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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Guardar é necessário?


Uma das formas de popularizar o consumo de vinhos é tornar mais simples o produto e suas “regras”, descomplica-lo.
Para complicada já basta a vida.

Lógico que o outro extremo, o da banalidade, do descaso, da generalidade não ajuda nem consumidor nem produto.

Um dos temas que frequentemente é tratado de forma generalizada é a conservação de vinhos e espumantes.
E nessa generalização os exageros levam ao desespero as pessoas que se iniciam.

Se para ter alguns vinhos em casa, em qualquer situação, é necessário dispor de um local com temperatura de 15º, umidade entre 60 e 70%, ao abrigo da luz, sem ruídos, sem trepidações e com arejamento, a solução sempre será construir “outra casa ou apartamento” ou adquirir uma adega climatizada de bom tamanho que custa alguns milhares de reais.

Tudo é exagero considerando três verdades:

- O vinho não é manteiga
- Somente alguns suportam guardas prolongadas...e a principal:
- O vinho foi feito para ser bebido, não para ser olhado.

Nenhum vinho ou espumante sofre variações perceptíveis em prazos de até 3 meses se conservado em condições razoáveis: ao abrigo da luz (em armário, na própria caixa, embrulhado com alumínio) e a temperatura estável e amena (ao redor de 20ºC).

Estas condições são fáceis de serem achadas em qualquer moradia.

Portanto se você quiser ter em sua casa ou apartamento somente o consumo de até 3 meses, não fique preocupado por não ter uma adega especial: não é necessária.

No entanto, se você gosta de guardar alguns vinhos já conhecidos, para acompanhar sua evolução por períodos mais longos, de 1, 2 ou mais anos, entenda que os brancos e espumantes tem mais a perder que a ganhar, os tintos jovens deixam de serem jovens com a guarda e os tintos de “guarda”, que foram maturados em carvalho e são encorpados e adstringentes, envelhecem lenta e pausadamente quando conservados em condições onde a temperatura é constante e baixa, próxima dos 15º C., ao abrigo da luz e local sossegado.

Para estes casos sim é necessário algum investimento sendo o mais recomendado as adegas climatizadas de 12-24-48 e 90 garrafas. Estas ocupam pouco espaço, são bonitas, práticas e construídas de forma tal que garantem as condições de temperatura e umidade ideais.

A quantidade e o tipo de vinho que você consome habitualmente irão determinar qual é a solução ideal para cada um.

Atualmente a oferta de vinhos em lojas e supermercados é tão grande e as condições de fornecimento e importação tão seguras que é necessário um bom motivo para ficar guardando vinho.

Escolha um fornecedor de confiança para o vinho diário, para as reservas e as raridades e durma tranquilo. Até porque se por acaso faltar o seu vinho preferido encontrará uma bela razão para ter novas experiências.

É assim, de experiência em experiência que nasce o conhecimento e a segurança.

Ao final, como sempre disse, a compra de vinho é um ato de risco, pode se dar bem ou pode se dar mal, mas sempre se aprende.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Novo Decreto


No meu ponto de vista é urgente uma atualização da legislação brasileira de vinhos no tema relacionado a chaptalização.

Creio que é fundamental criar uma categoria de vinhos finos NÃO CHAPTALIZADOS (ou sem agregado de açúcar exógeno) sem necessariamente fazer uso deste nome. Colocar “não chaptalizado” é como escrever em japonês. Poucas pessoas entenderiam.

Anos atrás (pelo menos vinte) foi feito um estudo por um grupo de enólogos do qual participei sobre novas denominações e se propus reservar a expressão VINHO FINO aos vinhos elaborados a partir de uvas Vitis viníferas SEM CHAPTALIZAR. Os que fizessem uso desta prática seriam denominados simplesmente VINHOS DE MESA DE VINÍFERAS.

Hoje não sei se seria esta a denominação mais adequada mas estou convencido que identificar nos rótulos os vinhos chaptalizados ou não seria fundamental, em especial para o estudo transparente das regiões vitivinícolas que estão surgindo.

Sempre afirmei que o problema de chaptalização não é as poucas gramas de açúcar adicionadas e sim o limitado grau de maturação que conseguem as uvas tintas. Os vinhos não serão melhores nem piores pela chaptalização, mas CERTAMENTE DIFERENTES, mais duros, mais verdes e a escolha da variedade ficaria mais importante.

Anos atrás não se dispunha de ferramentas para detectar o uso de açúcar exógeno na elaboração de vinhos mas hoje as técnicas de análises baseadas nos isótopos de carbono permitem fazer uma avaliação quanti e qualitativa.

Sei que existem interesses individuais que dificultam a rápida aplicação desta mudança via Decreto Presidencial, mas se todos pensassem no futuro e na credibilidade do vinho brasileiro, fariam todos os esforços para consegui-lo.

Seria um estímulo à baixa produtividade, o alto grau de maturação, à produção de vinhos tintos mais longevos e com mais personalidade.

Alem disto, e tal vez o mais importante, seria que gato passaria a ser gato, e lebre passaria a ser lebre.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Uvas do Brasil


Muitos falam das uvas emblemáticas de determinados países fazendo referência a variedade tinta ou branca que melhor representa os vinhos destes países. Geralmente é a que ocupa maior área cultivada.

Este conceito pode se aplicar nas regiões do Novo Mundo porque na Europa o nome da região predomina sobre a casta.

Bordeaux na França por exemplo, permite a utilização das variedades Cabernet Sauvignon, Franc, Malbec, Petite Verdot e Merlot em proporções que variam conforme a região. Já na América do Sul a Argentina é representada pela Malbec, Uruguai pela Tannat e Chile pela Cabernet Sauvignon e mais recentemente pela Carmenere.

E o Brasil?

As variedades plantadas nas diferentes regiões do RS foram escolhidas por razões mercadológicas levando em consideração os vinhos mais comerciais. Por isso as grandes quantidades de Cabernet Sauvignon e de Chardonnay existentes.

É de conhecimento público que o fator que prejudica as características das uvas tintas na RS é o excesso de chuvas na época de maturação e colheita. É raro o ano que chove menos de cem milímetros de janeiro a março. O normal é quase trezentos em dias alternados com sol o que prejudica fortemente a sanidade e maturação das variedades mais tardias, que ficam mais tempo expostas às intempéries.

A Cabernet Sauvignon é uma variedade de ciclo longo, completa o ciclo de maturação em março ou abril e sofre devido a isso.
Como a necessidade de Chardonnay é alta para a elaboração de espumantes esta variedade nunca foi questionada até porque se adaptou maravilhosamente bem.

Infelizmente se abandonou uma variedade como Cabernet Franc que predominava na década de sessenta e setenta e que muito bem representava os vinhos tintos da época.

Basear as escolhas em caminhos comerciais fáceis é desconhecer a realidade: o caminho nunca será fácil para os vinhos tintos brasileiros, pouco se fez para que isso acontecesse.
O setor terá de trabalhar muito e bem para ganhar a confiança do consumidor como aconteceu com os espumantes.

O fator principal será oferecer vinhos autênticos e originais. Entendo como autênticos os vinhos tintos que não precisem da “ajuda” da cor do Tannat ou da Alicante, dos aromas da madeira fácil como chips, lascas e tábuas, do sabor “amável” do carvalho, etc.
Estes são vinhos comerciais que enganam os consumidores novatos, mas por pouco tempo.

Além disso o caminho fácil está ocupado pela Argentina e Chile, campões na oferta de vinhos tintos jovens, frutados, amadeirados, fáceis de beber e em especial a preços muito atrativos.

Em minha opinião temos de abrir nosso próprio caminho, o caminho do vinho gaúcho que ninguém poderá ocupar.

E aí entra a escolha das variedades.

Pessoalmente sempre acreditei no potencial da Cabernet Franc e da Merlot por serem de ciclo mais curto e pela elegância e nobreza de seus vinhos.


Minhas experiências mais recentes na Campanha através de consultorias nas vinícolas Batalha de Candiota e Peruzzo de Bagé me convenceram que devemos concentrar nossos esforços técnicos e comerciais nestas uvas.

Por serem versáteis, fieis, nobres e com enorme potencial nas condições de clima e solo que predominam aqui.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Por uma questão de sobrevivência


Os números publicados recentemente em relação ao desempenho do mercado brasileiro de vinhos e derivados durante o primeiro semestre de 2014 não são nada alentadores. Mas são reveladores.

A venda de produtos nacionais cresceu 1,99% graças ao desempenho do suco de uva e dos espumantes doces moscateis mas em contrapartida os importados cresceram 14,11% impulsionados pelos vinhos. Os espumantes e champagnes importados caíram 8,54% o que demonstra a preferência e respeito que o consumidor brasileiro tem pelos produtos “da casa”.

Os vinhos de mesa nacionais feitos com uvas da espécie americana direcionados ao mercado que aprecia vinhos mais doces, recuaram 6,23% e os vinhos finos 5,79%.
Os espumantes, confirmando o bom desempenho de todos os anos, se mantiveram estáveis.

Estes números demonstram que as ações e medidas adotadas pelo setor brasileiro não estão dando resultado, ao menos em curto prazo.

A adoção do selo fiscal, anunciada como a solução para acabar com o contrabando que segundo informações da época, era de milhões de litros, contribuiu para burocratizar e onerar o trabalho das vinícolas. Não teve efeito prático nenhum. O contrabando corre solto ou sempre foi insignificante?

A fracassada tentativa de colocar barreiras aos importados deixou sequelas porque em alguns seguimentos de mercado a resistência aos vinhos nacionais aumentou.

As toneladas de recursos desperdiçados anualmente pelo Ibravin em ações caras e absolutamente inúteis como participação e patrocínio de Carnaval, parcerias com supermercados e campanhas publicitárias mal direcionadas somente beneficiaram os de sempre, duas ou três vinícolas grandes que continuam crescendo em detrimento dos pequenos produtores.

Contrariando as previsões das “cabeças pensantes” do setor que afirmam que o segundo semestre será diferente, posso garantir, apenas corrigindo a famosa frase do nobre deputado Tiririca, PIOR FICA.

Para completar o rol de comprovações da inoperância e inutilidade do papel do Ibravin, que jamais conseguiu ser a liderança que o setor precisa, o governo federal acaba de sancionar uma Lei Complementar que permite à centenas de setores empresariais brasileiros a inclusão no SIMPLES NACIONAL.

Através desta medida as empresas incluídas terão uma forte redução da carga tributária e deixarão de ser submetidas diariamente ao estupro da feroz ST.

Infelizmente o setor produtor de vinhos e derivados não foi incluído. Qual foi a reação do Ibravin? Nenhuma. Ainda não percebeu que perdemos a grande e única oportunidade surgida nos últimos séculos para reduzir a estúpida, injusta, elefantesca, corrosiva e predatória carga de tributos que pagamos.

TRABALHAMOS PARA PAGAR IMPOSTOS E O QUE É PIOR, FINANCIAMOS O GOVERNO JÁ QUE PAGAMOS ANTES DE RECEBER O RESULTADO DO FATO GERADOR DO IMPOSTO.

Proponho a única ação com alguma chance de êxito neste momento eleitoral, de forte pressão sobre o Governo: um grande acampamento na frente do Palácio de Governo em Brasília onde iremos comparecer representantes de toda a cadeia produtiva. Levemos e mostremos os símbolos de nosso patrimônio cultural: músicas italianas, ferramentas como enxadas, pás, tesoura de poda, nossas comidas como queijos, salame, copa, nossos vinhos de garrafão, finos, espumantes, alguns galhos de parreira secos que poderão simbolizar “o merecido descanso anual” ou o futuro de todos os parreirais, etc.

Tenho certeza que a mídia nacional dará ampla cobertura e a ressonância do movimento chegará aos ouvidos de deputados, senadores e executivo.

Não poderá faltar nenhuma entidade setorial do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e todos os estados produtores.
Estou convencido que este é o momento da pressão. A luta eleitoral cria uma situação favorável ao atendimento de reinvindicações que ganham velocidade de forma proporcional ao barulho.

Ou fazemos algo ou continuaremos trabalhando para pagar impostos.

Não estamos lutando pela sobrevivência de uma bebida alcoólica. Estamos lutando pela preservação dos valores culturais de uma região e de suas tradições em memória daqueles que de longe vieram a desbravar esta terra.

Ninguém conseguirá apagar a chama da paixão que nutrimos por aquilo que fazemos, ninguém nem nada impedirá que continuemos lutando pelo direito de desenvolver nossas vocações, nossas habilidades.

Ninguém conseguirá diminuir a importância do pequeno produtor, o artesão.

Mas não é justa esta luta desigual que nos freia, nos desestimula, nos agride.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Vinhos conforme a característica da matéria prima



A videira é uma planta excepcionalmente generosa, cresce em qualquer lugar. Mas a sua generosidade não é gratuita. Cresce sim, mas seus frutos mudam de característica conforme o solo e o clima.

No quadro acima mostramos o Ciclo Anual da Videira que neste caso se inicia logo após a colheita. Com a chegada das temperaturas mais baixas do outono o caule se estreita, a seiva começa a deter seu fluxo a as folhas amarelam e caem.

Inicia-se a fase do repouso que se estenderá todo o inverno, importantíssimo porque é durante esta etapa que a videira descansa acumulando energias através das raízes.

Com a chegada da primavera e com ela as temperaturas mais amenas, a planta “acorda” e antes disso se realiza a poda. A manifestação do movimento da seiva é o conhecido “choro” que nada mais é do que gotas dela correndo pelos cortes feitos nos braços. É o prenuncio do inicio do ciclo vegetativo, do surgimento dos primeiros brotos, da fase mais delicada.

Estes brotos irão crescer, os galhos se estenderão e começara a floração seguida da fecundação que originará os pequenos cachos compostos pelos grãos.
Estes terão a aparência de uma ervilha que crescerá devido a multiplicação celular, ganhará o formato de uma azeitona e seu tamanho definitivo.
Os grãos terão uma mudança na sua pele ou casca que ficará translúcida permitindo a entrada dos raios solares. O ciclo anual estará próximo de seu fim com a completa maturação da uva. Nesta fase o grão ganhará todos seus componentes em especial relacionados à cor, aos ácidos e açúcares.

Chega finalmente a fase pre-colheita quando o grão cresce ou se encolhe por conta da exposição ao sol e à água.
Quando chove se encharca e cresce, quando não chove se encolhe e concentra. Como a quantidade de componentes é a mesma o efeito da água é diluidor e isso explica a dificuldade que enfrentam os produtores de vinhos da Serra Gaúcha para produzir vinhos encorpados, alcoólicos e potentes quando há excessos de chuva.

Baixa produtividade, desbrote e desfolhe permitem amenizar em boa parte o efeito danoso do excesso de água porque poupam a planta e facilitam a circulação de ar e a entrada dos raios solares. Os vinhedos que realizam este tipo de prevenção levam vantagem sobre os que mantêm alta a frondosidade da planta, mas não conseguem alterar totalmente o efeito do excesso de chuvas.

É impossível lutar contra a natureza por isso é importante conduzir as elaborações conforme o potencial de cada variedade em cada situação.

Acredito que a nova tendência que parece começar a predominar no mercado consumidor, que prioriza vinhos sem excessos, medianamente alcoólicos e encorpados devido à enorme leva de nossos interessados, poderá beneficiar os produtores de vinhos mais leves, elegantes, convidativos, fáceis de beber.

Não seria o caso de deixar as elaborações de vinhos mais longevos e encorpados para safras mais secas, em menor volume e concentrar os esforços na elaboração de vinhos com estilo mais apropriado ao clima predominante em nossas regiões?

Não seria o caso de abandonar a corrida rumo a estilos de vinhos com os quais não nos identificamos e seguir a trilha que a natureza nos oferece?

Vale a pena pensar nisso.

domingo, 6 de julho de 2014

A enologia arte

O saudoso Francisco Oreglia, padre salesiano diretor da Escola de Enologia “Don Bosco” na cidade de Mendoza, Argentina onde me formei, afirmava com veemência: a enologia é uma arte que precisa de artesãos e não de cientistas.

O padre Oreglia foi o professor de centenas de enólogos espalhados pelo mundo que aprenderam com ele a enologia prática na verdadeira essência, aquela que traduz num honesto vinho a vocação da vinha.

Não há mistérios, não há fórmulas mágicas. Há vinhedos bem formados, pacientemente aguardados, sabiamente conduzidos que produzem uvas sadias e justamente maduras que nas mãos de pessoas que praticam a “enologia arte” se transformam em vinhos dignos e representativos desse vinhedo.

Fazer vinhos bons e honestos que representem o caráter da uva que o origina não tem nada de extraordinário nem exige estudos científicos profundos. Uma boa porção de matéria prima sadia e madura, uma pitada de sensibilidade, outra de moderação e uma de equilíbrio.

Assim surgiram os grandes vinhos do mundo e assim surgirão outros.
Quando perguntaram a Paul Pontallier, enólogo do Château Margaux qual o mistério da qualidade e prestigio de seus vinhos respondeu: Duzentos anos de tradição cuidando das uvas que a natureza nos entrega e conduzindo o processo natural de transformação em vinho sem maiores intervenções. Assim de simples.

Exemplos assim mantendo as devidas proporções existiam em todo o mundo e o vinho representava com mais clareza a vocação das diferentes regiões.

Lembro que em 1970, quando trabalhava com o saudoso Raul de la Mota na Bodega Arizu de Mendoza, elaborávamos um vinho tinto genérico (não tinha ainda a moda dos varietais) da marca Valroy a partir de uvas Malbec e Bonarda que era tão autêntico, marcante e especial que durante anos guardei na minha memória gustativa seu aroma e seu gosto.

Era elaborado de forma simples, sem manobras, sem manuseios, maturado em barris grandes de carvalho francês e envelhecido pacientemente por pelo menos um ano.

Mas infelizmente com a abertura dos mercados no mundo nos anos noventa, ótima em certos aspectos, veio também a globalização de costumes e gostos induzindo o surgimento de produtos padronizados.

Isto afetou marcadamente a enologia no mundo e o estilo dos vinhos produzidos. Os vinhos começaram a ser cada vez mais parecidos uns com os outros.

O despreparo e insegurança dos novos consumidores de vinhos em alguns países importantes e a curiosidade que esta bebida despertou nas pessoas e na mídia, acabou facilitando o surgimento dos chamados “formadores de opinião” que com maior ou menor peso começaram a influenciar no estilo dos vinhos considerados “de qualidade, dignos de serem bebidos”.

O mais famoso de todos capaz de consagrar ou condenar regiões, uvas e marcas, foi Robert Parker.
Se na enologia predomina o equilíbrio, na de Parker predominam os excessos: de madeira, de corpo, de álcool.
As notas de Robert Parker (reconhecidas como RP nos rótulos das garrafas) se transformaram em sentenças capazes de elevar o preço de vinhos desconhecidos a valores estratosféricos.

Depois surgiram centenas, milhares de “formadores de opinião”, pessoas, revistas, jornais, com muito menos peso que Parker, mas influentes.

O “estilo Parker” (que afortunadamente afetou o estilo somente dos vinhos tintos deixando incólumes os brancos e espumantes) se transformou no sonho de consumo de muitas cantinas que almejavam produzir vinhos parecidos capazes de ganhar mercado rapidamente.

Houve uma correria em direção ao “estilo Parker” e como não há formas naturais de encurtar o tempo, surgiram alguns “artifícios” travestidos de “tecnologia” como o uso de lascas (chips) de carvalho e a micro oxigenação para substituir as demoradas, caras e chatas barricas de carvalho, os processos como osmose inversa e concentração a baixa temperatura para retirar água dos sucos e obter mais cor e álcool que servem para substituir uvas bem conduzidas, moderadamente produtivas, sadias e maduras, etc.etc.

Os vinhos tintos modernos em especial do Novo Mundo como Argentina e Chile são muito parecidos entre sim. Boa cor, aromas intensos de madeira, quase achocolatados e sabores macios e aveludados. Pouco importa se são feitos com Carmenere, Merlot ou Cabernet Sauvignon e muito menos de regiões diferentes.

Mas como o consumidor de vinhos é progressivo, se aprimora, se torna mais exigente, esta fase parece estar acabando.

As pessoas cansaram dos vinhos padronizados e buscam produtos mais autênticos e diferenciados.

O futuro parece reservar um lugar privilegiado aos produtores que ofereçam vinhos com estilo próprio, que mantenham a cor, os aromas e o sabor da “terra e do clima” que originou suas uvas.

Esperemos que assim seja!

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Considerações sobre outra noticia


Recente noticia do uso indevido de um antibiótico chamado natamicina em vinhos suaves levantou dúvidas sobre a elaboração e comercialização deste tipo de vinho no Brasil.

Gostaria de contribuir para esclarecer da forma mais simples possível este tema para evitar desvios e danos para produtores e consumidores.

Que é a Natamicina?

É um antibiótico que teu seu uso autorizado na indústria de embutidos e farmacêuticos.
Como sabemos todo antibiótico impede a proliferação de microrganismos.

Ou seja: Não é um veneno, não oferece riscos à saúde quando utilizado moderadamente.

Na indústria vitivinícola não é autorizado por isso quem faz uso esta sujeito às penalidade estabelecidas em Lei.

Porque foi usado em vinhos?

O temor de quem engarrafa vinhos suaves, ou seja, com açúcares, é a possível fermentação destes açúcares formando gás carbônico em quantidade que provocaria a explosão das garrafas ou garrafões.

A grande maioria dos produtores de vinhos suaves usam um anti-fermentativo chamado Sorbato de Potassio que é permitido e amplamente utilizado na indústria de alimentos.

Condenar os vinhos suaves como um todo é uma injustiça e uma bobagem. No mercado brasileiro de vinhos há uma importante participação, mais de 70%, dos vinhos de mesa suaves, elaborados com uvas de origem americana. Este consumo é concentrado nas pessoas de pouca renda e está muito consolidado.
Apreciam vinhos “docinhos” e somente a oferta de vinhos mais secos, elaborados com uvas de origem europeias e com preços convidativos poderá alterar este hábito.

Porque estes produtores não utilizaram Sorbato?

Porque o Sorbato não faz milagres, não é um antibiótico. Este conservante atua adequadamente em vinhos bem filtrados e embalados higienicamente. Cantinas pequenas sem instalações adequadas e pouca higiene se sentem inseguras e são seduzidas por ofertas de produtos eficientes em qualquer situação por vendedores de insumos sem responsabilidade.

É importante ressaltar a qualidade e idoneidade dos fornecedores de insumos enológicos no Brasil que trazem o que há de mais moderno de empresas credenciadas pela OIV da Itália, Portugal, França e Espanha principalmente.
Estes fornecedores não comercializam produtos não autorizados.

Utiliza-se somente em vinhos suaves?

Si porque se não há açúcar, não há risco de fermentação.

Outros países produtores utilizam natamicina?

Imaginar que o Brasil é pioneiro no uso deste antibiótico é no mínimo infantil. O Brasil é o país onde
mais se consome vinhos suaves e seu enorme mercado atrai a atenção e a cobiça de muitos produtores em especial dos vizinhos. Já houve denuncias não comprovadas em relação a alguns vinhos argentinos.
A fiscalização rigorosa do Ministério da Agricultura poderá trazer luz a este assunto.

Porque somente foram denunciadas e anunciadas cantinas brasileiras?

É uma incógnita. Nos próximos dias poderão surgir noticias sobre vinhos de outras origens.
É importante exigir transparência e igualdade de tratamento para todos os vinhos comercializados no mercado brasileiro, independentemente da origem.

Este episódio mancha a reputação dos vinhos brasileiros?

Não deveria porque em todas as atividades há empresas ou profissionais que não respeitam a lei, a ética e a correção.

É ingenuidade imaginar que não existem e por isso que as instituições credenciadas para essa finalidade, não devem medir esforços no combate a esses desvios.

Controlar eficientemente a produção de vinhos exige técnicos preparados, equipamentos modernos e eficientes e metodologia analítica avançada. Infelizmente o Brasil não investe o suficiente e os organismos oficiais estão sucateados.

Apesar disso há em Caxias do Sul um Laboratório de Referencia que tem dado suporte à fiscalização através do uso de métodos de determinação analítica sofisticados.

Através deles se combate o uso excessivo de açúcares, o estiramento do vinho e agora do uso de antibióticos.

Penso que deste episódio o setor sairá fortalecido porque demonstra que está atento e preparado para combater a fraude.

Creio que a pirotecnia do anuncio das cantinas poderia ter sido evitado. Teria sido suficiente atuar as cantinas, suspender seus registros e recolher os lotes existentes.

Às vezes a ânsia de aparecer de algumas pessoas se sobrepõe à prudência.
Na ótica dos preconceituosos isto é uma demonstração da baixa qualidade dos vinhos brasileiros. Seus refinados paladares poderão ter degustado vinhos estrangeiros com natamicina e nada terão sentido além do incomparável prazer de saborear um vinho “importado”