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segunda-feira, 7 de julho de 2014

Vinhos conforme a característica da matéria prima



A videira é uma planta excepcionalmente generosa, cresce em qualquer lugar. Mas a sua generosidade não é gratuita. Cresce sim, mas seus frutos mudam de característica conforme o solo e o clima.

No quadro acima mostramos o Ciclo Anual da Videira que neste caso se inicia logo após a colheita. Com a chegada das temperaturas mais baixas do outono o caule se estreita, a seiva começa a deter seu fluxo a as folhas amarelam e caem.

Inicia-se a fase do repouso que se estenderá todo o inverno, importantíssimo porque é durante esta etapa que a videira descansa acumulando energias através das raízes.

Com a chegada da primavera e com ela as temperaturas mais amenas, a planta “acorda” e antes disso se realiza a poda. A manifestação do movimento da seiva é o conhecido “choro” que nada mais é do que gotas dela correndo pelos cortes feitos nos braços. É o prenuncio do inicio do ciclo vegetativo, do surgimento dos primeiros brotos, da fase mais delicada.

Estes brotos irão crescer, os galhos se estenderão e começara a floração seguida da fecundação que originará os pequenos cachos compostos pelos grãos.
Estes terão a aparência de uma ervilha que crescerá devido a multiplicação celular, ganhará o formato de uma azeitona e seu tamanho definitivo.
Os grãos terão uma mudança na sua pele ou casca que ficará translúcida permitindo a entrada dos raios solares. O ciclo anual estará próximo de seu fim com a completa maturação da uva. Nesta fase o grão ganhará todos seus componentes em especial relacionados à cor, aos ácidos e açúcares.

Chega finalmente a fase pre-colheita quando o grão cresce ou se encolhe por conta da exposição ao sol e à água.
Quando chove se encharca e cresce, quando não chove se encolhe e concentra. Como a quantidade de componentes é a mesma o efeito da água é diluidor e isso explica a dificuldade que enfrentam os produtores de vinhos da Serra Gaúcha para produzir vinhos encorpados, alcoólicos e potentes quando há excessos de chuva.

Baixa produtividade, desbrote e desfolhe permitem amenizar em boa parte o efeito danoso do excesso de água porque poupam a planta e facilitam a circulação de ar e a entrada dos raios solares. Os vinhedos que realizam este tipo de prevenção levam vantagem sobre os que mantêm alta a frondosidade da planta, mas não conseguem alterar totalmente o efeito do excesso de chuvas.

É impossível lutar contra a natureza por isso é importante conduzir as elaborações conforme o potencial de cada variedade em cada situação.

Acredito que a nova tendência que parece começar a predominar no mercado consumidor, que prioriza vinhos sem excessos, medianamente alcoólicos e encorpados devido à enorme leva de nossos interessados, poderá beneficiar os produtores de vinhos mais leves, elegantes, convidativos, fáceis de beber.

Não seria o caso de deixar as elaborações de vinhos mais longevos e encorpados para safras mais secas, em menor volume e concentrar os esforços na elaboração de vinhos com estilo mais apropriado ao clima predominante em nossas regiões?

Não seria o caso de abandonar a corrida rumo a estilos de vinhos com os quais não nos identificamos e seguir a trilha que a natureza nos oferece?

Vale a pena pensar nisso.

domingo, 6 de julho de 2014

A enologia arte

O saudoso Francisco Oreglia, padre salesiano diretor da Escola de Enologia “Don Bosco” na cidade de Mendoza, Argentina onde me formei, afirmava com veemência: a enologia é uma arte que precisa de artesãos e não de cientistas.

O padre Oreglia foi o professor de centenas de enólogos espalhados pelo mundo que aprenderam com ele a enologia prática na verdadeira essência, aquela que traduz num honesto vinho a vocação da vinha.

Não há mistérios, não há fórmulas mágicas. Há vinhedos bem formados, pacientemente aguardados, sabiamente conduzidos que produzem uvas sadias e justamente maduras que nas mãos de pessoas que praticam a “enologia arte” se transformam em vinhos dignos e representativos desse vinhedo.

Fazer vinhos bons e honestos que representem o caráter da uva que o origina não tem nada de extraordinário nem exige estudos científicos profundos. Uma boa porção de matéria prima sadia e madura, uma pitada de sensibilidade, outra de moderação e uma de equilíbrio.

Assim surgiram os grandes vinhos do mundo e assim surgirão outros.
Quando perguntaram a Paul Pontallier, enólogo do Château Margaux qual o mistério da qualidade e prestigio de seus vinhos respondeu: Duzentos anos de tradição cuidando das uvas que a natureza nos entrega e conduzindo o processo natural de transformação em vinho sem maiores intervenções. Assim de simples.

Exemplos assim mantendo as devidas proporções existiam em todo o mundo e o vinho representava com mais clareza a vocação das diferentes regiões.

Lembro que em 1970, quando trabalhava com o saudoso Raul de la Mota na Bodega Arizu de Mendoza, elaborávamos um vinho tinto genérico (não tinha ainda a moda dos varietais) da marca Valroy a partir de uvas Malbec e Bonarda que era tão autêntico, marcante e especial que durante anos guardei na minha memória gustativa seu aroma e seu gosto.

Era elaborado de forma simples, sem manobras, sem manuseios, maturado em barris grandes de carvalho francês e envelhecido pacientemente por pelo menos um ano.

Mas infelizmente com a abertura dos mercados no mundo nos anos noventa, ótima em certos aspectos, veio também a globalização de costumes e gostos induzindo o surgimento de produtos padronizados.

Isto afetou marcadamente a enologia no mundo e o estilo dos vinhos produzidos. Os vinhos começaram a ser cada vez mais parecidos uns com os outros.

O despreparo e insegurança dos novos consumidores de vinhos em alguns países importantes e a curiosidade que esta bebida despertou nas pessoas e na mídia, acabou facilitando o surgimento dos chamados “formadores de opinião” que com maior ou menor peso começaram a influenciar no estilo dos vinhos considerados “de qualidade, dignos de serem bebidos”.

O mais famoso de todos capaz de consagrar ou condenar regiões, uvas e marcas, foi Robert Parker.
Se na enologia predomina o equilíbrio, na de Parker predominam os excessos: de madeira, de corpo, de álcool.
As notas de Robert Parker (reconhecidas como RP nos rótulos das garrafas) se transformaram em sentenças capazes de elevar o preço de vinhos desconhecidos a valores estratosféricos.

Depois surgiram centenas, milhares de “formadores de opinião”, pessoas, revistas, jornais, com muito menos peso que Parker, mas influentes.

O “estilo Parker” (que afortunadamente afetou o estilo somente dos vinhos tintos deixando incólumes os brancos e espumantes) se transformou no sonho de consumo de muitas cantinas que almejavam produzir vinhos parecidos capazes de ganhar mercado rapidamente.

Houve uma correria em direção ao “estilo Parker” e como não há formas naturais de encurtar o tempo, surgiram alguns “artifícios” travestidos de “tecnologia” como o uso de lascas (chips) de carvalho e a micro oxigenação para substituir as demoradas, caras e chatas barricas de carvalho, os processos como osmose inversa e concentração a baixa temperatura para retirar água dos sucos e obter mais cor e álcool que servem para substituir uvas bem conduzidas, moderadamente produtivas, sadias e maduras, etc.etc.

Os vinhos tintos modernos em especial do Novo Mundo como Argentina e Chile são muito parecidos entre sim. Boa cor, aromas intensos de madeira, quase achocolatados e sabores macios e aveludados. Pouco importa se são feitos com Carmenere, Merlot ou Cabernet Sauvignon e muito menos de regiões diferentes.

Mas como o consumidor de vinhos é progressivo, se aprimora, se torna mais exigente, esta fase parece estar acabando.

As pessoas cansaram dos vinhos padronizados e buscam produtos mais autênticos e diferenciados.

O futuro parece reservar um lugar privilegiado aos produtores que ofereçam vinhos com estilo próprio, que mantenham a cor, os aromas e o sabor da “terra e do clima” que originou suas uvas.

Esperemos que assim seja!

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Considerações sobre outra noticia


Recente noticia do uso indevido de um antibiótico chamado natamicina em vinhos suaves levantou dúvidas sobre a elaboração e comercialização deste tipo de vinho no Brasil.

Gostaria de contribuir para esclarecer da forma mais simples possível este tema para evitar desvios e danos para produtores e consumidores.

Que é a Natamicina?

É um antibiótico que teu seu uso autorizado na indústria de embutidos e farmacêuticos.
Como sabemos todo antibiótico impede a proliferação de microrganismos.

Ou seja: Não é um veneno, não oferece riscos à saúde quando utilizado moderadamente.

Na indústria vitivinícola não é autorizado por isso quem faz uso esta sujeito às penalidade estabelecidas em Lei.

Porque foi usado em vinhos?

O temor de quem engarrafa vinhos suaves, ou seja, com açúcares, é a possível fermentação destes açúcares formando gás carbônico em quantidade que provocaria a explosão das garrafas ou garrafões.

A grande maioria dos produtores de vinhos suaves usam um anti-fermentativo chamado Sorbato de Potassio que é permitido e amplamente utilizado na indústria de alimentos.

Condenar os vinhos suaves como um todo é uma injustiça e uma bobagem. No mercado brasileiro de vinhos há uma importante participação, mais de 70%, dos vinhos de mesa suaves, elaborados com uvas de origem americana. Este consumo é concentrado nas pessoas de pouca renda e está muito consolidado.
Apreciam vinhos “docinhos” e somente a oferta de vinhos mais secos, elaborados com uvas de origem europeias e com preços convidativos poderá alterar este hábito.

Porque estes produtores não utilizaram Sorbato?

Porque o Sorbato não faz milagres, não é um antibiótico. Este conservante atua adequadamente em vinhos bem filtrados e embalados higienicamente. Cantinas pequenas sem instalações adequadas e pouca higiene se sentem inseguras e são seduzidas por ofertas de produtos eficientes em qualquer situação por vendedores de insumos sem responsabilidade.

É importante ressaltar a qualidade e idoneidade dos fornecedores de insumos enológicos no Brasil que trazem o que há de mais moderno de empresas credenciadas pela OIV da Itália, Portugal, França e Espanha principalmente.
Estes fornecedores não comercializam produtos não autorizados.

Utiliza-se somente em vinhos suaves?

Si porque se não há açúcar, não há risco de fermentação.

Outros países produtores utilizam natamicina?

Imaginar que o Brasil é pioneiro no uso deste antibiótico é no mínimo infantil. O Brasil é o país onde
mais se consome vinhos suaves e seu enorme mercado atrai a atenção e a cobiça de muitos produtores em especial dos vizinhos. Já houve denuncias não comprovadas em relação a alguns vinhos argentinos.
A fiscalização rigorosa do Ministério da Agricultura poderá trazer luz a este assunto.

Porque somente foram denunciadas e anunciadas cantinas brasileiras?

É uma incógnita. Nos próximos dias poderão surgir noticias sobre vinhos de outras origens.
É importante exigir transparência e igualdade de tratamento para todos os vinhos comercializados no mercado brasileiro, independentemente da origem.

Este episódio mancha a reputação dos vinhos brasileiros?

Não deveria porque em todas as atividades há empresas ou profissionais que não respeitam a lei, a ética e a correção.

É ingenuidade imaginar que não existem e por isso que as instituições credenciadas para essa finalidade, não devem medir esforços no combate a esses desvios.

Controlar eficientemente a produção de vinhos exige técnicos preparados, equipamentos modernos e eficientes e metodologia analítica avançada. Infelizmente o Brasil não investe o suficiente e os organismos oficiais estão sucateados.

Apesar disso há em Caxias do Sul um Laboratório de Referencia que tem dado suporte à fiscalização através do uso de métodos de determinação analítica sofisticados.

Através deles se combate o uso excessivo de açúcares, o estiramento do vinho e agora do uso de antibióticos.

Penso que deste episódio o setor sairá fortalecido porque demonstra que está atento e preparado para combater a fraude.

Creio que a pirotecnia do anuncio das cantinas poderia ter sido evitado. Teria sido suficiente atuar as cantinas, suspender seus registros e recolher os lotes existentes.

Às vezes a ânsia de aparecer de algumas pessoas se sobrepõe à prudência.
Na ótica dos preconceituosos isto é uma demonstração da baixa qualidade dos vinhos brasileiros. Seus refinados paladares poderão ter degustado vinhos estrangeiros com natamicina e nada terão sentido além do incomparável prazer de saborear um vinho “importado”

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Considerações sobre uma noticia



Suzana Barelli divulgou em sua coluna da Revista Isto É Dinheiro que a Freixenet e a Miolo assinaram um acordo em 2012 para produzir no Vale dos Vinhedos espumantes com a marca espanhola.

Inicialmente serão 60.000 garrafas mas o projeto espera atingir 1 milhão em cinco anos. A Freixenet já comercializa anualmente no Brasil 840.00 garrafas de Cava, o que não é pouca coisa. É de imaginar que pretendem que a produção local não afete a venda de Cava. O inicio das vendas será no mês de junho.

É evidente que uma gigante e voraz empresa como esta, que vende 120 milhões de garrafas produzidas em diferentes países, não está iniciando operações no Brasil para ficar no milhão de garrafas anuais. Com certeza pretende participar ativamente deste mercado que não para de crescer e tem um potencial incrível já que cada brasileiro bebe anualmente tão somente uma taça de espumante.

Por ser uma bebida que é vista pelo consumidor como nobre, requintada, refrescante e versátil é fácil imaginar que os vinte milhões de litros consumidos anualmente no Brasil poderão ser duplicados em menos de uma década.

Confesso que ao ler a noticia fiquei muito surpreso. Depois de refletir bastante posso agora fazer algumas considerações a respeito:

1. A chegada da Freixenet para produzir em solo gaúcho vai ajudar a expandir o mercado porque é uma empresa que investe fortemente em mídia e ações junto ao mercado. Imagino que atuando como “local” sua postura será de maior foco no mercado e sua evolução.

2. A chegada da Freixenet vai mexer com os “brios” de alguns produtores, em especial dos grandes, que deverão ficar atentos aos movimentos da Freixenet. Acredito que de agora em diante os produtores brasileiros de volume vão perder um pouco o sossego ao qual estavam acostumados. Deverão tirar os olhos dos pequenos que “incomodam um pouco” e fixa-los no novo participante que poderá incomodar muito mais.

3. O posicionamento de preço de R$ 42,00 à garrafa ao consumidor é bastante audaz e mostra uma entrada no mercado de forma bastante agressiva. A carga tributária, o custo do frete e os aumentos constantes dos insumos básicos como garrafa e rolha desafiam a audácia desta declaração.

4. Com preço competitivo, agressividade comercial, boa distribuição (imagino que pelas mãos da Miolo) e esperemos uma qualidade que atenda as expectativas criadas, o mercado de espumantes não ficará igual após a chegada da Freixenet. A boa imagem desta marca está associada ao fato de ser um Cava, espanhol e importado por isso o produto brasileiro deverá estar a altura da sua fama.

5. A Freixenet está lançando um espumante elaborado com Pinot Noir e Chardonnay, uvas sabidamente escassas. Caso o volume chegue rápido, o efeito sobre o mercado de uvas poderá ser impactante porque havendo aumento de demanda, haverá uma possível disparada dos preços com efeitos negativos sobre a competitividade do projeto. Naturalmente isto afetará todos os que utilizam estas uvas em seus espumantes, salvo que a Miolo produza suficiente Chardonnay e Pinot Noir. Imagino que este tema foi muito bem estudado já que produzir um milhão de garrafas ou mais com uvas de qualidade adquiridas de pequenos produtores não será tarefa nada fácil. Até porque na atualidade não existe essa oferta.

6. Ao terem escolhido o método tradicional como sistema de elaboração decidiram pelo caminho diferente dos dois principais produtores gaúchos e líderes no mercado de espumantes. Parecem ter optado por espumantes mais complexos escolhendo um sistema com o qual é mais difícil atender situações de crescimento veloz e mais oneroso devido ao alto investimento em estoque de produto (garrafa, vinho). Talvez seja a razão da escolha do parceiro que não produz pelo método charmat no Vale.

7. Tenho dúvidas sobre o efeito que esta entrada repentina de uma grande produtora estrangeira poderá causar sobre o desenvolvimento do projeto “Vale dos Vinhedos”. Ao final é o primeiro caso de parceria de um produtor local com um produtor estrangeiro "concorrente".
Com certeza o segundo passo da Freixenet no futuro, caso o projeto seja exitoso, será ter as próprias instalações.

8. Será para o bem ou vai ajudar a aumentar ainda mais a concorrência predatória?

9. Estimulará a união ou fomentará a guerra?

Se a chegada da Freixenet é para desafiar-nos em relação ao nível qualitativo dos espumantes que produzimos, bem-vinda seja.

Se a chegada da Freixenet é um estímulo à busca criativa de novas formas de distribuição e comercialização, bem-vinda seja.

Espero firmemente que seja para o bem do mercado e de todo o setor vitivinícola brasileiro. O futuro promissor que nos aguarda não pode ser afetado.

terça-feira, 15 de abril de 2014

O ciclo anual que nos renova




Dedicado exclusivamente a elaborar espumantes a prática diária da enologia não teria sido completa sem minhas consultorias.

Tenho a sorte de participar de dois empreendimentos vitivinícolas na Campanha, a Vinícola Peruzzo em Bagé e a Vinícola Batalha em Candiota através dos quais posso manter atualizada a enologia prática.
Ambas vinícolas possuem vinhedos na propriedade que abastecem as cantinas pequenas, bem dimensionadas, com instalações e equipamentos modernos.

Praticamos a enologia não intervencionista, aquela que nossa ação é restrita a conduzir o fenômeno natural da transformação da uva em vinho, maturação e envelhecimento.

Sabemos todos que a qualidade bem da uva e do processo cuidadoso que respeita a natureza e os tempos.

A época da safra e elaboração é aguardada com ansiedade porque somos conscientes da sua importância. É nesse momento que nasce o estilo do vinho.

Na elaboração dos vinhos tintos, sejam para serem bebidos em curto tempo ou os de guarda, todo cuidado é pouco.

Na primeira remontagem, que é a operação que procura macerar o suco com as cascas, já temos uma ideia do potencial da uva, da sua capacidade de “entregar” toda sua força através da cedência de seus componentes, os antocianos e os taninos.
Uvas maduras possuem maior quantidade de antocianos e taninos mais “doces”.

Os antocianos são retirados de imediato, já nas primeiras horas porque são solúveis em água. A intensidade de cor do vinho irá depender muito deles.

Já os taninos, que são responsáveis pelo “esqueleto” do vinho, de sua estrutura, de sua força, são retirados posteriormente quando o processo da fermentação começa porque são solúveis em álcool.
Este comportamento dos diferentes componentes explica porque os vinhos jovens são feitos com macerações curtas e os de guarda com macerações longas.

Entender estes fenômenos, comprova-los ao longo dos anos e poder aproveita-los para moldar o estilo do vinho é a magnífica experiência que nós enólogos vivemos a cada ano.

Temos a sorte e o privilégio de poder iniciar tudo de novo a cada ciclo anual, a cada colheita, a cada elaboração.

O saudoso Padre Salesiano Francisco Oréglia definia a enologia como sendo a “Ciência e a arte de elaborar vinhos”.

Ciência porque é fundamental conhecer e aplicar todos os recursos científicos disponíveis.

Arte porque o vinho se elabora, se molda, se cria e para isso o profissional deve conhecer a capacidade da matéria prima que gera o produto, transforma-la, conduzi-la, imprimir sua cara.

É uma profissão apaixonante e desafiadora.

sábado, 12 de abril de 2014

O trabalho é o melhor marketing



O surgimento de novas regiões produtoras como a Campanha e a Serra do Sudeste no Rio Grande do Sul poderá fortalecer, finalmente, o mercado de vinhos brasileiros.

Em ambas já houve iniciativas importantes que infelizmente pouco ajudaram.
Me refiro especificamente a Almadén que investiu em vinhedos e cantina em Santana do Livramento e que perdeu o rumo adquirindo uvas na Serra e comercializando seus vinhos sem nenhuma referencia à região, e a Companhia Vinícola Riograndense que fez um investimento pioneiro no município de Pinheiro Machado na Serra do Sudeste, com excelente potencial, que posteriormente foi abandonado e vendido a vinícola Terrasul de Flores da Cunha que nunca o desenvolveu.

As duas regiões, Serra do Sudeste e Campanha, apesar de seu enorme potencial ficaram esquecidas por falta de investimentos com maior foco e interesse.

Houve sim alguns investimentos em vinhedos feitos por vinícolas da Serra que em nada contribuíram para desenvolver a vitivinicultura regional. Ficaram somente como pontos de fornecimento de matéria prima.

Agora a situação está mudando, em especial na Campanha.

Nesta região surgem projetos integrados com vinhedos bem conduzidos com produção limitada e cantinas com instalações e equipamentos modernos ajustados ao potencial produtivo e qualitativo de cada empreendimento.

Tenho o privilegio e a sorte de acompanhar como consultor dois deles, a vinícola Peruzzo de Bagé e a vinícola Batalha de Candiota e posso testemunhar todo o esforço e empenho que existe para fazer as coisas adequadamente, sem desvios, sem pressa.

Sempre afirmo que vinhedos de qualidade e cantinas modernas são “construídos” com algo de paciência e bastantes recursos. O problema começa quando os vinhos estão prontos e precisam ser colocados no mercado.

Dezesseis produtores da Campanha criaram a Associação Vinhos da Campanha e começam a trabalhar para obter uma Indicação de Procedência.

Por conhecer a região e alguns dos integrantes desta Associação tenho certeza que não cometerão os mesmos erros de outras velhas instituições. Atuei em muitas delas e a guerra de egos e a influencia negativa de algumas "grandes" produtoras impediam executar um bom trabalho. Tanto é verdade que até na maior entidade do setor na atualidade, o Ibravin, esta influencia quase colocou tudo a perder.

Espero que os associados desta entidade lembrem sempre que unidos são mais fortes que sozinhos, que ninguém e mais importante que outro, que ninguém faz o melhor vinho, que tamanho não é documento, que erros isolados comprometem o grupo e que os interesses coletivos devem prevalecer sobre os individuais.

Espero que se preocupem em criar uma identidade coletiva com seus produtos para que sejam diferentes, para que se destaquem no mercado.

Espero que fiquem atentos para que o marketing imediatista não influencie suas decisões e sua comunicação.

Espero que abandonem a ideia equivocada que são “A Califórnia Brasileira” por que não o são, nem a Borgonha nem o Bordeaux brasileiros. São a Campanha Gaúcha, uma região que quer demonstrar os resultados de toda sua potencialidade. A existência da Campanha gaúcha será relevante no mercado se seus produtos forem relevantes.

Espero que não esqueçam que a qualidade do vinho nasce no vinhedo, que nenhuma tecnologia consegue transformar uva de má qualidade em vinhos dignos. Espero que desestimulem (ou proíbam) o uso de “artifícios tecnológicos” que encurtam caminho, que diminuem tempos, que tiram a sabedoria e a paciência do processo produtivo e resultam em vinhos biônicos
.
Espero que evitem comparações bobas e inocentes do tipo “Aqui produzimos vinhos tintos melhores que a Serra”, “Somos melhores que eles”, etc.
Não há melhor nem pior. Há excelentes produtos que preservam suas características assim como há produtos abomináveis em todas as regiões do mundo. Na Serra há produtores que fazem vinhos excepcionais, únicos e também ha aqueles que ainda não conseguiram sair do garrafão.

Espero que lembrem que o fantástico potencial do mercado brasileiro de vinhos reservará um lugar de honra para todos os que ofereçam produtos dignos, típicos, com estilo próprio.

Não é nem será necessário brigar por espaço, haverá para todos.

Basta cada um achar o seu.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Bons tempos


Conhecida é a situação do setor produtivo de vinhos e espumantes brasileiros no mercado nacional.
Enquanto os espumantes ocupam e mantêm mais de três quartos do mercado, os vinhos sofrem para manter-se acima dos vinte por cento.

Contrariamente ao que dizem alguns “especialistas” não se trata de preconceito e sim de confiança. O brasileiro confia na qualidade dos espumantes e não confia na qualidade dos vinhos aqui produzidos.

Na realidade a produção de vinhos passou por fases complicadas onde podemos destacar uma fase de preços exageradamente altos, outra de forte influencia da parkerização, outra de casa as bruxas com os importados, etc.
Agora parece que as coisas começam a caminhar rumo a uma recuperação lenta e gradual. Estou animado, acho que o vinho nacional está iniciando uma fase de crescimento de confiança, de mercado e de reconhecimento.

O Ibravin está realizando ações promocionais inteligentes como o Circuito de degustação, os convites a jornalistas brasileiros e estrangeiros para visitarem a região, etc.
A maior entidade vitivinícola brasileira deve se preocupar em aumentar mercado e não em dividi-lo. Acho que deveria ter mais empenho em conseguir parcerias com os produtores de outros países, em especial argentinos e chilenos, para formar um fundo importante para mídia e promoções institucionais do vinho, sem marcas, sem fronteiras, somente vinho.

Quero destacar o maior motivo de minha confiança em dias melhores: os novos produtores de algumas regiões não tradicionais que com entusiasmo, seriedade e esforço estão contribuindo para o bem da uva e do vinho gaúchos.
Vinícolas como Guatambu, Peruzzo, Campos de Cima, Batalha e Dunamis são alguns exemplos de iniciativas de empresários que decidiram com coragem diversificar seus negócios e abraçar a causa do vinho.
É inegável a importância das grandes vinícolas que ocupam rapidamente qualquer espaço no mercado devido a sua eficiente rede de distribuição, mas também é inegável que estas vinícolas situadas em novas regiões estão dando um resultado “institucional” importantíssimo.
Expandem a cultura da uva e do vinho pela influencia que possuem em cidades da Campanha pouco habituadas a este produto transmitindo seu entusiasmo, destinam recursos humanos e financeiros para divulgar seus produtos e consequentemente a região, se agrupam em novas associações, em fim, ajudam o setor a erguer-se.

Espero que todo este entusiasmo e orgulho que possuem pelos produtos que elaboram não se transforme em cegueira e divisão.

É natural que haja tendência a criar ambientes de competição levando alguns a crer que são os melhores, os inovadores, os únicos e lamento disser que a roda já foi inventada.

Todos poderão fazer produtos de boa qualidade, dignos.

Poucos poderão fazer produtos com estilos marcantes, diferenciados.
O caminho é longo e lento.
Acredito que chegará mais longe quem concentrar seus esforços no vinhedo. Ele é a bola da vez. Cantinas modernas e novas tecnológicas são “compradas” com recursos, tanto mais rapidamente quanto maior o volume de investimento.

Já no vinhedo o maior investimento é o tempo, a experiência, a perseverança, a seriedade.

O motivo da minha fé em dias melhores é justamente por acreditar que os novos empreendimentos, que estão sendo feitos desde o vinhedo, darão magnificas respostas ao mercado com produtos típicos e representativos das regiões.