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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Temos de manter o IBRAVIN




A desunião tem sido uma das características mais nocivas do setor de vinhos gaúchos.

E essa desunião levará a extinção de uma entidade que foi criada com muito esforço, justamente para unir o setor: o IBRAVIN.

Eu fui testemunha porque acompanhei os esforços que na época André Cirne Lima fez como representante do Governo Estadual para costurar um acordo entre as entidades, formatar o modelo e estudar a origem dos recursos.

Depois de muito tempo e discussões se chegou ao modelo de IBRAVIN atual com participação do Governo Estadual e das entidades representativas da uva e do vinho.

Criado como ente que atenderia as ansiedades do setor, o IBRAVIN andou sozinho durante anos porque o setor permitiu, e fez algumas coisas certas e alguma erradas. Infelizmente as erradas foram mais graves.

Agora, devido a problemas relacionados a gastos excessivos e alguns não devidamente comprovados, por pura má gestão, está na iminência de ser extinto e os recursos a ele destinados, transferidos a outra entidade: a UVIBRA.

É bom lembrar que a UVIBRA foi contrária a criação do IBRAVIN, então soa um pouco estranho que agora queira assumir suas funções e claro, receber os 12 milhões a ele destinados.

Entre as declarações absurdas de alguns dirigentes, a mais reveladora é aquela que afirma que os recursos de agora em diante, serão destinados a promover os vinhos gaúchos e não todos os vinhos brasileiros.

A justificativa é que esses recursos resultam de contribuições das cantinas do RS. O que não se esclareceu é que esses recursos resultam de uma RENÚNCIA FISCAL do Governo Estadual já que o valor que as cantinas pagam é posteriormente descontado do ICM a pagar.

Do bolso das cantinas não sai nada. É o Governo que sustenta.

Propor promover somente o vinho gaúcho demonstra a visão míope que predomina no setor.

Precisamos falar do VINHO BRASILEIRO, sem distinção de tipo ou origem e lutar para que o exemplo do Governo gaúcho seja seguido por SC, PR, SP, MG, BA, PE e outros estados que produzam uvas e vinhos.

Desta forma haverá recursos para promover uma grande, duradoura e consistente campanha de promoção e publicidade que tenha como objetivo aumentar o consumo, dos miseráveis 1,8 litros por habitante/ano para 3-4-5 ou quem sabe mais.

Os importadores teriam de se engajar também nesta campanha com recursos porque o crescimento de mercado interessa muito a eles.

O Brasil representa um dos poucos mercados do mundo com potencial para crescimento importante do consumo de vinhos e espumantes.

Os países tradicionais estão sofrendo constantes quedas de consumo.

O problema do IBRAVIN se resolve fácil, sanando as pendências, nomeando um administrador competente que gerencie a entidade, reduzindo sua estrutura de 24 para menos de 10 funcionários e dando como missão prioritária o incremento do consumo em todo o país.

O IBRAVIN sobrevirá se as principais lideranças do setor, especializadas em mercado, em exportação, em marketing, em produção se unem formando um Conselho ou um Grupo de Trabalho ou o que for para orientar e gerir seu destino.

O Governo Estadual pode ter a melhor das boas intensões, mas se conduz erradamente o tema e extingue o IBRAVIN, ainda que temporariamente, data um tiro mortal no futuro da vitivinicultura brasileira.

Ele tem de continuar, com nova cara, com nova estrutura, com novos objetivos, bem administrado, transparente. Mas sendo apoiado por todos, sem ataques, sem estrelismos.

A participação dos vinhos nacionais no mercado não para de cair e o Acordo Mercosul / União Europeia virá, mais cedo ou mais tarde.

Não há outra solução que não seja aumentar o consumo, ganhando novos adeptos, incorporando o vinho aos hábitos gastronômicos, levando o consumo diário moderado aos lares, criando a cultura que passara de geração para geração como nos países tradicionais.

O lutamos todos juntos para construirmos nosso futuro, ou nos lamentaremos, com certeza mais tarde.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Breve histórico da evolução dos espumantes no Brasil – (Que eu vivi)





Todos conhecemos a origem do vinho de Champagne e sua evolução até nossos dias, passados quatrocentos anos. Hoje, com justiça, é considerado um dos vinhos mais emblemáticos e desejados do mundo.

No Brasil, a história é bem mais curta, somente algo mais de cem anos, mas não por isso menos interessante.

Vou me permitir relacionar as pessoas, os produtos e os acontecimentos que ao longo deste tempo, permitiram que os espumantes brasileiros ganhassem o prestígio que eles tem atualmente junto ao mercado consumidor. Representar quase 80% das vendas totais anuais, é uma clara demonstração desta afirmação.

Armando Peterlongo:

Foi indiscutivelmente o pioneiro que no ano de 1913 começou em Garibaldi a produzir espumantes pelo método tradicional. Com sua tenacidade e empreendedorismo, transformou a marca Peterlongo, em sinónimo de “champagne” como era chamado na época.
Ganhou prestigio, frequentou as mesas do Itamaraty e da sociedade brasileira. Garibaldi ganho fama como a cidade do champagne.

Georges Aubert:

Em 1951 chega à cidade esta empresa francesa disposta a produzir espumantes de qualidade pelo método charmat.
Em poucos anos, e tendo no comando Gilbert Troier, os espumantes Georges Aubert dividem a liderança com Peterlongo e contribui para a fama também da cidade.

De Gréville:

Em 1973 chega à Garibaldi a famosa Martini e Rossi, que na época tinha uma excelente rede de distribuição através da qual transformou o vinho Château Duvalier, no mais vendido a até hoje não superado como marca individualmente.

Em 74 vendia 1.200.000 cxs de 6 unidades. O Presidente na época, o saudoso Francesco Reti, um home visionário e conhecedor do mercado brasileiro como poucos, decidiu fazer instalações para produzir espumantes.

Eu tive o privilégio de ser escolhido em Mendoza em fins de 1972 para assumir o controle dos engarrafamentos do vinho em Caxias, e das obras de construção da cantina em Garibaldi.
Atuou como consultor o Sr. Silvain De Sournac, enólogo da vinícola Cazanove de Champagne.

O champagne De Gréville, apesar de ser elaborado pelo método Charmat, seguia a técnica de champagne e lançou o estilo de espumantes mais maturados.

De imediato, pela qualidade e pela distribuição, De Gréville ganhou destaque e mercado dentro do seguimento de espumantes premium.

Chandon:

Em 1976 chega também a Garibaldi, a empresa PROVIFIN, Produtora de Vinhos Finos, formada pela associação entre a Cinzano, que aportou sua rede de distribuição, a Monteiro Aranha que aportou recursos e a Chandon francesa que aportou o nome e os recursos técnicos.

O Diretor Técnico da Chandon da França, Philippe Culon trouxe do Chile o enólogo Mário Geisse que comandou durante anos esta vinícola que veio para reforçar a oferta de espumantes de qualidade.

Mario posteriormente sairia da Chandon para criar sua própria produtora e também contribuiria substancialmente para consolidar a imagem do RS como produtor de espumantes de qualidade.

O grande mérito da Chandon, além de ter contribuído para a imagem dos espumantes brasileiros junto ao mercado consumidor, foi ter substituído o nome champagne por espumante.
A denominação espumante oferecia resistência das cantinas porque era associado a sidras e espumantes de menor qualidade.

Com a chancela da Chandon o mercado aceitou esta denominação e os produtores o adotaram definitivamente. Brasil começava finalmente a respeitar as denominações de origem que não lhe pertenciam. Foi um grande passo.

Angelo Salton:

Assim como as empresas internacionais contribuíram com recursos investidos em mídia, com a distribuição a nível nacional e com modernas tecnologias de produção, Angelo Salton contribuiu, com seu entusiasmo e esforço, na expansão a oferta do mercado de espumantes brasileiros.

A vinícola Salton produzia na época vinhos finos nos quais concentrava seus esforços. Angelo muda o foco para a produção e comercialização de espumantes e assume pessoalmente o desafio de crescer substancialmente neste seguimento. Foi, como Francesco Reti da Martini em 1973, um visionário e o tempo demonstrou quanto estavam corretos.

Angelo iniciou seu incansável trabalho no estado de São Paulo onde morava e teve tanto êxito que a marca Salton se transformou em líder de mercado. Esta liderança não foi casual nem passageira.

Até hoje, Salton é líder de mercado na comercialização de espumantes e possui uma das mais modernas instalações de produção de espumantes pelo método Charmat.

Valduga:

Esta vinícola, dirigida pela admirável dupla João e Juarez Valduga, teve sempre como foco central a produção de vinhos. Desde os anos noventa produzem vinhos finos de qualidade e investem fortemente no eno-turismo.

A esse respeito é justo ressaltar que Juarez Valduga foi um dos idealizadores do Vale dos Vinhedos e muito do sucesso atual é devido a ele. Sem dúvida, outro visionário.

Com o tempo acrescentaram vinhos produzidos em outros países e reforçaram sua atenção nos espumantes. Quando a Domecq decide sair do Brasil e encerrar suas atividades em suas belas instalações em Garibaldi, a Valduga as adquire e cria uma vinícola, a Domno do Brasil onde produziria espumantes pelo método charmat.
Com a marca Nero ganha mercado rapidamente e contribui com seu esforço, para o aumento de consumo de espumante no Brasil.

Considero a Valduga uma das empresas vitivinícolas mais lúcidas do Rio Grande do Sul.

Há poucos anos, percebendo o avanço das cervejas artesanais, cria e lança a cerveja Leopoldina para entrar num mercado conhecidamente promissor.

Cooperativa Aurora:

Esta empresa é um exemplo de organização e dinamismo. Há poucos casos no mundo de uma cooperativa vinícola com tamanh
o sucesso.

Aurora, além de participar ativamente do mercado de espumantes, possui uma das instalações mais modernas para produzi-los pelo método charmat.
Aurora, assim como a Cooperativa Garibaldi, oferecem serviços de elaboração de espumantes (eu faço aí meus charmat) a vinícolas pequenas e possibilitam que estas possam participar do mercado. O investimento necessário para uma boa instalação é extremamente elevado e inviável para quem produz menos de 100 mil garrafas anuais.

Prosecco:

Este espumante da região do Veneto, na Itália, entrou muito forte no mercado brasileiro, em especial no estado de São Paulo e também contribuiu para o aumento de consumo. O nome, muito apropriado, se tornou sinônimo de espumante e até hoje alguns consumidores os confundem.

Este artigo não tem nenhuma pretensão de ser completo já que com certeza muitas pessoas, empresas e produtos mais também ajudaram a divulgar o espumante e fomentar o consumo.

Me desculpem por ter resumido nestes que citei.

É mais um relato do que vivenciei desde minha chegada ao Brasil em janeiro de 1973.

Aproveito para homenagear todos e agradecer pelo esforço.

Quero encerrar dizendo que tenho certeza que poucos produtos derivados da uva e do vinho, tem um futuro tão promissor como o espumante.

TIM TIM



segunda-feira, 17 de setembro de 2018

O erro está na base




Após quase 46 anos participando do mercado de vinhos e espumantes no Brasil, acho que posso dar minhas opiniões com alguma certeza que não estão totalmente erradas.

Participei e participo como produtor, dirigente de entidade e agora como microempresário.
O encerramento das minhas atividades como dirigente de entidade setorial me deixou algumas marcas e muito aprendizado.

Posso afirmar que o problema está na base. O problema é antigo.

O IBRAVIN foi idealizado para que o setor, sempre dividido, dispusesse de uma ENTIDADE MAIOR.
Apesar da feroz resistência da UVIBRA-União Brasileira de Vitivinicultura , entidade na qual as velhas figuras iluminadas ganhavam destaque e com isso mantinham seus egos devidamente alimentados, que não estava disposta a perder poder e fez o possível para impedir, o IBRAVIN nasceu como a figura institucional que finalmente uniria viticultores e vinicultores, pequenos e grandes, produtores de vinhos comuns e finos.

Mas isso não aconteceu, as influencias chegaram à nova entidade, a luta de egos continuou predominando e ao longo dos anos foi se transformando numa eficiente máquina de erros. Sua equipe é jovem, dedicada e eficiente e faz enormes esforços em beneficio do vinho nacional, mas os que tomam as decisões estratégicas, erram.

Primeiro erro gravíssimo

O IBRAVIN promoveu a catastrófica ação em pró das Salvaguardas, que através de taxas e impostos prejudicaria a venda de vinhos importados ajudando os vinhos nacionais. No lugar de se associar aos importadores, responsáveis pelo crescimento de consumo, a opção foi tentar acabar com eles.

Resultado: prejuízo para todos, imagem do vinho nacional arranhada, um fracasso que precisou ser constrangedoramente eliminado.

Segundo erro gravíssimo

Fazer uma ACORDO de boas intensões com as maiores redes de supermercados, para que expusessem mais os vinhos nacionais, aumentassem as vendas, etc.

Resultado: ZERO, porque partia da premissa que supermercado vende o que fornecedor quer. O supermercado reage a um único estímulo: preferencia de sua clientela.

Hoje uma boa parte dessas redes se transformaram em importadoras diretas e são responsáveis pelo feroz aumento de vinhos comercializados abaixo do custo e péssima qualidade provenientes em especial do Cone Sul, numa evidente concorrência predatória devido à desigual carga tributária.

Terceiro erro gravíssimo

Criação do SELO FISCAL como ferramenta para combater o contrabando e sonegação. Esta brincadeira séria aumentou a burocracia, os custos e infernizou a vida dos produtores, em especial os pequenos. Os vinhos importados? Logo ganharam o direito de não utilizar.

Resultado: após alguns anos de estúpida teimosia, decidiram eliminá-lo pela absoluta ineficiência.

Quarto e mais recente erro gravíssimo

Iniciar uma Campanha Publicitária com o simples objetivo de “virar a mesa”, buscar outro caminho para a falta de crescimento do consumo de vinho no Brasil.

Atacar as “velhas e ultrapassadas regras”, acabar com elas e propor uma nova relação entre o consumidor e o vinho. Ou seja, no lugar de tentar abrir novos caminhos, estão tentando dinamitar um dos existentes e criar uma nova mensagem, milagrosa, salvadora, redentora.

Resultado: atacam equivocadamente um dos grandes valores que o vinho tem, sua especificidade, seu valor emocional, seus valores, sua história, seus rituais, seu serviço.

O consumo prazeroso do vinho o distancia do alcoolismo, rechaça os excessos, condena a vulgaridade.

O setor de vinhos nacionais desmerece o trabalho incessante dos profissionais, os sommeliers, que foram preparados para o bom serviço e agora, via entidade maior recebem a mensagem: está tudo errado, vocês estão errados, se atualizem.

Isso, provavelmente custará caro, não somente ao IBRAVIN, mas também aos produtores de vinhos brasileiros.

Para não ser acusado de somente apontar erros, dou minha opinião sobre o que penso que deveria ser feito. Para quem me segue verá que não é novidade.

Ninguém precisa de pesquisa de mercado para saber que somente uma diminuta parcela da população bebe vinho.

Estamos há quase cinquenta anos sem ultrapassar 2 litros por pessoa de consumo anual, incluindo os vinhos de americanas. É necessário alargar o mercado, aumentar o consumo, é vital para o próprio vinho.

Como?

Com todas as ações que já se fazem, e uma GRANDE, CUSTOSA, DURADOURA E INTELIGENTE CAMPANHA PUBLICITÁRIA sobre o vinho como INSTITUIÇÃO.

Simplificando o consumo, valorizando a apreciação, que tenha leveza e emoção, que destaque os valores culturais, de família, que mostre a força e determinação do homem simples que há por traz de cada pé de parreira, da sabedoria e sensibilidade por traz de cada vinho elaborado.

Com que recursos?

Comprometendo com aportes todos os interessados no negocio do vinho como produtores brasileiros e estrangeiros através de suas entidades, importadores, distribuidores, governos municipais, estaduais e federais do Brasil e de outros países.

Os conhecedores do mundo do vinho sabem que há poucos mercados que ofereçam tantas oportunidades como o brasileiro.

É importante que todos se juntem ao redor da ideia “vamos fazer com que o brasileiro seja feliz consumindo vinho, com moderação, com prazer”.

Será uma tarefa fácil?

Com certeza não, em especial porque exigirá a participação de pessoas desvestidas de personalismo e imbuídas de espírito comunitário, pacientes, tenazes, decididas.

Tenho certeza que nos setores citados há inúmeros homens com esse perfil. Precisam se unir, arregaçar as mangas e trabalhar.

Acho também que o IBRAVIN, se pretende ser protagonista do crescimento do mercado de vinhos, terá de mudar sua postura, terá de incorporar, ouvir e fazer participar todos os que fazem parte desse mercado e podem fazer a diferença: importadores, sommeliers, donos de distribuidoras, donos de restaurantes, redes de supermercados, etc.

Se continua considerando-os inimigos, continuarão em frentes opostas, dividindo esforços, criando antagonismo quando o que se precisa é achar sinergias.

Enólogos e produtores de uva e de vinho, são magníficos do portão das propriedades para dentro. Não sempre conhecem o mercado e suas peculiaridades.

Se o IBRAVIN me permite, faria uma ultima recomendação, suspenda essa campanha. Reserve energias para algo mais eficaz.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Mais um erro





Em meu livro, Vinhos e Espumantes, Degustação, Elaboração e Serviço, editado em 1996, eu separava as duas posturas que devemos ter ante o vinho.
Leia abaixo o texto original.


Simplifique o ato rotineiro de "tomar vinho"

Ou seja, beba vinho na hora que quiser, no copo que tiver, misturado ou não. O vinho é e sempre será a única bebida capaz de satisfazer a sede do corpo e da alma.
Devemos lembrar que o consumo de vinho diluído ou misturado com água e/ou gelo permite a alguns países tradicionais manter elevado o consumo per capita e ainda educa o paladar aos sabores típicos do vinho.
Alguma vez experimentou o refresco de vinho (com água gaseificada e gelo) num dia quente, como substituto de uma eventual cerveja?


Valorize o ato especial de "apreciar um vinho"

Reserve para estas ocasiões as pequenas regras que permitirão aproveitá-lo ao máximo.
Neste caso sim são importantes tipo e tamanho do copo, temperatura correta, abertura antecipada, sequência correta, etc.
Saber apreciar vinhos exige um mínimo de investimento pessoal, como tempo, dedicação, interesse e, principalmente, humildade para nunca achar que já conhece tudo.
O caminho passa invariavelmente pelo consumo habitual, quase diário.
Proporcione ao vinho as mínimas condições para que possa lhe oferecer o melhor de si.

Certamente jamais se arrependerá disso.

Por esta razão não posso concordar com a campanha publicitária lançada recentemente pelo IBRAVIN onde se atacam e ridicularizam as “regras” do serviço do vinho.

Penso que passaram dos limites. Que devemos simplificar e desmistificar o vinho, não tenho dúvidas. Agora achar que todas as recomendações que resultaram de séculos de consumo habitual no mundo, são regras, e que por isso é preciso quebrá-las, é atacar o próprio vinho.

O vinho, esta bebida milenar que faz parte da cultura de inúmeros países do mundo, deve ser levado mais a sério.
A necessidade de simplificar não tem, necessariamente, de acabar e ridicularizar quem curte tomar alguns cuidados como escolher o copo adequado, a temperatura, a oxigenação.

Muito menos menosprezar, ainda que indiretamente, aqueles profissionais de serviço, os sommeliers, que estudam, pesquisam, dedicam boa parte de sua vida a tarefa de bem servir os amantes do vinho.

Esses amantes quando solicitam o serviço de um destes profissionais, não querem vinho em copo de geleia nem querem gelo no vinho. Não interpretam a correção do serviço como regra.

Infelizmente continuamos cometendo os mesmos erros.

Continuamos achando que para valorizar algo novo, produtos ou não, é necessário atacar o tradicional, desmerecê-lo, desvalorizá-lo.

Assim não se constrói, se divide, se perde, perdemos todos.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Wine Tour Mendoza - Parte 4





Bodega & Cavas de Weinert

Visitar esta vinícola foi como voltar ao tempo devido a minha amizade com Don Raúl de la Mota, enólogo que participou ativamente desde o inicio do projeto, lá pelos anos setenta, no Municipio de Lujan de Cuyo.

Um visionário brasileiro, Don Bernardo Weinert, proprietário da empresa Transportes Coral que atuava fortemente entre Argentina, Chile e Brasil, se apaixonou pelo mundo do vinho e em especial por Mendoza, adquiriu uma velha vinícola inativa e iniciou seu projeto contratando Don Raul.

Se o objetivo era criar uma vinícola para elaborar vinhos de alta qualidade, a escolha não poderia ter sido melhor.
Don Raul era daqueles enólogos exemplares que fundamentava seu trabalho em dois pilares simples e sólidos: qualidade da matéria prima e respeito ao tempo.

Uvas adequadamente maduras, sem exageros, sem busca da sobre maturação, quando os taninos atingem seu ponto certo.
Em relação ao tempo, Don Raul dizia que os vinhos nascem após o primeiro inverno, crescem lentamente e atingem, cada variedade diferentemente, a base da qualidade superior pelo menos com 4 anos de vida.

Eu conheci a filosofia de trabalho de Don Raul porque tive o privilégio de trabalhar com ele na Bodegas y Viñedos Arizu de Godoy Cruz em fins dos anos sessenta, logo após a minha formatura de enologo.

Foram dois anos de pura aprendizagem nos quais gravei a fogo a convicção de que as duas variáveis fundamentais de Don Raul, as aplicaria pelo resto da minha vida enológica.
Por isso minha luta diária contra o excessivo intervencionismo e o uso de insumos e recursos que procuram o vinho fácil, instantâneo, sem corpo nem alma.

Quando idealizei o roteiro e escolhi as vinícolas do Wine Tour Mendoza, o fiz pensando nesta vinícola e o resultado foi o esperado.

O casarão velho restaurado impressiona pela sobriedade e elegância, chamando a atenção a cor rosada que lembra as antigas formas de pintar com sangue de boi.



Já ao entrar, a penumbra nos corredores “recheados” de toneis de diferentes tamanhos de carvalho de Nancy, revela a forma antiga de elaborar vinhos tintos, demoradamente, os aguardando, os cuidando, os deixando evoluir com o auxilio da diminuta oxigenação que oferecem esses barris devido ao tamanho.

Nesta vinícola não existem tanques de inoxidável para conservação e as barricas estão presentes timidamente.



É outro jeito de fazer, a meu ver muito diferente das tendências atuais onde a espera parece incomodar.
As pilhas de vinhos de lotes especiais envelhecendo, entre eles um malbec de 1977, nos deixaram com água na boca, ansiosos para iniciar a degustação.

E ela chegou numa aconchegante sala na qual saboreamos os vinhos tintos a seguir.



Carrascal Tempranillo 2013

Um vinho com cinco anos é considerado jovem na vinicola Weinert e este vinho de uma variedade que parece ter encontrado um bom hábitat em Mendoza, se apresenta com uma bela e intensa cor ametista, brilhante, aromas vinosos muito intensos lembrando cerejas, na boca apresentou corpo médio, boa acidez e boa evolução dos taninos, muito agradável.

Carrascal Cabernet Sauvignon 2013

Sua cor vermelha escura intenso antecipa boa estrutura digna deste varietal. Os aromas chegam a ser adocicados lembrando frutas maduras. Na boca é macio, aveludado, com taninos marcantes típicos de Cabernet Sauvignon. É um vinho equilibrado, excelente.



Cabernet Sauvignon Weinert 2006

Apesar de não ser a uva emblemática argentina, a Cabernet Sauvignon vem se destacando pelos excelentes vinhos que proporcionada em Mendoza. Este vinho proveniente de vinhas francesas antigas é magnífico. Possui cor intensa, vermelha marrom com reflexos laranjas, profunda. Os aromas complexos onde a moderada baunilha não esconde as especiarias. Na boca é longo, saboroso, macio, convidativo, persistente. Muito bom.

Malbec Weinert 2006

Apesar da idade, este malbec é potente, elegante e sutil. Sem dúvida que a ação da madeira de grande tamanho permite a lenta e gradual maturação que possibilita este resultado. A madeira no esconde, revela, ressalta, evidencia as características desta variedade pouco valorizada no mundo mas tão especial em Mendoza.
Este Malbec, que terá uma longa vida pela frente, me deixou especialmente admirado porque comprovou quanto é questionável o uso massivo do aço inoxidável e as barricas de 225 litros novas, para a elaboração de todo e qualquer vinho "moderno".
Foi um visita fantástica, emocionante.
Parabéns Don Bernardo Weinert por ter preservado sua filosofia de trabalho ao longo dos anos.

domingo, 17 de junho de 2018

Wine Tour Mendoza - Parte 3



Nesta viagem feita no mês de maio, o critério da escolha das cantinas a serem visitadas foi daquelas que mantêm a tradicional forma de elaborar, maturar e envelhecer seus vinhos.

As cantinas que obedecem o tempo, as que comercializam vinhos de pelo menos 4 anos, mais amáveis, complexos, cativantes.

Sempre afirmei, sem conhecer a vinícola mas sim seus vinhos, que ante a dúvida, negando-se a torrar dinheiro, recomendo escolher um vinho Norton. Dificilmente ficará desiludido, são confiáveis.

Por isso, esta vinícola foi uma das escolhidas.

Norton

Já ao chegar você percebe que o bom gosto e a ordem serão predominantes.

Jardins perfeitamente cuidados e arborizados planejadamente, acessos amplos, tudo em ordem. Não parece uma cantina centenária cansada pelo tempo e pelo uso.

Como chegamos algo atrasados o programa foi invertido, almoçamos primeiro e fizemos a visita depois.

O almoço com “6 pasos” (menu na foto) foi servido num aconchegante restaurante rodeado de alguns toneis de carvalho antigo. Foi uma magnífica sequencia de pratos com camarões, coelho e carnes numa suculenta parrilada.

Surpreende como as vinícolas se prepararam para receber os visitantes, com muito profissionalismos, com chef, maitres e sommeliers bem treinados oferecendo um serviço perfeito.

O almoço no qual pratos e vinhos conviveram tão harmoniosamente é fruto de muito conhecimento.




Os espumantes e vinhos servidos se destacaram e falaram alto da qualidade desta casa.

A delicada entrada de queijos foi acompanhada com um espumante Cosecha Especial Brut Rosé safra 2012, excelente, fresco apesar da idade, amável, sedutor.

Elaborado a partir de um vinho base composto de Pinot Noir e Chardonnay surpreendeu pela vivacidade e intensidade de aromas e sabores.

O vinho a seguir que acompanhou o prato de camarões foi um Norton Mil Rosas Rosado Malbec 2017, perfeito, jovem, leve, equilibrado, muito bem elaborado.

O terceiro passo composto de carne de coelho chegou com o Norton Reserva Sirah 2014, elaborado com uvas provenientes de vinhedos velhos com mais de 30 anos.

O casamento foi perfeito e o vinho de cor vermelho rubi intenso, brilhante, chamava a atenção pelos aromas de amoras maduras e frutas secas como figos.

Em boca foi potente porém macio, redondo e aveludado com um final muito agradável.

Por fim o prato destaque, a esperada parrillada, trouxe o melhor vinho, um dos ícones da casa, o Quorum IV, elaborado a partir de 3 cepas: Malbec 2010 (20%), Cabernet Franc 2013 (28%) e Petit Verdot 2012 (52%).

Com este magnífico trio de uvas o vinho não poderia ser diferente. Junta a doçura dos taninos maduros do malbec, com a elegância do Cabernet Franc e a potencia e frescor da Petit Verdot. Fantástico, muito agradável.

Ao final, ante a falta da Graspa, nos foi oferecida a possibilidade de continuar com um dos vinhos. Eu optei pelo Quorum IV.



Durante a visita guiada por um enólogo, podemos perceber o cuidado da vinícola na elaboração, maturação e envelhecimento de seus vinhos, dando especial atenção aos tintos que repousam em grandes toneis ou barricas de carvalho, e as enormes pilhas de garrafas mantidas nas caves subterrâneas.

Nestas os vinhos tintos, desafiando o tempo, envelhecem, ganham complexidade, maciez, elegância.

Numa das caves fomos surpreendidos com a última degustação, um tinto de lote único de 14.000 garrafas, chamado Lote Negro, um assemblage de 65% de Malbec e 35% de Cabernet Franc, todos da colheita 2015 de vinhedos situados no Valle de Uco.

Este vinho com quase 15% de álcool que é apresentado como um vinho com capacidade de guarda de 10 anos, fechou com chave de ouro nossa visita.

É um verdadeiro potro selvagem, puro sangue, potente, robusto, valente, digno desta magnífica casa.



Como disse no inicio, não conhecia Bodega Norton, mas sempre confiei em seus vinhos.

Após esta visita fiquei satisfeito de ter antevisto através de seus produtos, a dedicação e o empenho que esta casa dá a toda sua produção.

Obrigado Norton pela oportunidade. Voltarei!




segunda-feira, 4 de junho de 2018

Wine Tour Mendoza – Parte 2




O roteiro estabelecia que visitaríamos duas cantinas por dia, quatro no total.

Uma de manhã com almoço e uma à tarde. Julgo que um número maior, quando a pretensão é fazer visitas demoradas com degustação, seria cansativo e repetitivo. Qualidade antes que quantidade.

No primeiro dia nos aguardavam Carmelo Patti as 11:00 hs e Bodega Norton as 13:00 hs com almoço. O dia prometia em especial porque não conhecia nenhuma.

Carmelo Patti

O lugar é simples e despojado, mas um quadro com o rosto de Carmelo Patti na parede da recepção me deixou a impressão que encontraria um astro pouco modesto.

Ledo engano. Quando Carmelo chegou e deu as boas vindas ao grupo num palavrado simples e acolhedor, senti que o conhecia de longa data.
Logo me identifiquei com a forma de praticar a enologia, de entender a viticultura, os tempos, sem mistérios, sem frescuras.

A cantina é um galpão onde Carmelo elabora seus vinhos com uvas produzidas por um amigo que é o fornecedor de sempre.

Não há equipamentos sofisticados nem instalações luxuosas. Tudo e simples como ele. O papo foi agradabilíssimo, nos contou sua história, sua filosofia de trabalho, sua passagem por algumas cantinas como consultor e em especial nos falou sobre seus vinhos.

O tempo passou rápido porque Carmelo, com sua simplicidade, sabedoria e riso fácil faz com que todos nos sintamos em casa. Fiquei feliz pela escolha.

A forma de elaborar é a tradicional, clássica com o mínimo de intervenção.
Controle rigoroso sobre a sanidade e maturação da uva, desengaçado e maceração por longos períodos para extração dos componentes da cor e estrutura, repouso e maturação em madeira nobre e longo envelhecimento na garrafa.

Todos os vinhos passam por barricas usadas onde maturam demoradamente por períodos variáveis, dependem da decisão única e pessoal de Carmelo.

Não há formulas, não há prazos preestabelecidos, cada vinho é maturado e envelhecido conforme sua evolução.

Como deve ser. Assim de simples.

Alguém avisou a Carmelo que eu era enólogo e ele imediatamente disse que me conhecia porque havia ouvido falar de mim. Com certeza foi uma gentileza deste homem generoso.
Ao sair me brindou com uma garrafa de seu Cabernet Franc 2013, me deu um cartão e pediu que enviasse por e-mail minha impressão. Com certeza o farei.

Ao final Carmelo nos apresentou 3 vinhos que degustamos, Malbec 2013 (u$ 21,00) , Cabernet Sauvignon 2008 ( u$ 18,00) e Gran Assemblage 2008 (u$ 32,00).

Se observam os preços, situados entre R$ 70,00 e R$ 120,00 podem ver que são absolutamente justos pela qualidade dos vinhos.

Todos os vinhos são medianamente alcoólicos, muito equilibrados, saborosos e delicados.

Talvez por ser muito novo, o Malbec foi o que menos me empolgou porque a meu ver falta tempo de evolução, intensidade. Por ter muita fibra com o tempo ficará magnífico.

Dos outros dois, o Cabernet Sauvignon surpreende pelo caráter varietal e delicadeza. É um vinho amável, sedutor.

Mas meu preferido foi o Gran Assemblage, com boa intensidade de cor, límpido, leves aureolas laranjas de evolução, aromas intensos de frutas secas muito bem harmonizadas com ligeiras notas de madeira nobre, sabor longo, intenso, delicado, vinoso.

Este vinho composto de Cabernet Sauvignon, Malbec, Merlot e Cabernet Franc traduz perfeitamente o estilo Patti, vinhos que apesar de marcantes, se destacam pela amabilidade, são saborosos, convidativos, totalmente desvestidos das características que predominam nos vinhos da moda, muito álcool, muito corpo, muita madeira, muito nada.

Sei que algumas pessoas vão ficar espantadas, mas se fosse por mim, os tomava de garrafão.