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domingo, 13 de dezembro de 2015

BREVE HISTÓRIA DO MOSCATEL ESPUMANTE





No ano de 1978 o mercado brasileiro conheceu o primeiro Moscatel Espumante elaborado na Serra gaúcha de Garibaldi: o Asti Spumanti MARTINI.

Eu tive o privilégio de fazer parte da história deste espumante que hoje cresce a cada ano.

A iniciativa foi da Martini e Rossi, empresa italiana produtora do famoso vermute, que iniciara suas atividades vitivinícolas na cidade de Garibaldi em 1973 com a elaboração do espumante De Gréville. Com a contribuição de técnicos italianos e a aprovação da Matriz na cidade de Torino – Itália, nossa equipe começou a desenvolver o projeto do ASTI BRASILEIRO no ano de 1976 incentivados e apoiados pelo Diretor Presidente na época Sr. Francesco Reti.

Faço um parêntesis para dizer que o Sr. Reti, assim era chamado, foi uma pessoa maravilhosa, amável, carinhosa, simples e solidário. Com ele aprendi os primeiros passos relacionados ao conhecimento do mercado de vinhos e espumantes. Nisso ele era uma fera. Mas ele era algo mas, um visionário porque nos anos setenta percebeu o futuro brilhante dos espumantes no Brasil. Os número agora comprovam quanto ele estava certo. O setor deveria lembrar e agradecer sua atuação em favor do produto nacional.

Vamos às etapas:

O Asti brasileiro, 1978 - 1986

Lançado com êxito em outubro de 1978, o primeiro Moscatel Espumante que tinha a apresentação exatamente igual do homônimo italiano, cumpriu todas as expectativas desde o ponto de vista de qualidade e resposta do mercado. Foi muito bem aceito nas regiões com forte presença de italianos ou descendentes, mais teve dificuldades em outras devido ao desconhecimento dos consumidores: poucas pessoas sabiam que tipo de produto era este, chamado simplesmente de Asti Spumanti MARTINI.

A marca Martini era nacionalmente conhecida, o produto não.

As vendas foram crescendo anualmente até 1986, quando o Consórcio de Produtores de Asti na Itália, como era de se esperar, encaminhou à direção da Martini em Torino na Itália, uma queixa formal sobre o desrespeito à DOC que sua principal associada fazia no Brasil.

O constrangimento que esta queixa criou na Itália fez com que uma decisão drástica fosse tomada: a suspensão imediata da comercialização do primeiro Asti Martini produzido fora do país de origem.

O Moscatel Espumante processo Asti, 1992-2000

A descontinuidade da comercialização do Asti em 1986 não tirou da direção técnica da Martini Brasil o convencimento que este espumante aromático, fácil de tomar, tinha o perfil de produto apreciado pelo mercado brasileiro. Por tal razão e após estudos de mercado decidiu-se pelo relançamento deste produto agora identificado como Moscatel Espumante processo Asti sob a marca De Gréville, nessa época reconhecida como produtora de espumantes de alta qualidade.

A menção da expressão “processo Asti” no rótulo pretendia relacionar o produto ao original italiano e facilitar sua identificação pelo consumidor.

Em fins da década de noventa surgiram outras marcas de Moscatel Espumante que contribuíram a divulgar o produto, aumentando pontos de vendas e presença nas prateleiras.

Finalmente a região produtora da Serra Gaúcha descobrira a potencialidade de um espumante, que apesar de ter surgido utilizando o modelo italiano, apresentava características próprias de frescor, acidez e ligeireza que o tornavam mais fácil de beber que o original.

Moscatel Espumante, 2000 até hoje


Os volumes crescentes de comercialização no novo século impulsionados pela entrada de mais empresas a produzi-lo, chamaram a atenção novamente do Consórcio do Asti, que sob o argumento do uso indevido da expressão “processo Asti” encaminhou uma reclamação formal ao Ministério da Agricultura do Brasília e as cantinas produtoras, fazendo ameaças de ações judiciais.

Entendendo que devido à consolidação do produto no mercado e ante as argumentações válidas do Consórcio, o Ministério recomendou aos produtores locais o abandono da expressão que ocasionara a reclamação e deixou de emitir novos registros de produto.

Infelizmente e numa demonstração de que não todos aceitam respeitar uma decisão coletiva, uma vinícola de Farroupilha ainda insiste na expressão "Processo Asti" utilizada no rótulo principal de seu Moscatel Espumante.

Apesar disto, e de modo geral, todos respeitaram essa decisão e finalmente o Brasil decidira identificar este produto com enorme potencial conforme a legislação local, abandonando definitivamente qualquer associação com o Asti da Itália.

O espumante, que é uma bebida que possui somente atributos, é versátil e associado a momentos prazerosos e alegres, está sendo descoberto pelo consumidor brasileiro.

As vendas crescem a cada ano, o consumo deixa lentamente de ser reservado a ocasiões festivas passando a fazer parte da gastronomia e o futuro parece ser brilhante.

O sabor adocicado, amável e cativante do Moscatel Espumante se adequa perfeitamente ao paladar do novo consumidor que está descobrindo esta magnífica bebida. O clima tropical que existe em boa parte do Brasil continental oferece enormes oportunidades para este produto na beira da praia, em ocasiões festivas fora das refeições, a todo o momento.

Cumpre também o papel importantíssimo, com sua jovialidade e frescor, de introduzir ao mundo dos espumantes, pessoas que o bebem somente em ocasiões especiais.

Um brinde ao sucesso do Moscatel Espumante brasileiro!!


Simples




Se você é daqueles que acha que entender de vinhos é uma condição moderna para ter destaque social, acha que precisa assumir postura “de professor” constantemente, não se aguenta fica em silencio, colaboro com algumas dicas:

Treine até conseguir pronunciar sem se engasgar o nome de algumas variedades como Müller Thurgau (pronuncie miler turgó), Gewürztraminer, Pinotage e outras que encontrará na internet. Falar fluidamente estes nomes chama a atenção.
Ao citar a Müller e a Pinotage e deixar algumas pessoas admiradas, não pare, continue em sua cruzada rumo a consagração final afirmando: ”Estas duas variedades são híbridas interespecíficas, ou seja, cruzamento de variedades da mesma espécie, neste caso Vitis vinífera com Vitis vinífera”
Se alguém fizer mais perguntas sobreo tema peça licença e vai em direção à mesa de canapés se esconder. Se ficar dando sopa poderá ser descoberto.

Diga em alto e bom som para ter certeza que a galera ouviu que “No último telefonema que tive com Paul, ele comentou que a safra em Margaux não seria das melhores”. Alguém próximo, intrigado perguntará: “Que Paul?”
Bola na área amigo, aproveite e mate a jogada. “Meu amigo Paul Pontallier, diretor técnico do Château-Margaux que conheço desde 1992”.
Se alguém fizer mais perguntas peça licença e vai para a sacada tomar ar porque centre os convivias poderá ter alguém que verdadeiramente o conhece.

Ao receber uma taça de espumante, sinta os aromas sem agitar a taça e diga: “Sem sombra de dúvida as leveduras cumpriram sua magnífica missão “post mortem” ao liberar os aminoácidos responsáveis pela complexidade e elegância deste espumante”. É importante manter-se sério porque se rir ao ver a cara de admiração e paixão dos ouvintes vai tirar credibilidade.

Agora se você é daqueles que bebe vinhos e espumantes por prazer, sem ficar preocupado em impressionar, beba em silencio. Se tiver de falar diga palavras simples, compreensíveis, do vocabulário rotineiro das pessoas.

Os vinhos não foram criados para serem falados e sim para serem compreendidos, saboreados, desfrutados.

É chato aguentar descrições novelescas, do tipo “o aroma deste vinho me lembra as margaridas recentemente floridas do jardim da minha tia no interior de Mendoza”.

Margaridas, jardim da tia, Mendoza?

Certa vez numa degustação promovida por uma Confraria, um produtor da Serra descreveu seu Tannat de forma tão poética e cheia de arabescos que um amigo meu, jornalista experiente no tema, me disse baixinho: “Meu caro, não entendi nada do que ele falou, mas o vinho não me agradou”

Ficou aliviado quando respondi: Não fica preocupado, eu também não entendi e também não gostei do vinho.

Nós produtores temos de evitar fazer descrições superlativas de nossos produtos sob o risco de não sermos levados a sério. A modéstia e a humildade devem ser características sempre presentes em nossas posturas, ajudam.

domingo, 6 de setembro de 2015

Raiva e frustração





A decisão, como habitualmente unilateral e prepotente, de aumentar o imposto sobre produtos industrializados (IPI) dos valores fixos pagos até hoje para ad valorem de 20% do preço com ICM, é dessas atitudes estúpidas que demostram mais uma vez que quem nos elegemos para administrar nosso pais, está se lixando para nós.

Este sócio indesejável que é uma família de pai e filhotes (governos federal, estadual e municipal) , já levava quase 55% do valor da venda e agora, sem prévio aviso, passara a levar mais de 65%.

Este sócio compulsório (não conseguimos nos livrar dele!) que cobra sua parte antecipadamente, gasta demais com suas festas, amantes, concubinas, carrões, bebidas e comilanças não consegue equilibrar suas contas e decide aumentar sua participação, seu saque.

O sentimento de raiva e frustração é grande, machuca, deixa o corpo dolorido, tira o sono.

Porque provavelmente nada poderá ser feito para evitar este desastre.

Porque será uma pá de cal para o setor vitivinícola brasileiro que é composto por mais de quinze mil famílias que produzem uvas e por algumas centenas de pequenas vinícolas. Juntos representam o patrimônio cultural de muitas cidades do Rio Grande do Sul.

Sobreviver produzindo vinhos e espumantes está ficando cada dia mais difícil por numerosas razões.
O mercado é disputadíssimo, o custo Brasil é quase insuportável, o valor dos fretes aumenta acima da inflação, a burocracia paralisa, os bancos emprestam para quem não precisa, a sistemática do pagamento de impostos é indecente, o valor deles vergonhoso.

O que parecia ruim, agora com certeza vai ficar pior.

E sabe o que também é frustrante?

Não ouvir nenhuma voz, fora dos “queixosos de sempre”, se levantando, se revelando, denunciando, conclamando à união, ao protesto. Não ouso nenhum prefeito de cidades vitivinícolas como Bento Gonçalves, Farroupilha, Caxias, Garibaldi propondo reações a este absurdo.

Acho que algumas centenas de produtores de uva e de vinho acampados na frente do Palácio de Governo em Brasília chamariam a atenção da mídia e consequentemente das cabeças iluminadas que decidem nosso futuro.

Cadê os Sindicatos Rurais, a Uvibra, a Agavi, o Sindivinho, o Ibravin?

Quando a polêmica originada pela criação do Selo Fiscal chegou à mídia, estes senhores acusaram, defenderam com unhas e dentes esta aberração que não serviu para nada.

O principal argumento de defesa do Selo Fiscal era o combate ao contrabando, ao descaminho. A interrupção da obrigatoriedade do uso agora é porque acabou o contrabando ou porque ficou comprovada sua ineficácia?

Espero que estas entidades comandadas novamente desde os bastidores por aqueles líderes que lideram em causa própria, estejam fazendo alguma coisa para impedir este novo aumento de impostos.

Espero também que não façam, num surto de extrema idiotice, a tentativa de onerar os importados.

Caso contrário será salutar que desapareçam de ser possível levando o Governo junto.





terça-feira, 1 de setembro de 2015

Meu livro em e-book



Escrito por insistência de meu amigo Paulo Ledur da editora AGE, que ao perceber que todo o material acumulado dos Cursos de Vinhos realizados na De Lantier desde junho de 1988 poderia resultar numa obra didática e atual, o livro Vinhos e Espumantes - Degustação, elaboração e Serviço teve a finalidade de introduzir no mundo maravilhoso da uva e do vinho os novos apreciadores.

Procurei utilizar a linguagem fácil e descomplicada porque sobram pessoas que ao falar num enologés quase indecifrável distanciam as pessoas do vinho.

Recentemente acrescentei um longo capítulo sobre espumantes porque achei que este vinho mereceria um maior destaque devido à excelente performance comercial nas últimas décadas.

A decisão de fazer uma versão e-book foi tomada em conjunto com Ledur para possibilitar recoloca-lo no mercado já que a versão impressa estava esgotada há muito tempo e os custos não viabilizavam novas.

Busque seu exemplar no site da livraria Saraiva e boa leitura!!!

http://www.saraiva.com.br/vinhos-e-espumantes-degustacao-elaboracao-e-servico-9013069.html

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Estilos



Não há dúvida que Robert Parker foi um divisor de águas para o mercado mundial de vinhos.

Com suas avaliações ficou tão famoso e respeitado que os vinhos bem pontuados se transformaram em exemplos de estilo a ser seguido.

Com ele surgiu o estilo de vinho amadeirado, encorpado, alcoólico, potente que o mercado reconheceu como o representante dos vinhos de qualidade.

Como era de esperar muitas cantinas buscaram aproximar seus produtos a esta proposta e a oferta, reconheçamos, ficou um pouco monótona e cansativa.

Passamos longos anos assistindo a predominância da madeira que pelo mau uso foi mais prejudicial que benéfica. Como maturar os vinhos tintos por longos períodos em barricas francesas é custoso, a saída dos mais expertos foi apelar para o uso de lascas de madeira colocadas em contato com o suco ou com o vinho.

O resultado foi quase igual para o consumidor médio, forte aroma e gosto de baunilha, tostado e chocolate. Delicioso!

Passamos longos períodos invadidos por ofertas de vinhos tintos alcoólicos nos quais a graduação inferior a 14% era defeito.

Buscando isto Argentina desfigurou muitos malbecs por conta da sobre maturação à qual era exposta esta uva resultando em vinhos novos com gosto de cozido, frutas secas, cansado.
Estes vinhos constituem a classe de produtos excelentes para animar conversas mas não para beber. No segundo copo o corpo pede água.

Estas duas variáveis formavam o vinho tinto encorpado, másculo, apropriado para bebedores valentes e fortes.

Este perfil geralmente pertence a uma parte do novo consumidor ávido por demonstrar que conhece.

Este caminho que o mercado trilhou foi consequência da influencia do Sr. Parker.

Mas como não há mal que dure cem anos e especialmente porque o consumidor de vinhos é progressivo, aprende, fica experto, esta moda está perdendo força, o Sr. Parker começa a ser esquecido e os produtos com aromas e sabor de vinho, saborosos, medianamente encorpados e alcoólicos, fáceis de beber começam a ganhar mercado.

As pessoas que consomem quase que diariamente vinho porque o incorporaram a seus hábitos alimentícios, buscam produtos leves, agradáveis, que harmonizem facilmente com os diferentes pratos.

Os novos consumidores, os que inicialmente bebem socialmente, são os mais sensíveis a serem influenciados pelos omnipresentes enochatos que fundamentam seus conhecimentos nos vinhos pontuados, premiados, recomendados por estrelas e colunistas.

Felizmente este novo consumidor vai educando seu paladar a medida que torna mais frequente a presença do vinho em sua vida diária e com sua curiosidade constante descobre que não tudo é alcoólico, concentrado, encorpado. Que é mais prazeroso saborear um vinho leve, elegante, agradável que convive mais harmoniosamente com os mais variados pratos ou degusta-lo sozinho.

É a evolução do mercado consumidor que não para, progressa.

domingo, 19 de julho de 2015

Sem defeitos




No universo das bebidas não há nenhuma com tantas virtudes como o espumante.

Vejamos algumas:

Alegre: Todas as pessoas, independentemente de classe social, levam na memória infinidade de momentos alegres, em família, comemorativos como aniversários, Natal, Fim de Ano, casamentos, etc. onde a presença do espumante era constante. Por esta razão esboçam um sorriso ao ouvir o estampido feito pela retirada intempestiva de uma rolha ou a chegada de uma bandeja cheia de taças de borbulhante espumante.
Há, é verdade, uma razão natural descoberta lá pelo século XVII que faz com que as pessoas fiquem mais soltas e alegres ao beber o primeiro gole de espumante: o gás carbônico faz com que o álcool ingerido circule mais rapidamente no fluxo sanguíneo e por isso seus mínimos efeitos se sentem de imediato.

Sedutor, nobre: O aspecto, o visual, o encanto que provocam as borbulhas transparentes caminhando rapidamente até a boca da taça com certeza é uma das maiores virtudes que o diferencia de todas as outras bebidas.
Não é necessário colocar como exemplo a enorme diferença que há entre um jantar acompanhado de cerveja com um harmonizado com espumantes.

Sempre recomendo, por uma questão de precaução, guardar uma garrafa de espumante na geladeira, na base inferior da porta. Estará quase pronta para o consumo é será uma alternativa maravilhosa de terminar melhor um dia estressante, comemorar tudo ou nada, celebrar à vida ou recepcionar adequadamente uma visita inesperada.

Todo momento intimo fica mais sedutor e mais cálido com a presença do espumante.
Não por nada o lendário conquistador Casanova dizia: “O champagne é um equipamento essencial à sedução”.

Versátil: Existe a ideia equivocada que o espumante acompanha somente entradas frias ou sobremesas. Ele é mais versátil que o vinho tinto porque oferece uma maior variedade de tipos, nature, extra brut, brut, demi-sec, doces além de brancos e rosados que se adaptam a um número maior de pratos. Os vinhos tintos dificilmente convivem harmoniosamente com pratos mais leves.

É um infalível companheiro de ostras, frutos de mar, peixes, entradas frias, saladas, risotos, pratos à base de frango e carnes vermelhas grelhadas. O gás carbônico também desempenha a função de “lavar as papilas” e deixa-las prontas para saborear o prato.

Se há um o pais adequado ao maior consumo de espumantes é o Brasil que possui um litoral maravilhoso, extenso com uma gastronomia à base de peixes e frutos do mar e um clima tropical durante os doze meses do ano. O pouco consumo de espumantes nestas regiões é um simples problema de cultura alimentar, falta de costume, de habito. Algum dia descobrirão suas virtudes.

Competitivo: O mercado oferece espumantes numa faixa de preços tão ampla que os torna competitivos. Há ofertas para todos os bolsos e gostos.

É nosso: Se todas as razões expostas não são suficientes existe uma que nos enche de orgulho: É NOSSO. Do consumo total de espumantes no Brasil, nada mais que oitenta por cento corresponde a produtos brasileiros, na sua maior parte gaúchos que nada devem aos importados em qualidade e preço.

Como produtor de espumantes sempre tive claro que não oferecemos uma bebida alcoólica, oferecemos momentos e por isso nossos produtos, sejam nature, brut ou demi-sec, tem de serem agradáveis, convidativos, fáceis de consumir.

Não podemos frustrar a expectativa de um momento alegre, festivo, prazeroso com espumantes duros, ásperos, ácidos ou melosos.

Ficamos lisonjeados pelos comentários positivos dos críticos mas o foco é a razão de nossa existência: o consumidor.


sábado, 4 de julho de 2015

terça-feira, 30 de junho de 2015

O consumidor progressivo


Sempre afirmei que toda pessoa interessada por vinhos é um consumidor progressivo porque aprende, se aprimora, educa seu paladar a cada gole. E este é o perfil do apreciador brasileiro.

A evolução dos tipos de vinhos consumidos no Brasil nas últimas décadas é uma prova disto.
Nos anos sessenta predominavam os rosados e brancos suaves, ligeiramente adocicados, que constituíam o caminho intermediário entre um guaraná e um Cabernet. Foram repudiados e duramente criticados mas cumpriram a missão de introduzir os novos consumidores que chegavam. Os tintos eram ignorados.

Alguns anos depois chegaram atropelando os brancos da garrafa azul, dozinhos, sedutores, com nomes germânicos quase ininteligíveis. O bom da embalagem era que após esvaziada servia para fazer elegantes abajures.
Mais uma ajudinha para introduzir novos consumidores.

Parecia tudo perdido. O brasileiro era um ignorante inveterado. Mas os anos demonstraram o contrário.

Passaram os rosados, passaram os brancos suaves, passaram os proseccos medíocres, passaram os mums, os gatos e os santas del Plata que eram quase indigestos, passaram os tintos carregados de madeira e o mercado tornou-se mais exigente, mas seletivo, mais consciente do que bebe.
Podem ter certeza que esta evolução continuará para sempre.
Enquanto houver consumidores o processo continuará até porque quem para, regride.

E isto não deveria ser ignorado, em especial pelos produtores de vinhos e espumantes que são obrigados a acompanhar esta evolução para não correrem o risco de serem devorados pelo mercado.

Hoje é mais ignorante o que se “acha o tal” que o humilde curioso que busca sempre novidades, novas experiências de qualquer origem. Hoje é ignorante quem quer.

A oferta é imensa em todos os sentidos, brancos, tintos, rosados e espumantes de todas as regiões produtoras do mundo, das mais tradicionais às novas. Dos preços então, nem se fala. Há para todos os gostos e bolsos.

Assim como é farta a oferta de produtos é farta a oferta de informações através de blogs genéricos ou específicos, de colunas em jornais e revistas e de artigos publicados na internet. Já não é necessário buscar dados em livros especializados sempre difíceis de encontrar.
Basta entrar na internet.

Por todas estas razões é que fico ainda admirado quando vejo pessoas insistindo em afirmar que o brasileiro não entende nada de vinhos, que é ignorante, que bebe rótulos. E também por estas razões fico ainda mais admirado quando vejo que tem gente que acredita nisso.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

É bom lembrar..




Frequentemente leio comentários do tipo, “somente na última década o Brasil começou a fazer vinhos de qualidade”, “agora os vinhos são melhores que antigamente” e outros.

Não concordo em absoluto com estas afirmações e acho importante refrescar a memória dos maduros e informar os mais jovens.

O Brasil iniciou uma mudança radical na sua vitivinicultura na década de setenta com a chegada das empresas estrangeiras à Serra Gaúcha. É inegável a importância que estas empresas tiveram na criação das novas bases sobre as quais cresceria o setor.

Vou dar alguns exemplos:

Material vegetativo e variedades disponíveis:
Havia uma enorme confusão, ás vezes proposital, entre as variedades existentes de origem europeia e as americanas. As brancas tradicionais como Peverella, Trebbiano e Moscato que predominavam começaram a ser substituídas pela Riesling Itálico, com mais potencial para aumentar a qualidade. Tanta foi a procura por esta uva que surgiu pelas mãos de alguns expertos, a Riesling “falsa” que na verdade era a Seyve Villard, uma híbrida interespecífica produtiva e que quando bem vinificada engana até os entendidos. As variedades tintas de origem italiano como Canaiolo, Barbera e Bonarda se confundiam e vinificavam junto a americanas tintas. Era uma confusão.

As empresas que chegaram, em especial Château Lacave do Uruguai, a Martini e Rossi da Itália e a Chandon da França que foram as pioneiras, identificaram imediatamente estas variedades e fixaram preços atrativos para estimular a baixa produtividade e sanidade das européias. Estas empresas às quais se juntaram os grupos Seagram e Heublein, fizeram um esforço descomunal para introduzir novas variedades de maior potencial como Chardonnay, Semillón, Sauvignon blanc, Merlot, Cabernet Sauvignon que se somaram à Cabernet Franc já adaptada e com excelentes resultados.

Foram importadas centenas de milhares de mudas selecionadas dos principais viveiros europeus e distribuídas gratuitamente a produtores dispostos a melhorar seus vinhedos.
Famílias como Miolo, Carraro e outras começaram a produzir uvas de qualidade nessa época com material entregue pelas vinícolas.

Caixas para transporte da uva:
A Martini introduziu as caixas plásticas de 18 quilos para o transporte da uva de modo a preservar sua integridade.

Este foi um fator de qualidade e rapidamente foi acompanhada pelas outras vinícolas. Ela chegou a ter 40.000 cxs que emprestava aos produtores. Posteriormente se implantou um programa para venda destas aos produtores.

Prensas para retirar o suco das uvas brancas:
A Chandon introduziu as prensas de discos Vaslin e a Martini as prensas pneumáticas Willmes. Foi um divisor de águas para os brancos de qualidade.

Controle de temperatura de fermentação:
A Forestier introduziu na época os tanques com cintas para circulação de material refrigerante. Todas as vinícolas adotaram esta tecnologia hoje utilizada unanimemente. O aço, caríssimo na época, começava a substituir as velhas pipas de madeira que apesar de parafinadas à quente, transmitiam gosto aos vinhos.

Barricas de carvalho:
A Martini importou as primeiras barricas de 225 litros de carvalho francês de florestas específicas no ano de 1982. Nem Argentina tinha madeira desta qualidade.

O descrito parece pouco mas podem ter certeza que foram estes investimentos, estas novas tecnologias que contribuíram para estabelecer um novo padrão de vinhos.

De lá para cá poucas novidades chegaram salvo as que possibilitam a maior intervenção nos vinhos como uso de chips de carvalho, osmoses inversa e outras que em pouco ou em nada contribuíram.

Do que sim tenho certeza é que o setor vitivinícola brasileiro aprimorou seu marketing que possibilita impor a crença que nunca na história deste país se elaboraram vinhos tão bons.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Assim é difícil




Todo mundo sabe que a carga tributária brasileira é uma das mais altas do mundo.

Todo mundo sabe que infelizmente, essa monstruosa quantidade de recursos é mal aplicada, desviada, roubada, e por isso não retorna na forma de serviços médicos, de transporte, segurança e educação como seria possível.

Para ajudar as pequenas empresas que geram empregos, inovam, ajudam a desenvolver cidades e municípios e atendem uma boa parte do mercado consumidor, o GOVERNO criou a figura do contribuinte SIMPLES cuja carga tributária é menor, mas que em compensação não gera nem credita os impostos embutidos nas matérias primas que adquire. Até aí tudo parece justo. Mas não é.

Como uma forma de garantir o recolhimento do ICM, muitos estados da federação criaram uma figura tributária conhecida como ST – Substituição tributária que altera a fonte pagadora, sendo agora quem emite a NF de venda. Esta forma de cobrança do ICM sobre o lucro do revendedor não se aplica às categorias de micro empresas incluídas no SIMPLES.

Isto também parece justo já que é uma forma de combater a sonegação. O que não é justo nem lógico é o cálculo que determina o valor do ICM da ST a ser pago e a forma de pagamento, antecipado.

A ST se determina multiplicando o valor do produto com IPI (!!!) por um número chamado MVA – Margem de Valor Agregado que nada mais é do que a suposta margem que o destinatário aplicará na revenda.

Em SP e BH supera 70%. O número resultante se multiplica por 25 ou 27% que é a alíquota do ICM de venda em SP e se diminui o ICM recolhido na origem, de 12%. Este valor que chega a aumentar o valor da transação em mais de 30% tem de ser pago ANTES DA MERCADORIA SER DESPACHADA. Ou seja, o sócio compulsório que é o governo, garante sua parte pouco se importando se a margem é essa, se a venda se concretizará 30-45 ou 60 dias depois, etc. Ele quer garantir o seu e acabou o assunto.

O mais dramático é que esta sistemática de cobrança do ICM está matando as pequenas empresa produtoras de vinhos e espumantes, aquelas que o GOVERNO diz querer proteger.

Geralmente as vinícolas menores comercializam seu produtos através de pequenos distribuidores tributados na forma do SIMPLES que não tem direito ao crédito do ICM da ST e por isso o valor recolhido acaba sendo custo direto. Ou seja, o preço do produto aumenta para eles quase 30%.

A solução viria incluindo as pequenas vinícolas no regime tributário do SIMPLES porque aí seriam isentas de pagar ST.
Seria uma ajuda vital, capaz de possibilitar a sobrevida da maior parte delas.
Infelizmente isto foi negado na última inclusão de novas centenas de categorias no SIMPLES feito recentemente pela Presidente Dilma.

Isto deveria ter mobilizado todo o setor, as associações de classe, os produtores e principalmente o IBRAVIN que é a entidade máxima.
Que foi feito? Nada. Por quê?

Porque vivem no mundo da lua e porque o foco é a defesa dos grandes grupos.

As grandes vinícolas utilizam para distribuir seus produtos o canal direto principalmente supermercados que se creditam dos impostos pagos e por isso ao final são pouco afetados pela ST.

Se no lugar de ficar inventando travas para os vinhos importados o setor pleiteasse a inclusão JÁ das pequenas vinícolas no SIMPLES promoveria um ato de justiça. Ao final o desGoverno incluiu centenas de setores e deixou as vinícolas fora por tratar-se de produtoras de bebidas alcoólicas. Não consideraram a história que há por trás delas e importância sócio econômica que representam.

Este deveria ser o objetivo mais importante daqueles que se auto declaram defensores da uva e do vinho.

Duvido que aconteça mas torço por isto!

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Os novos vinhos


Graças aos vínculos com técnicos europeus durante minha permanência na Martini e Rossi tive conhecimento do surgimento dos “vinhos orgânicos” na década de oitenta.

O Brasil não tinha a mínima ideia do que era isso.
Me recordo que sempre que surgia este tema todos esclareciam que a expressão “vinho orgânico” era mal aplicada porque a rigor o vinho orgânico não existia.
O verdadeiro nome era “Vinho de agricultura orgânica” e assim eram denominados em seus rótulos. A argumentação era que havia regras e fiscalização para comprovar que nos vinhedos não eram utilizados defensivos químicos mas que isto não acontecia nas cantinas.

Passaram-se algumas décadas e o tema chega com força redobrada ao Brasil e colabora para a constante renovação do mercado de vinhos. Isto ajuda a impulsionar vendas, destacar o vinho na mídia, chamar a atenção.

Mas, a meu ver, exige cuidados redobrados dos que estão envolvidos nesta nova modalidade para evitar perda de credibilidade pelo abuso e descontrole.

Em primeiro lugar é importante defini-los claramente. Definir quais são as regras vigentes para a produção de suas uvas e quais são as regras para a vinificação.

Na produção de uvas parece estar bastante claro mas na vinificação não.
O uso de anidrido sulforoso, principal bandeira, é permitido ou não?
Estes vinhos têm de ter absoluta ausência deste conservante ou é permitida uma pequena quantidade? Se for pequena, quanto é o máximo?

Se for proibido o uso de anidrido, quem comprova que inexiste nos vinhos? Existe algum órgão credenciado e independente que ateste esta situação?

Se o uso é permitido, ainda que limitado a baixas quantidades, os vinhos se encaixam na Lei Brasileira de Vinhos que estabelece os teores máximos.

E sendo assim, qual a diferença com os vinhos “normais, não orgânicos”. Os produtores sérios (e acreditem, são maioria!) utilizam baixos teores de anidrido por uma questão de princípios.

Produtores que elaboram uvas sadias com equipamentos modernos e higiênicos e mantêm seus estabelecimentos limpos e bem cuidados, não precisam utilizar quantidades importantes de anidrido. Não é necessário!

Confesso que como produtor de vinhos e espumantes me incomoda um pouco ouvir de alguns exaltados frases a respeito destes produtos do tipo: “vinhos sinceros”, “vinhos naturais”, “vinhos verdadeiros”, etc.

Nossos vinhos, os que elaboro eu, os que elabora Eduardo Anghebem, os que elaboram centenas de enólogos dedicados e sérios, não são naturais, são artificiais? Não são sinceros, são falsos? Não são verdadeiros?

Temos de ter cuidado para não repetir mais uma vez a velha e odiosa formula utilizada as vezes quando aparecem novas uvas ou novas regiões: somos os melhores, finalmente surge o verdadeiro vinho, a uva maravilhosa, a nova Califórnia, a variedade “vocação”, etc.etc.

Na grande maioria das vezes estas afirmações são feitas antes da terceira folha.

Vamos tomar cuidado, vamos devagar, falemos menos e ouçamos mais o que o vinho tem a disser. O tempo é o melhor aliado das coisas verdadeiras.

quarta-feira, 18 de março de 2015

O apaixonante e complicado negócio do vinho




Somente os que produzem uvas e vinhos sabem a realidade do negócio.

Os produtores mais antigos são mais cautelosos, conservadores porque os calos em suas mãos não surgiram por acaso.
Os novos investidores, movidos pelo entusiasmo e ânsia de participar do mundo da uva e do vinho, são mais audazes apesar de as vezes possuírem conhecimentos limitados do negocio com um todo.

Porque quem deseja produzir vinhos a partir de vinhedos próprios para comercializa-los no mercado interno ou exporta-los, precisa entender que cada uma das variáveis, uva-vinho-comercialização, estão intimamente ligadas e não funcionam separadas ou desconectadas.

A realidade é que a vitivinicultura é movida pela paixão, mas impulsionada pela técnica, pelo conhecimento, pela experiência.

A viticultura representada pelas figuras simétricas que formam um manto verde, enche os olhos despertando emoções mas esconde um desafio monumental que exige paciência, esforço e tempo para vence-lo. Os grandes vinhos não surgem por acaso. São resultantes de uvas bem tratadas, maduras, sadias, perfeitas para o tipo de vinho aos qual se destinam.

A videira é uma trepadeira que cresce em qualquer cantinho de terra mas não se engane: ela gosta de sol, de frio, de luz, de água mas é sensível aos excessos ou falta de qualquer um deles.

Não gosta nem precisa de alimentos em excesso, prefere a austeridade, a pedra, o calcário.
É delicada, vulnerável, sensível. Ao menor descuido fica doente, fraca, não consegue produzir bem.

Um detalhe: cada variedade é diferente da outra e por isso saber cultivar uma não significa entender de todas. Conhecer um pouco de viticultura então, exige anos de experiência, de atenção, de humildade e em especial de paciência, todo erro de hoje pode-se corrigir amanhã.

A vinicultura representada pela penumbra das caves onde repousam as barricas num ambiente absurdamente envolvente e romântico, também esconde desafios gigantescos que iniciam na postura produtiva: a de curto prazo onde as técnicas modernas como o uso de chips e equipamentos como osmose inversa, micro oxigenação e outros substituem o tempo e possibilitam vinhos mais padronizados ou a tradicional onde a procura da tipicidade não tem prazo mas tem fim: vinhos únicos, com caráter.

Dar-se-á melhor aquele que não forçar a natureza: cada região tem condições naturais para produzir melhor, um determinado tipo de vinho. Para dar um exemplo cito a Cabernet Sauvignon, uva que apesar de ter um apelo comercial importante, não é a mais adequada para a maioria das regiões brasileiras.

Após implantado o vinhedo, construída a cantina e elaborados os vinhos dá inicio a etapa mais difícil e complicada: a comercialização.

A oferta de vinhos no mercado interno é tão variável e a presença dos importados tão importante que somente produtos de alta qualidade e preços competitivos tem alguma chance. Mas não basta ter o produto, é necessário criar uma rede de distribuição que possibilite chegar aos consumidores da maior número possível de praças, com agilidade.

Definir o posicionamento de preço de cada produto e mantê-lo é outro desafio. É necessário decidir em que prateleira queremos ver nossos produtos: na de baixo preço onde as grandes vinícolas nacionais e estrangeiras brigam geralmente em supermercados, na de preços intermediários em lojas especializadas, mas seletiva e segura ou na de preços altos onde competem importados de prestigio e dão pouco resultado desde o ponto de vista de volume?

Parece pouco? Pense na gigantesca, injusta e inútil carga tributária que penaliza todos com pagamento de altos impostos antecipadamente. Você financia os governos.

Se ainda assim você insiste em permanecer produzindo, seja bem vindo ao apaixonante, romântico, envolvente, complicadíssimo e estressante mundo da vitivinicultura.

quarta-feira, 4 de março de 2015

A ave da PAZ




Quando cheguei ao Brasil em 1973, um técnico do Ministério da Agricultura disse para mim que a qualidade das uvas viníferas estava ameaçada pelos frangos.

Não entendi o porque dessa associação entre frango e qualidade das uvas até conhecer melhor os sistemas de produção de uvas na Serra.

Nos principais municípios produtores de uvas finas a criação de frangos para corte era um médio de vida para muitas famílias. Isto fazia com que a oferta da chamada “cama de aviário” fosse farta.

Alguns produtores de uva adquiriam a baixos preços este esterco de galinha e o agregavam a seus vinhedos. Este adubo provocava a explosão do sistema vegetativo e as videiras se transformavam em verdadeiras trepadeiras com uma produtividade digna do Livro dos Recordes.

O excesso de folhagem e produtividade empobrecia as plantas resultando em uvas pouco maduras, com poucos teores de açúcares.

O técnico tinha razão ao relacionar a baixa qualidade das uvas com os frangos.

Agora, em especial na região da Campanha Gaúcha onde as culturas extensivas de arroz, soja e milho abrem espaço para empreendimentos vitivinícolas, uma ave que é símbolo de paz esta tirando o sono e a produção de forma muito preocupante.

As pombas estão consumindo uma parte importante das uvas maduras, quase prontas para serem colhidas.

Não há dados concretos sobre a perda mas me arriscaria a disser que pelo menos 25% das uvas são perdidas. A foto que ilustra este artigo mostra o tamanho do estrago.

Porque este tipo de flagelo não acontece em outras regiões? Justamente pela estrutura produtiva da Campanha onde o alimento como arroz e milho atrai estas aves. Ao chegar a região e propagar-se ganham população e atacam ferozmente as uvas doces, tentadoras.

Acredito que algumas medidas preventivas deverão ser tomadas pelos produtores sob risco de continuar tendo perdas importantes.

Não vejo muitas alternativas fora as telas protetoras que podem resultar caras, algo próximo de 6 mil reais por hectare, mas cálculos simples demonstram que numa ou duas safras o investimento é amortizado.

Assim como em Mendoza na Argentina o risco do granizo obriga a incluir nos custos de implantação a tela anti-granizo, na Campanha deverá ser incluída a tela “anti-pássaros”.

Doe a primeira vez, mas depois passa.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Nossa situação




O quadro acima mostra a evolução da comercialização de vinhos e derivados nos últimos anos.

A situação é que do total de vinhos e espumantes de 244 milhões de litros, somente 15% é de finos e espumantes.

Ou seja a importância das uvas viníferas é ainda insignificante, estamos muito dependentes das uva americanas, nem pensar em abandona-las sem um plano alternativo que garanta trabalho e sustento para as dezenas de milhares de famílias que vivem da viticultura no RS.

Não devemos condenar os que bebem estes vinhos comuns que de tão carregados de açúcar desvirtuam o conceito de vinho.

Devemos oferecer a ele vinhos feitos de uvas viníferas de alto rendimento e cor com preços atrativos, agradáveis, de ser possível secos.

A queda constante na venda de vinhos de americanas parece mostrar que o mercado para este tipo possa estar estagnado ou em queda. Imagino que os produtores destes vinhos sabem a razão desta diminuição.

Penso que não precisamos de medidas drásticas (que vão agradar os entendidos) como a erradicação das uvas americanas já que os números mostram a fantástica evolução do suco de uva, único na sua espécie justamente por ser de uvas americanas. Este poderá ser um destino destas uvas.

O aumento do consumo do suco de uva é constante e promissor e será importante impedir o oportunismo que poderá levar a fazer bobagens oferecendo produtos de baixa qualidade buscando o baixo preço.

O quadro mostrado indica que tem muito a fazer e que as alternativas estão se oferecendo.

Nada poderá ser feito pensando em milagres de curto prazo. O horizonte é largo e limpo, mas está distante.

Com boas medidas poderemos encurtar a distancia. Mantendo a atitude atual, de indiferença e desunião, o horizonte será sempre horizonte.

Uma década perdida



O mercado de vinhos está em formação, a cada ano supera suas marcas, é dinâmico, competitivo, complexo, complicado. Por estas razões é tão apaixonante e desafiador.

É um dos poucos mercados no mundo com estas características. Talvez possamos nos comparar com os Estados Unidos salvo no poder de compra da moeda onde perdemos feio.

Quando falamos do consumidor brasileiro na realidade falamos de pelo menos meia dúzia de tipos de consumidores: o novo que nada entende e a curiosidade é sua principal característica, do já introduzido que aprende constantemente quando é humilde ou é insuportável quando se acha uma sumidade, do novo rico que bebe rótulo, em especial os caros, e que menospreza quem gosta de vinhos nacionais ou importados mais em conta e de muitos outros que compõem este magnífico mercado.

Mas, o mais importante é que todos se apaixonam pelo vinho e pelos espumantes, reconhecem suas virtudes, o introduzem em seus hábitos alimentares e com isso vão formando seu paladar, ficam mais exigentes sem notar e dificilmente abandonam esta encantadora bebida.

Sem dúvida que o futuro do mercado de vinhos e dos espumantes no Brasil é brilhante mas com certeza esse futuro será ocupado por quem oferecer maior competitividade, considerando que competividade é o preço do produto e sua relação com o conceito de valor que o cliente tem dele.

Todos sabem a luta constante que se criou para ocupar espaços neste mercado entre os produtos elaborados no Brasil e os de fora. E esta luta esta sendo perdida como mostram os números.

Sempre se argumenta que produtores brasileiros e estrangeiros deveriam se unir para aumentar o mercado que hoje consome somente meio litro de vinho fino ao ano é isto é absolutamente verdadeiro, é o caminho a ser seguido. O problema é que os vinhos importados estão fazendo a tarefa de casa, ganhar competividade, e os vinhos nacionais não.

As lideranças brasileiras da vitivinicultura, Ibravin e todas as entidades de classe não tem sabido fazer um trabalho sólido de valorização do produto nacional. Medidas erradas e inúteis, quando não prejudiciais, como a tentativa desastrada da salvaguarda, o selo fiscal, a burocracia crescente, os carnavais e os cómicos comerciais, nada conseguiram. O amadorismo e a desunião parecem ser a tônica do setor.

Temos de nos debruçar sobre os números, eles falam, eles mostram e demonstram.

Provavelmente 80% do volume consumido é de vinhos de preços accessíveis e a prova disso e o crescimento fantástico dos vinhos do Chile que em dez anos elevaram seu volume em 218%.

A formula é vinhos bons, confiáveis, a preço convidativo.

É por aí também nosso caminho.

Produzir ícones, super premium, reserva, reservado e reservadinho enchem o ego, mas não os bolsos nem ocupam espaço.

Insistir em apoiar a produção de vinhos “comuns” com uvas americanas e quantidades ilimitadas de açúcares é adiar a participação mais ativa no mercado.
Estes vinhos cumprem seu papel, mas está comprovado que não ajudam.

Ou o setor, unido, se arregaça as mangas e trata com seriedade o problema tomando medidas de médio e longo prazo, objetivas, focadas, ou em 2024 comprovará que não foi uma década perdida, foram duas.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Guardar é necessário?


Uma das formas de popularizar o consumo de vinhos é tornar mais simples o produto e suas “regras”, descomplica-lo.
Para complicada já basta a vida.

Lógico que o outro extremo, o da banalidade, do descaso, da generalidade não ajuda nem consumidor nem produto.

Um dos temas que frequentemente é tratado de forma generalizada é a conservação de vinhos e espumantes.
E nessa generalização os exageros levam ao desespero as pessoas que se iniciam.

Se para ter alguns vinhos em casa, em qualquer situação, é necessário dispor de um local com temperatura de 15º, umidade entre 60 e 70%, ao abrigo da luz, sem ruídos, sem trepidações e com arejamento, a solução sempre será construir “outra casa ou apartamento” ou adquirir uma adega climatizada de bom tamanho que custa alguns milhares de reais.

Tudo é exagero considerando três verdades:

- O vinho não é manteiga
- Somente alguns suportam guardas prolongadas...e a principal:
- O vinho foi feito para ser bebido, não para ser olhado.

Nenhum vinho ou espumante sofre variações perceptíveis em prazos de até 3 meses se conservado em condições razoáveis: ao abrigo da luz (em armário, na própria caixa, embrulhado com alumínio) e a temperatura estável e amena (ao redor de 20ºC).

Estas condições são fáceis de serem achadas em qualquer moradia.

Portanto se você quiser ter em sua casa ou apartamento somente o consumo de até 3 meses, não fique preocupado por não ter uma adega especial: não é necessária.

No entanto, se você gosta de guardar alguns vinhos já conhecidos, para acompanhar sua evolução por períodos mais longos, de 1, 2 ou mais anos, entenda que os brancos e espumantes tem mais a perder que a ganhar, os tintos jovens deixam de serem jovens com a guarda e os tintos de “guarda”, que foram maturados em carvalho e são encorpados e adstringentes, envelhecem lenta e pausadamente quando conservados em condições onde a temperatura é constante e baixa, próxima dos 15º C., ao abrigo da luz e local sossegado.

Para estes casos sim é necessário algum investimento sendo o mais recomendado as adegas climatizadas de 12-24-48 e 90 garrafas. Estas ocupam pouco espaço, são bonitas, práticas e construídas de forma tal que garantem as condições de temperatura e umidade ideais.

A quantidade e o tipo de vinho que você consome habitualmente irão determinar qual é a solução ideal para cada um.

Atualmente a oferta de vinhos em lojas e supermercados é tão grande e as condições de fornecimento e importação tão seguras que é necessário um bom motivo para ficar guardando vinho.

Escolha um fornecedor de confiança para o vinho diário, para as reservas e as raridades e durma tranquilo. Até porque se por acaso faltar o seu vinho preferido encontrará uma bela razão para ter novas experiências.

É assim, de experiência em experiência que nasce o conhecimento e a segurança.

Ao final, como sempre disse, a compra de vinho é um ato de risco, pode se dar bem ou pode se dar mal, mas sempre se aprende.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Novo Decreto


No meu ponto de vista é urgente uma atualização da legislação brasileira de vinhos no tema relacionado a chaptalização.

Creio que é fundamental criar uma categoria de vinhos finos NÃO CHAPTALIZADOS (ou sem agregado de açúcar exógeno) sem necessariamente fazer uso deste nome. Colocar “não chaptalizado” é como escrever em japonês. Poucas pessoas entenderiam.

Anos atrás (pelo menos vinte) foi feito um estudo por um grupo de enólogos do qual participei sobre novas denominações e se propus reservar a expressão VINHO FINO aos vinhos elaborados a partir de uvas Vitis viníferas SEM CHAPTALIZAR. Os que fizessem uso desta prática seriam denominados simplesmente VINHOS DE MESA DE VINÍFERAS.

Hoje não sei se seria esta a denominação mais adequada mas estou convencido que identificar nos rótulos os vinhos chaptalizados ou não seria fundamental, em especial para o estudo transparente das regiões vitivinícolas que estão surgindo.

Sempre afirmei que o problema de chaptalização não é as poucas gramas de açúcar adicionadas e sim o limitado grau de maturação que conseguem as uvas tintas. Os vinhos não serão melhores nem piores pela chaptalização, mas CERTAMENTE DIFERENTES, mais duros, mais verdes e a escolha da variedade ficaria mais importante.

Anos atrás não se dispunha de ferramentas para detectar o uso de açúcar exógeno na elaboração de vinhos mas hoje as técnicas de análises baseadas nos isótopos de carbono permitem fazer uma avaliação quanti e qualitativa.

Sei que existem interesses individuais que dificultam a rápida aplicação desta mudança via Decreto Presidencial, mas se todos pensassem no futuro e na credibilidade do vinho brasileiro, fariam todos os esforços para consegui-lo.

Seria um estímulo à baixa produtividade, o alto grau de maturação, à produção de vinhos tintos mais longevos e com mais personalidade.

Alem disto, e tal vez o mais importante, seria que gato passaria a ser gato, e lebre passaria a ser lebre.