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domingo, 17 de junho de 2018

Wine Tour Mendoza - Parte 3



Nesta viagem feita no mês de maio, o critério da escolha das cantinas a serem visitadas foi daquelas que mantêm a tradicional forma de elaborar, maturar e envelhecer seus vinhos.

As cantinas que obedecem o tempo, as que comercializam vinhos de pelo menos 4 anos, mais amáveis, complexos, cativantes.

Sempre afirmei, sem conhecer a vinícola mas sim seus vinhos, que ante a dúvida, negando-se a torrar dinheiro, recomendo escolher um vinho Norton. Dificilmente ficará desiludido, são confiáveis.

Por isso, esta vinícola foi uma das escolhidas.

Norton

Já ao chegar você percebe que o bom gosto e a ordem serão predominantes.

Jardins perfeitamente cuidados e arborizados planejadamente, acessos amplos, tudo em ordem. Não parece uma cantina centenária cansada pelo tempo e pelo uso.

Como chegamos algo atrasados o programa foi invertido, almoçamos primeiro e fizemos a visita depois.

O almoço com “6 pasos” (menu na foto) foi servido num aconchegante restaurante rodeado de alguns toneis de carvalho antigo. Foi uma magnífica sequencia de pratos com camarões, coelho e carnes numa suculenta parrilada.

Surpreende como as vinícolas se prepararam para receber os visitantes, com muito profissionalismos, com chef, maitres e sommeliers bem treinados oferecendo um serviço perfeito.

O almoço no qual pratos e vinhos conviveram tão harmoniosamente é fruto de muito conhecimento.




Os espumantes e vinhos servidos se destacaram e falaram alto da qualidade desta casa.

A delicada entrada de queijos foi acompanhada com um espumante Cosecha Especial Brut Rosé safra 2012, excelente, fresco apesar da idade, amável, sedutor.

Elaborado a partir de um vinho base composto de Pinot Noir e Chardonnay surpreendeu pela vivacidade e intensidade de aromas e sabores.

O vinho a seguir que acompanhou o prato de camarões foi um Norton Mil Rosas Rosado Malbec 2017, perfeito, jovem, leve, equilibrado, muito bem elaborado.

O terceiro passo composto de carne de coelho chegou com o Norton Reserva Sirah 2014, elaborado com uvas provenientes de vinhedos velhos com mais de 30 anos.

O casamento foi perfeito e o vinho de cor vermelho rubi intenso, brilhante, chamava a atenção pelos aromas de amoras maduras e frutas secas como figos.

Em boca foi potente porém macio, redondo e aveludado com um final muito agradável.

Por fim o prato destaque, a esperada parrillada, trouxe o melhor vinho, um dos ícones da casa, o Quorum IV, elaborado a partir de 3 cepas: Malbec 2010 (20%), Cabernet Franc 2013 (28%) e Petit Verdot 2012 (52%).

Com este magnífico trio de uvas o vinho não poderia ser diferente. Junta a doçura dos taninos maduros do malbec, com a elegância do Cabernet Franc e a potencia e frescor da Petit Verdot. Fantástico, muito agradável.

Ao final, ante a falta da Graspa, nos foi oferecida a possibilidade de continuar com um dos vinhos. Eu optei pelo Quorum IV.



Durante a visita guiada por um enólogo, podemos perceber o cuidado da vinícola na elaboração, maturação e envelhecimento de seus vinhos, dando especial atenção aos tintos que repousam em grandes toneis ou barricas de carvalho, e as enormes pilhas de garrafas mantidas nas caves subterrâneas.

Nestas os vinhos tintos, desafiando o tempo, envelhecem, ganham complexidade, maciez, elegância.

Numa das caves fomos surpreendidos com a última degustação, um tinto de lote único de 14.000 garrafas, chamado Lote Negro, um assemblage de 65% de Malbec e 35% de Cabernet Franc, todos da colheita 2015 de vinhedos situados no Valle de Uco.

Este vinho com quase 15% de álcool que é apresentado como um vinho com capacidade de guarda de 10 anos, fechou com chave de ouro nossa visita.

É um verdadeiro potro selvagem, puro sangue, potente, robusto, valente, digno desta magnífica casa.



Como disse no inicio, não conhecia Bodega Norton, mas sempre confiei em seus vinhos.

Após esta visita fiquei satisfeito de ter antevisto através de seus produtos, a dedicação e o empenho que esta casa dá a toda sua produção.

Obrigado Norton pela oportunidade. Voltarei!




segunda-feira, 4 de junho de 2018

Wine Tour Mendoza – Parte 2




O roteiro estabelecia que visitaríamos duas cantinas por dia, quatro no total.

Uma de manhã com almoço e uma à tarde. Julgo que um número maior, quando a pretensão é fazer visitas demoradas com degustação, seria cansativo e repetitivo. Qualidade antes que quantidade.

No primeiro dia nos aguardavam Carmelo Patti as 11:00 hs e Bodega Norton as 13:00 hs com almoço. O dia prometia em especial porque não conhecia nenhuma.

Carmelo Patti

O lugar é simples e despojado, mas um quadro com o rosto de Carmelo Patti na parede da recepção me deixou a impressão que encontraria um astro pouco modesto.

Ledo engano. Quando Carmelo chegou e deu as boas vindas ao grupo num palavrado simples e acolhedor, senti que o conhecia de longa data.
Logo me identifiquei com a forma de praticar a enologia, de entender a viticultura, os tempos, sem mistérios, sem frescuras.

A cantina é um galpão onde Carmelo elabora seus vinhos com uvas produzidas por um amigo que é o fornecedor de sempre.

Não há equipamentos sofisticados nem instalações luxuosas. Tudo e simples como ele. O papo foi agradabilíssimo, nos contou sua história, sua filosofia de trabalho, sua passagem por algumas cantinas como consultor e em especial nos falou sobre seus vinhos.

O tempo passou rápido porque Carmelo, com sua simplicidade, sabedoria e riso fácil faz com que todos nos sintamos em casa. Fiquei feliz pela escolha.

A forma de elaborar é a tradicional, clássica com o mínimo de intervenção.
Controle rigoroso sobre a sanidade e maturação da uva, desengaçado e maceração por longos períodos para extração dos componentes da cor e estrutura, repouso e maturação em madeira nobre e longo envelhecimento na garrafa.

Todos os vinhos passam por barricas usadas onde maturam demoradamente por períodos variáveis, dependem da decisão única e pessoal de Carmelo.

Não há formulas, não há prazos preestabelecidos, cada vinho é maturado e envelhecido conforme sua evolução.

Como deve ser. Assim de simples.

Alguém avisou a Carmelo que eu era enólogo e ele imediatamente disse que me conhecia porque havia ouvido falar de mim. Com certeza foi uma gentileza deste homem generoso.
Ao sair me brindou com uma garrafa de seu Cabernet Franc 2013, me deu um cartão e pediu que enviasse por e-mail minha impressão. Com certeza o farei.

Ao final Carmelo nos apresentou 3 vinhos que degustamos, Malbec 2013 (u$ 21,00) , Cabernet Sauvignon 2008 ( u$ 18,00) e Gran Assemblage 2008 (u$ 32,00).

Se observam os preços, situados entre R$ 70,00 e R$ 120,00 podem ver que são absolutamente justos pela qualidade dos vinhos.

Todos os vinhos são medianamente alcoólicos, muito equilibrados, saborosos e delicados.

Talvez por ser muito novo, o Malbec foi o que menos me empolgou porque a meu ver falta tempo de evolução, intensidade. Por ter muita fibra com o tempo ficará magnífico.

Dos outros dois, o Cabernet Sauvignon surpreende pelo caráter varietal e delicadeza. É um vinho amável, sedutor.

Mas meu preferido foi o Gran Assemblage, com boa intensidade de cor, límpido, leves aureolas laranjas de evolução, aromas intensos de frutas secas muito bem harmonizadas com ligeiras notas de madeira nobre, sabor longo, intenso, delicado, vinoso.

Este vinho composto de Cabernet Sauvignon, Malbec, Merlot e Cabernet Franc traduz perfeitamente o estilo Patti, vinhos que apesar de marcantes, se destacam pela amabilidade, são saborosos, convidativos, totalmente desvestidos das características que predominam nos vinhos da moda, muito álcool, muito corpo, muita madeira, muito nada.

Sei que algumas pessoas vão ficar espantadas, mas se fosse por mim, os tomava de garrafão.

domingo, 3 de junho de 2018

Wine Tour Mendoza - Parte 1




Junto com a minha amiga Claudia Luce Lund, proprietária da Casa de Turismo em Porto Alegre, organizamos o que chamamos Wine Tour Mendoza de 16 a 21 de maio.

Com um grupo de 10 pessoas partimos para esta cidade na qual me formei e passei minha adolescência e juventude até vir ao Brasil em 1973.

Mendoza é uma das mais belas cidades da Argentina, situada ao pé dos Andes.

Por causa disso ela junta áreas desérticas e áreas com ampla vegetação entre as quais ganham especial destaque os vinhedos.

Esta pequena província é a maior e melhor produtora de uvas e vinhos do vizinho país, terra do Malbec, das frutas, das árvores, dos olivares, da água.

Sim, porque Mendoza é um verdadeiro oásis no deserto surgido pela mão do homem, que soube criar os “caminhos da água” através dos quais leva esse precioso líquido desde as geladas montanhas até as áreas cultivadas e cidade.

São rios que enchem lagos e represas que alimentam canais mais largos e rápidos, ou mais estreitos e lentos chamados acequias que irrigam os plátanos que dão sombra e frescor a cidade.

Sem água, Mendoza não existiria por isso há um culto à arvore, às flores, à natureza verde que muda de cor conforme as estações.
O clima destaca as estações de forma marcante sendo que nas extremidades o calor e frio são intensos e nas estações médias como outono e primavera as cores e os aromas tomam conta do ambiente.

Caminhar pelas calçadas de Mendoza num túnel de plátanos de sombra e ouvir o som da água escorrendo pelas acéquias centenárias é algo especial porque mostra a interligação entre ambos, um vive pelo outro, um está aí para o outro.

O City Tour feito no primeiro dia teve como finalidade mostrar ao grupo estes detalhes que destacam o esforço feito pelo homem ao longo de séculos.

O passeio pelo Parque General San Martin, em pleno centro da cidade destacou a admiração e respeito que existe pelos heróis nacionais sendo o General José de San Martin um dos maiores. O cruze dos Andes a cavalo e mula com seus soldados para libertar Chile e Peru foi um epopeia digna de ficar registrada num imponente monumento na cidade que ele amou.

A viagem até o mirador do Aconcágua já nos 3.000 metros de altitude, foi também uma bela experiência porque mostrou a imponência dos Andes, os matizes dados pelo minério às pedras que formam as montanhas, o silencio e o efeito da altura, o ar rarefeito, o frio, a neve, a natureza pura e limpa. Curioso saber que por menos de quarenta metros o Aconcagua não atinge a altitude de 7.000.

Confesso que tinha saudade destas sensações. Foi reconfortante voltar.

Após termos entendido as características desta região, concentramos nossas atenções nas vistas às cantinas programadas.

Todos os que me conhecem sabem que na minha longa passagem pela De Lantier, de 1973 a 2004, tive o privilegio de participar de todas as fases de evolução da enologia gaúcha.

A De Lantier foi a primeira cantina a incorporar o aço inoxidável na elaboração de vinhos brancos e a pioneira no uso de barricas de carvalho francês de 225 litros na maturação de vinhos tintos, lá pelos fins da década de setenta.

Por isso jamais poderia ser um crítico do uso destas ferramentas.

Mas o que me incomoda um pouco é comprovar que as cantinas modernas fazem uso do inoxidável e da barrica indiscriminadamente, afirmam que são a base da qualidade, esquecendo outros fatores como por exemplo a maturação e o envelhecimento lento e prolongado.

Por isso e para mostrar a meus companheiros de viagem que há outras formas de elaborar vinhos, escolhi cantinas que a meu ver conservam a “velha forma de elaborar vinhos tintos”.

Nela predomina a madeira, nobre, de carvalho sim, mas de maior tamanho para dar ao vinho o devido tempo para maturar de forma lenta e gradual.

Estas cantinas que visitamos colocam no mercado vinhos de pelo menos cinco anos, os aguardam e guardam, os afinam, os bem-tratam durante repetidos invernos.

E o resultado é totalmente diferente, encantador, mágico, digno do potencial que a terra e clima de Mendoza oferecem.

Com esses critérios escolhi as cantinas a visitar: Carmelo Patti, Norton, Cavas de Weirnet e Lopez.

Na próxima postagem relato as visitas e o destaque de cada um dos estabelecimentos.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Futuro borbulhante




Dificilmente cada brasileiro chegará a consumir num futuro próximo, o que os franceses consomem de espumantes a cada ano, quase 4 litros, mas tudo leva a crer que o futuro reserva um lugar especial a esta bebida tão versátil e sofisticada.

Na França, 65,4 milhões de pessoas, consomem 240 milhões de litros, no Brasil, 204 milhões consomem somente 24,5 milhões de litros.

Pode parecer pouco, mas o que importa é a evolução.
Em 2007, a população brasileira era de 184 milhões e o consumo de 11,8 o que representava 64 mililitros por pessoa, ou metade de uma taça.

Este consumo, pelos números apresentados acima, cresceu 84% passando para 120 mililitros, enquanto a população aumentou somente 10%.

Tenho certeza que esta evolução veio para ficar e a atribuo a alguns fatores como:

O brasileiro se identifica com o espumante: O brasileiro é alegre, festeiro, e nenhuma outra bebida é tão associada a esses momentos. Independentemente de classe social, as pessoas lembram de reuniões alegres, festivas, familiares, com amigos ao ouvir o estouro de uma rolha. Os rostos mudam, o sorriso aparece naturalmente, tudo muda com a sua chegada.

A mulher é destaque: Ter a mulher como aliada, sem sombra de dúvida, é o principal fator de consolidação do consumo de espumante como hábito saudável para o corpo e a alma.

Enquanto a cerveja parece estar associada a reuniões de homens, o espumante é o centro das atenções quando um grupo, pequeno ou grande de mulheres se encontra.
Elas consomem com a maior naturalidade, parecem ter descoberto que a festa é o espumante.

Além de consumir frequentemente, as mulheres desempenham um papel fundamental no crescimento do consumo ao mudar os hábitos de seus companheiros.

Qualidade dos produtos: Uma das variáveis importantes no frescor e leveza dos espumantes é o grau de maturação das uvas. Acidez e baixa graduação alcoólica são fundamentais e nesse aspecto a Serra gaúcha reúne naturalmente esta condição.

As uvas por conta do frio e das chuvas, tem dificuldade em maturar. Isto, que desafia tanto a produção de vinhos tintos, favorece a de vinhos para base espumantes.

Diferentemente da Argentina e Chile, que maturam em excesso as uvas, na Serra isto ocorre naturalmente e por isso os espumantes são mais frescos, marcantes e convidativos.

Maior acessibilidade: Num verdadeiro circulo virtuoso, o aumento de interesse por parte do consumidor brasileiro, provocou e provoca um acréscimo na oferta.

Lojas, supermercados e restaurantes, que antes ofereceriam um número muito limitado de marcas e tipos, agora destinam espaços destacados para os espumantes.

Maior oferta: Hoje e possível consumir bons espumantes em diferentes faixas de preço, desde o mais simples ao mais sofisticado.

O aumento de oferta fez com que o consumo de espumantes deixasse de ser restrito às camadas mais favorecidas da população. Este é um fator muito importante já que alarga o horizonte do consumo e populariza a bebida.

Confiança no produto nacional: Este é um fator de vital importância. A cada 10 garrafas de espumantes consumidas no Brasil, 8 são de produto nacional.
Isto demonstra quanto a qualidade e o preço dos espumantes brasileiros, atendem a expectativa e necessidade do apreciador desta magnifica bebida.

Por tudo isto, um brinde ao espumantes brasileiro, um brinde aos brasileiros que prestigiam produto e produtores com sua preferencia e finalmente um brinde especial para elas!!!

domingo, 25 de março de 2018

O que era omisso ficou confuso




Todas as legislações vitivinícolas do mundo procuram, nos capítulos relacionados a classificação dos vinhos, definir estes em função de diferentes parâmetros, sempre procurando estimular a qualidade e a superação de desafios, mas principalmente proteger o consumidor com regras claras e possíveis de serem cumpridas.

Para algumas como por exemplo os prazos mínimos de maturação ou envelhecimento, a legislação deve estabelecer as ferramentas de controle e/ou certificação necessárias.

A legislação brasileira sempre foi omissa, a tal ponto, que define os vinhos em somente duas categorias relacionadas ao tipo de uva:

Mesa: elaborados com qualquer tipo de uvas, das espécies labrusca (uvas americanas) ou vinífera (uvas europeias).

Fino fino: elaborados exclusivamente com uvas da espécie Vitis vinífera e com graduação alcoólica de 10% a 14%.

Apesar disto, e sem nenhum tipo de impedimento, algumas cantinas já utilizavam os termos Seleção, Reserva, Gran Reserva, Ícone, Premium, Super Premium deixando por conta do consumidor a definição dos mesmos.

Claro que este consumidor imagina que todas estas palavras constantes nos rótulos indicam algum tipo de qualidade especial. Ledo engano, nenhuma regra existia na legislação. E digo no existia, porque agora, através da Instrução Normativa Nro. 14 de 8 de fevereiro de 2018, o Ministério acaba de definir algumas categorias num verdadeiro esforço de imaginação. Para mim, o que era omisso, agora ficou confuso.

Vamos ao que é mais importante nesta Instrução.

Artigo 30: Em função de características adicionais de qualidade, o vinho fino e o vinho nobre (logo falaremos dele já que é um novo tipo), produzidos em território nacional, podem ser classificados como:

Inciso 1º: Reservado: vinho jovem pronto para consumo, com graduação alcoólica mínima de 10% vol.

Inciso 2º: Reserva: quando o vinho com graduação alcoólica de 11% vol. passar por um período mínimo de envelhecimento de 12 meses (tintos) ou 6 meses (brancos) sendo facultada a utilização de recipientes de madeira apropriadas.

Inciso 3º: Gran Reserva: quando o vinho com graduação mínima de 11% vol. passar por um período mínimo de envelhecimento de 18 meses (tintos) ou 12 meses (brancos) sendo obrigatória a utilização de recipientes de madeira apropriada de no máximo seiscentos litros de capacidade por no mínimo 6 meses (tintos) ou 3 meses (brancos).

Em relação a chaptalização é permitida em até 2% nos Reservados, 1% no Reserva e vedada para Gran Reserva.

Artigo 34: São classificados e denominados Vinhos Nobres, aqueles elaborados no território nacional exclusivamente a partir de uvas da espécie Vitis vinífera que apresentarem teor alcoólico de 14,1% vol. a 16% vol.
Neste vinho é vedada a chaptalização e pode ser seco, meio doce e suave ou doce.

Acredito que esta categoria, válida, deveria ter como primeira limitação as variedades de uva permitidas. Não todas as Vitis Viníferas, somente aquelas com potencial para vinhos com essa denominação. Quais? A serem discutidas.
Sobre a graduação alcoólica me parece fora de proposito estabelecer um máximo de 16% vol. graduação mais apropriada para vinhos licorosos. O correto teria sido aumentar a graduação dos vinhos Finos em geral para 15% vol e estava resolvida a questão. Sobre os teores de açúcares deveria ser somente seco.

A própria Instrução parece admiti-lo ao estabelecer em seu artigo 108 que “as bebidas alcoólicas, exceto as fermentadas, com graduação alcoólica superior a 15% vol. poderão conter em sua rotulagem a expressão bebida alcoólica espirituosa”.

Na minha opinião, com esta Instrução Normativa foi perdida uma grande oportunidade para estabelecer regras de “superação”.

A opção foi legalizar o comodismo e manter a oferta de vinhos nacionais mais confusa o que a meu ver é um tiro no pé.

Também se perdeu a oportunidade de classificar os vinhos das novas tendências conhecidos como Orgânicos, Naturais, Biodinâmicos, etc.
Estabelecer regras, padrões em especial em relação ao uso de SO2, etc. Hoje a liberdade é total e não há parâmetros igualando bons produtores dos aproveitadores.

Analisemos todas as novas categorias:

Reservado: categoria absolutamente dispensável porque só cria confusão, nada agrega e parece ter sido feita para dar cobertura à montanha de vinhos chilenos que chegam com essa categoria proibida em quase todos os países do mundo.
Mostra que os critérios não foram nada técnicos.

Reserva: Começa errada ao estabelecer somente 11% vol. como graduação alcoólica. Se nela é permitida a chaptalização de 1% vol. é porque estão admitindo fazer este tipo de vinho com uvas com açúcar potencial de 10%, verdes, inadequadas para a qualidade que se espera de um vinho Reserva.
A graduação mínima exigida deveria ser entre 12,5 e 13% vol. e proibida a chaptalização (verdadeiro freio da qualidade superior).

Continua errada ao exigir somente um “envelhecimento” de 12 meses para os tintos e 6 para os brancos. Significa dizer que todo vinho poderá ser considerado nesta categoria após um ano de elaborado. Ridículo, TODOS OS VINHOS PASSARÃO A SER RESERVAS e a categoria perderá todo e qualquer valor.

Vejamos como a Espanha, pais no qual esta classificação é mais clara, os define:

Reserva: vinhos envelhecidos por pelo menos 36 meses sendo no mínimo 12 meses em barricas de carvalho.
Ou seja, os vinhos Reserva tem de ser mais maturados e envelhecidos o que os leva a ser mais encorpados, robustos, alcoólicos.

GRAN RESERVA: acompanha o equívoco começado no RESERVA.

Na Espanha, são 60 meses sendo que 18 nas barricas. No Brasil, 18 meses total, sendo 6 em barricas. Ridículo, continuaremos tendo uma legislação permissiva e fraca, infelizmente.

Não achei, e se alguém sabe agradecerei me informe, como serão controlados os prazos estabelecidos de maturação e envelhecimento.
Seria muito bom se o Ministério credenciasse uma ou mais empresas certificadoras para que fossem as responsáveis de controlar estes prazos.
Se não o consumidor continuará sendo vítima dos aproveitadores.

Se a classificação dos vinhos não é estímulo à superação de viticultores e vinicultores, procurando menor produtividade, uvas mais sadias e maduras e métodos de elaboração com ciclos mais longos onde sabidamente o vinho ganha complexidade, amabilidade e firmeza, o resultado continuará sendo mediano, haverá avanços qualitativos somente nos vinhos produzidos por vinícolas sérias, que procuram incessantemente a qualidade superior.

Mas infelizmente, devido a legislação fraca, seus produtos serão “igualados” aos de produtores inescrupulosos que utilizam todo e qualquer mecanismo para oferecer vinhos baratos, gostosinhos, com sabores e aromas de chocolate, melosos, biônicos.

Estes continuarão usando os habituais chips que se transformam em românticas barricas em seus charmosos rótulos.

Acorda vitivinicultura do Brasil!!!

quinta-feira, 1 de março de 2018

Beber e apreciar




Meu livro "Vinhos e Espumantes, elaboração, degustação e serviço" editado em 1996, foi resultante das apostilas e lâminas de retroprojetor (alguém lembra deste equipamento revolucionário na época para dar aulas?) acumuladas desde 1988 nos Cursos de Degustação organizados na sede da Cantina De Lantier em Garibaldi.

Foram anos magníficos do despertar da curiosidade do brasileiro em relação aos "tabus e mistérios" que envolviam o vinho.
Entendi que minha missão seria desmistificar estes conceitos que, a meu ver, distanciavam o consumidor do vinho, o amedrontavam, o tornavam vítima do dessaber.

Naquela época já insistia que o vinho não tem mistérios, é natural, é da terra, é da região com seu clima e características, é feito pelo homem auxiliado pela natureza. Destacava que justamente por ser da terra, da região, era diferente das outras bebidas por ser diferente entre si.

Como achar melhor um Cabernet Sauvignon importado do que um nacional?
Nem melhor nem pior, diferentes.

E esse é o maior valor do vinho, ser capaz de ser diferente pela uva, pela região, pela idade, pela técnica de elaboração, pela decisão indiscutível do enólogo ao engarrafa-lo.

Complicado? Não, amplo, desafiador, infinitamente variável.

Gosta de produtos mais padronizados, mais "iguais"?
Quem sabe não bebe refrigerantes ou as bebidas fabricadas?

O vinho é elaborado.

Ante este desafio que é falar de um produto tão simples, mas tão variável, nós responsáveis pela divulgação do vinho e dos espumantes, temos de fazer todo o possível para não complicar com regras rígidas, sejam operacionais (temperatura, tipo de copo, decanter, arejamento, horário, harmonização, etc.) ou de postura (como tomar o copo, quanto encher, como cheirar, como engolir, bla, bla, bla.). Não é a única forma de beber vinho.

Em meu livro em 1996 já recomendava separar o ato de "tomar vinho" do ato de "apreciar vinho". Faze-lo nos ajudará a sair da camisa de força que alguns "prêmios nobels" da enologia insistem em nos colocar.

Simplifique o ato rotineiro de "tomar vinho"

Ou seja, beba vinho na hora que quiser, no copo que tiver, misturado ou não.
O vinho é e sempre será a única bebida capaz de satisfazer a sede do corpo e da alma.

Devemos lembrar que o consumo de vinho diluído ou misturado com água e/ou gelo permite a alguns países tradicionais manter elevado o consumo per capita e ainda educa o paladar aos sabores típicos do vinho.

Alguma vez experimentou o refresco de vinho (com água gaseificada e gelo) num dia quente, como substituto de uma eventual cerveja?

Nunca esquecerei quando nas visitas que fazia a minha família lá pelos anos oitenta, tinha encontros com meu cunhado Diego, longos, demorados, lentos, ao redor da mesa familiar onde repousava um garrafão de Malbec comprado por "chirolas" no armazém da esquina.

O bebíamos com naturalidade, num copo de vidro parecido aos de geleia, acompanhado de um pão caseiro dividido com a mão, um queijo "fresco" e um salame cortados a faca.
Eram horas e horas, divertidas, alegres, que passavam sem perceber.
O vinho? "Um malbec, se faltar pego outro garrafão" dizia o Diego.

Valorize o ato especial de "apreciar um vinho"


Reserve para estas ocasiões as pequenas regras que permitirão aproveitá-lo ao máximo.
Neste caso sim são importantes tipo e tamanho do copo, temperatura correta, abertura antecipada, sequência correta, etc.

Saber apreciar vinhos exige um mínimo de investimento pessoal, como tempo, dedicação, interesse e, principalmente, humildade para nunca achar que já conhece tudo.

O caminho passa invariavelmente pelo consumo habitual, quase diário.

Proporcione ao vinho as mínimas condições para que possa lhe oferecer o melhor de si.

Certamente jamais se arrependerá disso.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Se queremos, conseguimos





Na postagem "Está difícil" eu não culpei as redes de supermercados e os e-commerce pela situação, até porque elas devem cuidar de seus negócios e aproveitar todas as oportunidades. Para isso existem.

Se o mercado cresceu 25,55%, na minha opinião é porque tem mais gente bebendo vinho, não são os mesmos bebendo mais vinho e isso se deve à ação de redes e e-commerce. Mérito deles, lição para nós.

Quando falei de "marca diabo", me referi a que até anos atrás o que mais se via nas prateleiras eram as marcas mais famosas e tradicionais como Concha e Toro, Casillero del Diablo, Santa Ana, etc. Hoje se encontram marcas novas muitas delas das próprias redes e totalmente desconhecidas, sem tradição.

Isto nos deixa algumas lições que a meu ver são:

1. - É possível aumentar o tamanho do mercado. O brasileiro que aparentemente pouco conhece e pouco bebe, quer conhecer e quer beber. Temos de atende-lo oferecendo condições atrativas para seu bolso e seu paladar. O novo consumidor é atraído pelo status do vinho, pelo aspecto cultural.

2. - Marca conhecida não é, neste momento, garantia de vendas: Para o novo consumidor que está entrando no mercado, o nome famoso, a marca tradicional pouco importam. Ele quer preço accessível e produto confiável.

3. - Falar simples é fundamental: Precisamos parar de "assustar" as pessoas com discursos complicados, descrições sofisticadas, regras rígidas, condições de serviço inatingíveis, frescuras...

4. - Consumo diário garante futuro: Precisamos trabalhar para introduzir o vinho nos lares, fazer com que ele forme parte dos hábitos gastronômicos, da mesa diária, da reunião de amigos, dos churrascos, da família em torno da mesa.

5. - Democratizar a embalagem: Precisamos trabalhar embalagens "económicas" como o bag-in-box, o Magnum que democratizam o vinho e o colocam ao alcance de mais pessoas.

6. - Mais varietais e menos ícones e premium: Precisamos parar de "viajar" com preços absurdos em alguns vinhos. Falamos demais deles e de menos nos mais competitivos. Quando digo que meu vinho diário é o Chardonnay Varietal Aurora que adquiro a menos de R$ 30,00 num supermercado, as pessoas não acreditam que existam vinhos brasileiros de qualidade nessa faixa de preço. Há, mas são pouco falados. Insistindo em falar somente nos "grandes vinhos" damos razão às pessoas que afirmam que o vinho brasileiro quando é bom é caro.

Precisamos oferecer ao mercado novo, produtos mais competitivos, com boa relação preço qualidade. A festa dos vinhos com preços abaixo de R$ 20,00 vai acabar, não se sustenta. Por isso não deve balizar os preços de todos os vinhos, mas na situação atual o fator preço está pesando demais na decisão. Devemos entender que a época não recomenda exageros.

Todos os povos, as regiões, as comunidades que passaram por dificuldades extremas como guerras ou conflitos, ao fim delas, se convenceram que a união é a condição básica para superá-las.

Felizmente não estamos em guerra, mas é evidente que o setor tem de refletir sobre o futuro que lhe será reservado.

Os números são preocupantes e desafiadores. Preocupantes porque a participação caiu, desafiadores, porque demonstraram que poderá haver espaço para todos.

É chegada a hora da união. Chega de estimular o enfrentamento entre grandes e pequenos, chega de achar que o meu é melhor, é único, é mais natural que o do vizinho.

Não podemos esquecer que o vinho é conhecido como a "bebida dos povos", da fraternidade, da amizade, da cultura.

Só conseguiremos participar ativamente do promissor mercado de vinhos brasileiro deixando de lado todo individualismo, arrogância e soberba.