataque é do álcool que surpreende por ser tão forte e nítido. Poderia lembrar um licoroso, mas não, lembra um destilado. Os aromas vinicos vêm de arrasto, carregados desta nuvem de álcool que marca o olfato. Confesso que tive dificuldade, devido a influencia do álcool, em perceber com nitidez a característica aromática do vinho: chegavam notas de frutas secas misturadas com uma moderada presença da madeira, da baunilha, couro, compotas.

Sabor: Extremamente macio e amável, com muito peso na boca devido a estrutura. É do tipo de vinho que eu chamo de traiçoeiro, convida a ser bebido, inunda nossos órgãos sensitivos e quando menos percebemos, temos dificuldade em continuar. De forma contraditória, é um vinho fácil de beber e ao mesmo tempo cansativo. Não tenho a menor dúvida que é o efeito da alta graduação alcoólica.

Conclusão: É uma experiência que todo enófilo deve ter. É uma clara demonstração da justificada discussão sobre o limite da graduação alcoólica de um vinho. Passada certa linha, que estimo seja 14, no máximo 14,5%, o vinho deixa de ser gastronômico.

Vinhos do dia a dia: 11 a 13% são suficientes.
Vinhos para ocasiões e pratos especiais: 13 a 14-14,5%
Vinhos para experiências vínicas que não se esquecem mas que não serão frequentes: acima de 14,5%.

(*) Cadus é o nome em latim das ânforas utilizadas antigamente para armazenar os vinhos.

terça-feira, 13 de março de 2012

Cabernet franc e Merlot 2012


Nos dias 09 e 10 de março iniciamos em Bagé a colheita de Cabernet franc e Merlot. As uvas estavam ótimas, bem maduras, sem podridão, perfeitas para elaborar bons vinhos.
Como sempre a colheita foi feita em caixas plásticas de 20 quilos que permitem que a uva chegue em perfeito estado na cantina. A uva passa pela desengaçadeira, equipamento que retira o engaço ou cabinho que é eliminado antes de iniciar a elaboração. A desengaçadeira é formada por um cilindro furado que gira num sentido e um eixo com “dedos” que gira no sentido contrário (esquerda superior da figura). Os cachos caem na parte superior e entram no cilindro sendo impulsionados pelos dedos do eixo para o cilindro furado. Este movimento solta os grãos que saem pelos furos do mesmo e caem numa bacia que os levará até o reservatório de elaboração. O engaço sai pela outra extremidade conforme mostra a figura superior direita.
Como todos recordam de publicações anteriores a grande maioria das uvas tintas, entre elas Cabernet Sauvignon, Franc e Merlot, NÃO POSSUEM COR NO SUCO. Ele está concentrado nas cacas e do contato delas com o suco depende a cor do futuro vinho. Branco (blanc de noir) se as cascas são separadas imediatamente, rosado com breve tempo (10-15 horas) e tinto com tempos mais longos.
Na elaboração de vinhos tintos também é necessário saber a potencialidade da variedade e o tipo de vinho desejado porque esta informação determinará a forma da vinificação, com maior ou menor tempo de contato entre cascas e suco.
A variedade Cabernet Franc é bem diferente da Cabernet Sauvignon. A primeira ideal para vinhos mais jovens, frescos, vinosos, elegantes e a ultima para vinhos mais longevos, tânicos, encorpados, de guarda.
Os vinhos de CF são excelentes quando jovens, amáveis, agradáveis. Jã os de CS são duros, tânicos, defíceis de beber e por isso adequados para maturar em madeira e envelhecer na garrafa.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A mulher e os espumantes


No magnífico evento chamado Encontro de Vinhos, organizado pelo competente Beto Duarte na cidade maravilhosa, tive a oportunidade de comprovar mais uma vez que existe um sério caso de amor entre as mulheres e o espumante.
As visitantes que recebi em meu espaço chegavam com um amplo sorriso e numerosas perguntas, todas elas pertinentes, identificando claramente a diferença entre os espumantes elaborados pelo método tradicional e charmat. Contrariamente ao que afirmam algumas cabeças iluminadas, as mulheres não buscam o “dozinho” e sim o espumante amável, que não trave, que não agrida. Por isso apreciam e saboreiam com prazer os tipos brut e nature desde que sejam de equilibrada acidez, devidamente maturados.
O interesse prazeroso demonstrado por elas por informações e degustações de espumantes faz com que progridam aceleradamente na educação do paladar. Por isso, tome cuidado o produtor que subestime a capacidade das mulheres em identificar qualidades e defeitos. Elas entendem... e muito!!!!
Para os que produzimos espumantes em pequeno volume, com dedicação artesanal, as mulheres são a inspiração que nos move em direção à qualidade superior. Dos cinco espumantes que elaboro, dois se destacaram neste evento junto ao público feminino: o Brut Rosé e o Nature, justamente os que se caracterizam pelo sabor mais marcante.
Hoje é frequente encontrar em bares e restaurantes grupos de jovens e senhoras saboreando uma taça de espumante enquanto flui a conversa. Desprendidas de qualquer tabu ou preconceito, daqueles que condenam o espumante a ficar escondido enquanto o motivo da festa não aparece, as mulheres teimam inteligentemente em desfrutar das virtudes desta maravilhosa bebida pelo simples fato de festejar a vida, o momento.
Muitos homens continuam com a velha e ultrapassada ideia que o verdadeiro vinho é o tinto. O resto é o resto. Por isso todos nossos agradecimentos às mulheres que alem de impulsionar o consumo de espumantes no mundo, conseguem mudar os hábitos de seus companheiros.
Amanhã é 8 de março, Dia Internacional da Mulher e por elas ergo minha taça.
Saúde a todas e meus eternos agradecimentos pelo papel importantíssimo que desempenham na construção do futuro brilhante dos espumantes no Brasil e no mundo.