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quinta-feira, 23 de março de 2017

Emblemática




É habitual as pessoas citarem alguns vinhos como sendo emblemáticos de determinados países, Carmenere no Chile, Malbec na Argentina, Tannat no Uruguai. Estes vinhos, que representam geralmente uma importante porcentagem do total cultivado destas uvas em algumas regiões dos países, ganham tanta importância que acabam ofuscando outros vinhos de tanta ou maior qualidade.

No Brasil, onde a presença forte das uvas Vitis viníferas é relativamente recente, desde as décadas de setenta e oitenta quando se importaram grandes quantidades de mudas da França e da Itália, se busca uma variedade que seja a mais representativa das regiões produtivas.

Como a única região produtora nessa época era a Serra Gaúcha, nos referiremos a esta inicialmente.

A Serra começou certo e continuou errado.

Começou certo porque as primeiras uvas tintas foram Cabernet Franc e Merlot que se adaptaram bem, resultaram em excelentes vinhos e comercialmente tiveram bom desempenho, em especial a primeira chamada somente Cabernet.

O consumidor não tinha a menor ideia que existia mais de uma “Cabernet”.

A uva branca mais cultivada era a Riesling Itálica que resultava em vinhos frescos, aromáticos e extremamente agradáveis.

Com o tempo e a necessidade de ganhar mercado, as vinícolas procuraram os caminhos mais rápidos.
Assim surgiram vinhos de marcas com apelo francês como Château Duvalier, Maison Forestier, Baron de Lantier, Georges Aubert, Saint Germain e outros. Com esses nomes era necessária a presença de uma variedade que os representasse e a escolhida foi a Cabernet Sauvignon, famosa, charmosa, base dos grandes vinhos do mundo, apelativa, perfeita.

O erro não foi a escolha desta variedade de ciclo tardio, foi abandonar totalmente a Cabernet Franc e relegar ao segundo plano a Merlot.

Quem elabora vinhos sabe da importância do clima na fase pre-maturação, em especial as chuvas.
Quando o grão encerra a fase de crescimento intracelular e define seu tamanho, a água das chuvas o encharca provocando um efeito diluidor.

Por isso as variedades de ciclo mais longo como Cabernet Sauvignon, sofrem mais o efeito das chuvas que infelizmente são frequentes.

Na minha longa experiência elaborando vinhos tintos no Rio Grande do Sul, tanto na Serra como na Campanha e Serra do Sudeste, comprovei como a Merlot e a Cabernet Franc, que são de ciclo mais curto, sofrem menos, maturam sem maiores sobressaltos, oferecem taninos mais doces e amáveis, são mais apropriadas para produzir bons tintos jovens ou envelhecidos.

Muitos dos vinhedos cultivados nas últimas décadas em novas regiões foram implantados, a meu ver equivocadamente, com predominância de Cabernet Sauvignon. Se fosse proprietário de um deles faria a reconversão através de enxertia e escolheria Cabernet Franc e Merlot.
São ainda desconhecidas para o grande público, mas sem dúvida mais confiáveis.

É importante entender que o mercado hoje, apesar de estar mais preparado, continua ávido de novidades, garimpa na busca de confiança, tipicidade, caráter.

Talvez seja esta a razão do constante crescimento dos vinhos importados sobre os nacionais, porque oferecem a todo momento marcas, regiões, uvas e estilos diferenciados.

Sei que há dezenas de outras variedades que poderão dar bons resultados, algumas apropriadas para algumas regiões, outras não, mas acredito que o desafio de recuperar a confiança do consumidor quando o tema é vinho tinto, passa pelo resgate de duas variedades que já demonstraram quanto são generosas com o Brasil, Cabernet Franc e Merlot.

Talvez uma delas possa se transformar em emblemática ajudando á imagem do Brasil internamente e no exterior.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O Bolo




O IBRAVIN acaba de publicar através de sua Assessoria de Imprensa os dados do desempenho do mercado brasileiro de vinhos e espumantes, nacionais e importados.

Os números novamente comprovam a inutilidade das ações que o setor faz na procura do melhor desempenho dos produtos nacionais. A meu ver o furo é mais embaixo.

A comercialização de vinhos finos, aqueles elaborados com uvas de origem europeia, cresceu 10,40% mas infelizmente foram os vinhos importados os que tiveram bom desempenho, crescendo 13,77% ante um recuo de 2,83% dos nacionais.

Com isso a participação dos importados no mercado total subiu de 80% para 82% deixando para os nacionais somente 18% do bolo. Se estava ruim, ficou pior.

A queda das vendas também atingiu o mercado de espumantes que crescia constantemente nas últimas décadas. Caiu 10,20% com diminuição parelha entre nacionais e importados.

As justificativas dadas pelos representantes do setor são bastante conhecidas, aumento de impostos, crise financeira que atinge as famílias, contrabando, seca, chuva, etc.etc.

A pergunta é: essas variáveis negativas prejudicam somente os produtos nacionais? Porque os importados crescem fantásticos 13,77% e os nacionais caem 2,83%?

Porque na disputa dos mesmos consumidores, os importados ainda estão melhor na foto.

Não adianta o setor ficar focado no lançamento de vinhos premium e super premium a preços injustificáveis.

Não adianta o setor ficar repetindo velhas ações sem resultados práticos.

Não adianta o setor ficar desunido, praticando marketing predatório, as grandes cantinas brigando com as pequenas, os produtores de vinhos orgânicos colocando em dúvida a “naturalidade” dos outros vinhos, um desmerecendo o trabalho do outro, etc.

Assim, até as cervejas artesanais se transformarão num concorrente direto.

Enquanto não houver aumento do mercado, crescimento de consumidores novos, foco no consumo caseiro, diário, capaz de mudar hábitos e tornar o Brasil, ou parte dele, num país verdadeiramente vitivinícola, nada mudará.

Enquanto não houver união entre produtores nacionais, importados e importadores em torno de uma ação forte focada no aumento do mercado, a situação ficará igual ou pior.

É necessário aumentar o tamanho do bolo, até porque tem farinha para isso. Somos 206 milhões de pessoas e o consumo é ridiculamente baixo. Cada brasileiro consome anualmente 0,52 litros de vinhos finos, 0,10 litros de espumante e 0,81 litros de vinhos comuns. Isto é inferior a China, Paraguai e a Cochinchina.

Insisto e continuarei insistindo: somente uma campanha nacional e duradoura possibilitará chamar a atenção dos brasileiros para os benefícios do consumo de vinho e espumantes.

Não oferecemos uma bebida alcoólica, oferecemos momentos, histórias, vivências, sentimentos, prazer.

O IBRAVIN tem recursos para fazer um Encontro diferente aos já realizados com formadores de opinião, supermercadistas, sommeliers, jornalistas e outros.

Um Encontro com produtores nacionais e estrangeiros, importadores, representantes dos governos estaduais e federais dos principais países produtores, e técnicos do setor, para achar mecanismos que permitam arrecadar fundos pesados para manter uma campanha longa e duradoura de divulgação da INSTITUIÇÃO VINHO.

Tenho absoluta certeza que os países que trazem seus produtos ao Brasil, sabem do potencial que existe para aumentar o mercado.

Sabem que o Brasil é um dos poucos países que oferece oportunidades de crescimento já que o resto do mundo está saturado.

Sabem que o brasileiro é curioso, aberto a novos produtos e isso não se encontra facilmente.

Há tanto o que falar, há tanto o que disser, há tanto o que fazer que ficamos angustiados com a paralisia do setor que procura motivos para justificar o mau desempenho.

É necessário mudar a postura reativa pela postura proativa e se convencer, que se não conseguimos aumentar o bolo, sobrarão as migalhas.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Imaginação frondosa


Em época de crise os argumentos utilizados para vender vinhos são dignos de elogios.

Pague 2 e leve 3, Aproveite para comprar o melhor vinho do mundo (ou do Edmundo?), Escolha o seu e pague 35% menos, Este vinho é para você, etc. etc.

Todos os que produzimos e comercializamos vinhos e espumantes, sabemos da importância da desmistificação, da descomplicação do serviço, assim como da informação clara e simples.

Pinçando algumas pérolas podemos comprovar quanto a imaginação é frondosa quando o tema é vinhos.

“Apreciar a 12°C, preferencialmente em taças lisas, cristalinas, bojudas e de grande abertura, as do tipo “Bordeaux”.
Nesta recomendação estamos colocando um condicionante que deixa em dúvida o consumidor.
Será que numa simples taça para branco este vinho será tão fantástico ou ficará prejudicado?

No lugar de recomendar a temperatura (o consumidor não sempre tem um termômetro a mão) não seria o caso de informar a forma de deixar esse vinho na temperatura ideal? Esfrie durante 20 minutos num balde com gelo, por exemplo.

“Este exemplar está pronto para o consumo, mas pode ser guardado por mais 30 meses".
Ou seja, beba agora ou nos próximos dois anos e meio. Dúvida cruel.

Reconheço que é dura a vida do apreciador de vinhos e espumantes.

Para comprar com segurança deve seguir os vinhos recomendados pelas “estrelas de Baco”, as listas intermináveis das revistas “especializadas”, dos sommeliers de plantão no Facebook, no Instagram ou deve enfrentar com valentia os corredores imensos dos supermercados e arriscar?

Eu decidiria pela ultima opção. Em definitiva a compra de vinho é UM ATO DE RISCO.

A verdade está no copo, no seu copo. Compre, beba, decida, compre, beba, decida. Seja curioso, com o tempo e quase sem querer, seu paladar irá se aprimorando, se acostumando aos aromas e sabores próprios do vinho. E muito provavelmente, a preferencia inicial por produtos bem amáveis, as vezes doces, dará passo a de vinhos mais secos, espumantes brut e nature, com sabores mais marcantes.
Lembre, gosto não se discute, mas se aprimora.

O próprio setor, com a intenção de enobrecer seus produtos, se encarregou de difundir através da mídia e suas mensagens institucionais, conceitos que mais amedrontam que seduzem.

São tantas as advertências e recomendações em relação a temperatura, ambiente, luz, vibrações durante a conservação.
Tantas em relação ao serviço, tamanho do copo, tipo de cristal, formato, volume, tempo de abertura, decantação e arejamento além das relacionadas a origem, terroir, safra, madeira e número de calçado do enólogo, que muitas das vezes, para descomplicar, a decisão é beber uma “geladinha”e ser feliz.

Agora, com o surgimento dos vinhos “naturais”, mostrados como os únicos capazes de preservar a saúde física, mental e psicológica dos consumidores, um novo dilema se coloca frente aos mesmos:

Então o que bebi até agora não é natural? Cadê a uva? O vinho é como um simples iogurte, cheio de produtos químicos, aromatizantes, corantes, emulsionantes, nada como antes?

Mais um erro ao tentar dividir a vitivinicultura entre vinhos “puros” e vinhos "impuros”.

Você sabe o que tem num copo de Chardonnay? – Simples.
Única e exclusivamente o suco da uva que o gerou. Mais nada, nenhum produto químico, nenhum insumo que altere seu caráter, somente o suco. Absolutamente natural.

Eu como produtor, humildemente peço aos consumidores: não nos abandonem, não vão para a geladinha definitivamente.
Eu garanto que se compram (com risco sim, mas ficando menor com o tempo), degustam e aprovam ou desaprovam, compram, degustam e aprovam ou desaprovam, o futuro lhes reservará momentos únicos, diferentes, inesquecíveis.

Daqueles que somente vinhos e espumantes são capazes de proporcionar.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Prêmio para todos




Em enquete realizada pela revista Baco, especializada em vinhos e comidas, tive a honra de ser escolhido Personalidade do Ano. O Prêmio me foi entregue no jantar de abertura do Festival Wine & Food que é realizado de 17 a 23 de outubro no Copacabana Palace no Rio de Janeiro.

Fiquei muito feliz, honrado e agradecido a todos.

Mas não ficaria satisfeito se não dedicasse esta honraria a todas as PERSONALIDADES DO ANO que compõem a maravilhosa cadeia produtiva e comercial da uva e do vinho.

Todos sabemos que o Brasil é um país extraordinário pela pujança, potencialidade e dinamismo. Também sabemos que é um pais que apesar destes atributos, é surpreendentemente criativo em oferecer dificuldades. A vitivinicultura não passa incólume a esta situação e provavelmente seja por isso que quem participa de alguma forma deste setor, seja tão comprometido e apaixonado pelo que faz.

As novas regiões produtoras de uva que estão surgindo em todo o pais mostram quanto é possível fazer quando há pessoas com fé, entusiasmos e paixão. Desafios diários surgem de empreendimentos começados do zero que exigirão constância, dedicação e tempo, para demonstrar a que vieram.

Pratico a enologia no Brasil desde 1974, ano de minha primeira safra, e posso assegurar que dificilmente teria aprendido tanto em outra região.

As diferenças climáticas a cada ano fazem com que a enologia seja uma constante adaptação.

Para quem defende a enologia não intervencionista onde prevalecem as características da matéria prima, inicialmente os erros são frequentes, mas com os anos e a experiência o caminho que indica o foco constante na sanidade da uva e na técnica mais adequada para o momento, fica mais claro e evidente.

Todos os viticultores e enólogos praticantes no Brasil então, ao conseguir superar este desafio e manter seu entusiasmo e garra, merecem o prêmio de Personalidade do Ano.

Aos que comercializam vinhos e espumantes, sejam produtores, distribuidores, importadores ou lojistas, o mercado brasileiro oferece inúmeras oportunidades, mas em especial a de ser formado por apreciadores ávidos de informações, sedentos de novidades, em constante evolução.

Nada mais errado que pensar que este apreciador é ignorante porque bebe pouco e pode ser enganado com facilidade. Sem saber, pelo simples fato de gostar e beber com certa frequência, ele “educa” seu paladar e se torna a cada dia mais exigente.

Este é um desafio constante para quem comercializa, atenção a qualidade, ao estilo, à qualidade maior.

Tudo seria algo menos complicado se o sócio compulsório, voraz e cruel que leva mais da metade da riqueza gerada não interferisse tão negativamente.

Governos estaduais e federal tiram competitividade, capital de giro e parte do entusiasmo.

Mas não todo. Apesar deles o vinho continua sua distribuição em todo o território.

Todos os que comercializam vinhos e espumantes no Brasil de uma forma ou de outra, então, ao conseguir superar este desafio e manter seu entusiasmo e garra, merecem o prêmio de Personalidade do Ano.

Mas tem alguém que merece este prêmio mais do que ninguém: o consumidor, o apreciador, o que bebe, o que degusta, o que mantém seu entusiasmo apesar dos aumentos de preço gerados pela vergonhosa carga tributária.

Ele é a razão da existência de todos nós.

Para ele vão minhas homenagens e o troféu PERSONALIDADE DO ANO.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Beber e apreciar





Não concordo com aqueles que insistem em diferenciar a apreciação de vinhos, em técnica e hedonista, e atribuir esta diferença à existência de "especialistas ou profissionais", que degustam procurando defeitos, e "apreciadores ou consumidores", que degustam por prazer, procurando as coisas boas do vinho.

Aprender a degustar vinhos é descobrir as razões pelas quais um vinho, ao ser bebido, dá mais prazer que outro.

Nós enólogo, por força da profissão, degustamos procurando inicialmente os defeitos de um vinho, e com essa atitude esquecemos ou deixamos de lado, aparentemente, o prazer da apreciação.
Nada mais errado do que pensar isso.
As repetidas sessões de degustação que realizamos semanalmente são o momento mais agradável de nossa rotina de trabalho.

Nada mais gratificante que conduzir, corrigir, enfim criar um produto que é diferente a cada safra, que evolui a cada dia, que pode melhorar pela ação do enólogo...ou piorar.

É importante também entender que o enólogo não é somente um químico, um cientista. É tudo isso e ainda um sensitivo, deve conduzir o processo natural de transformação do suco em vinho de modo a extrair da matéria-prima sempre variável o melhor de sua potencialidade.

Há pessoas que a cada início de safra perguntam se o vinho será bom ou ruim. Nada justifica vinhos ruins, a não ser a incompetência do profissional enólogo. Os vinhos corretos são diferentes a cada ano. Alguns anos com maior estrutura e potencialidade para guarda, outros nem tanto.

Os vinhos são diferentes de região para região, de país para país, porque as condições de solo e clima assim o determinam. Esta, certamente, é a maior virtude do vinho. Podemos descobrir em cada copo a enorme gama de cores, aromas e sabores que resulta das diversas variedades de uva, produzidas nos mais diferentes locais do mundo.

Você já imaginou o vinho ser padronizado como o refrigerante? Nada mais enfadonho, certamente.

Consumir vinhos então, é um prazer independentemente do tipo, país de origem, embalagem, preço, etc. Saiba descobrir, até no mais humilde dos vinhos, suas virtudes, suas particularidades.

Simplifique o ato rotineiro de “tomar vinho”, beba vinho na hora que quiser, no copo que tiver, misturado ou não.
O vinho é e sempre será a única bebida capaz de satisfazer a sede do corpo e da alma.
O consumo de vinho diluído ou misturado com água e/ou gelo permite a alguns países tradicionais manter elevado o consumo per capita e ainda educa o paladar aos sabores típicos do vinho.
Alguma vez experimentou o refresco de vinho (com água gaseificada e gelo) num dia quente, como substituto de uma eventual cerveja?

Valorize o ato especial de “apreciar um vinho”, reservando para estas ocasiões as pequenas regras que permitirão aproveitá-lo ao máximo.
Neste caso sim são importantes tipo e tamanho do copo, temperatura correta, abertura antecipada, sequência correta, etc.

Saber apreciar vinhos exige um mínimo de investimento pessoal, como tempo, dedicação, interesse e, principalmente, humildade para nunca achar que já conhece tudo.

O caminho passa invariavelmente pelo consumo habitual, quase diário.

Proporcione ao vinho as mínimas condições para que possa lhe oferecer o melhor de si.

Certamente jamais se arrependerá disso.


domingo, 21 de agosto de 2016

Saudade não tem fim...




Esses dois vinhos da fotografia foram desafios marcantes na minha vida de enólogo.

O Baron de Lantier representou a partir de 1978, vencer enormes desafios que começaram com a escolha, implantação e acompanhamento técnico de variedades como Cabernet Sauvignon e Merlot, decisão sobre a melhor forma de elabora-lo, matura-lo e envelhece-lo.

O objetivo era produzir um vinho de guarda que fosse motivo de orgulho para todos os gaúchos.

O modelo de elaboração eram os tintos robustos de Bordeaux.
Por isso devíamos partir de uma excelente matéria prima, sã e madura, macerações longas para extrair o máximo possível de componentes da cor e corpo, maturação em barricas de carvalho, e envelhecimento suficiente para obter a complexidade olfativa e gustativa digna deste tipo de vinho.

Querer fazer é uma coisa, fazer, é outra.

Viajei, visitei Rioja, Barolo e Bordeaux à busca de soluções e informações e voltei com muitas. Mas uma foi reveladora. Na visita ao Château Margaux, seu técnico, o saudoso Paul Pontallier, respondeu assim a minha pergunta de qual seria a melhor forma de elaborar um tinto de guarda no Brasil: “você terá de achar a formula, todas as que veja fora podem não servir”.

A escolha da madeira das barricas foi o primeiro desafio que resolvemos com pragmatismo.
Em Barolo, Itália, a recomendação era utilizar barricas de carvalho da Eslovênia, em Rioja na Espanha, carvalho americano e em Bordeaux, carvalho francês.

Importamos 50 de cada, fizemos testes e um ano depois decidimos: seriam barricas francesas das florestas de Never e Allier, medianamente porosas.

O tempo de envelhecimento foi determinado pelo próprio vinho. Quase todas as safras entre 12 e 14 meses, na magnífica de 1991, a espera foi maior, 25 meses.

Acredito que com este vinho a Serra Gaúcha demonstrou que era possível produzir vinhos que desafiassem o tempo e ganhassem com ele, elegância, amabilidade e complexidade.

As primeiras medalhas em Concursos Internacionais que o Brasil ganhou, la pelos anos oitenta, foram com o Cabernet Sauvignon Baron de Lantier.

Já o vinho Merlot / Cabernet Sauvignon Adolfo Lona que lançamos no início da minha carreira solo em 2004, após sair da Bacardi, foi totalmente diferente ao Baron de Lantier.

Tratava-se de um vinho jovem, fresco, amável, convidativo, que fosse capaz de representar dignamente aquela variedade de uva que acho ser, junto com a Cabernet Franc, uma das mais representativas da Serra: a Merlot.

O grande diferencial era a origem da uva, o Município de Pinheiro Machado, nos antigos vinhedos da Companhia Vinícola Riograndense, implantados na década de setenta pelo visionário engenheiro agrônomo Onofre Pìmentel.
Nesta região, devido ao solo e clima, as uvas tintas atingem a plena maturação fenólica possibilitando desta forma vinhos mas equilibrados e elegantes.

Infelizmente os novos proprietários decidiram vender sua produção para cantinas direcionadas a volume e o potencial desta região perdeu um excelente referencial.

Por esta e outras razões sentimos insegurança na continuidade do fornecimento de uvas desta parcela e abandonamos o projeto.

Agora, somente espumantes.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Marcas que marcam




Algumas marcas de vinho que passam por nossas vidas ficam gravadas na memória pelo resto da vida. Claro, para nós enólogos algo mais experientes, as primeiras e mais frescas são aquelas com as quais tivemos algum tipo de envolvimento.

Sem sombra de dúvida, a mais forte para mim é Baron de Lantier porque representou o primeiro e grande desafio como enólogo na Serra Gaúcha. São tantas as lembranças que não cabem nestas linhas.

A segunda marca foi Château Duvalier pela importância que teve para mim desde o ponto de vista de conhecimento do mercado consumidor de vinhos, evolução dos gostos, distribuição, etc.

E há uma terceira marca que me marcou, pelas pessoas que conheci e com as quais convivi na minha chegada ao Brasil em 1973: os vinhos Granja União produzidos pela Companhia Vinícola Riograndense de Caxias do Sul – CVRG.

Para aqueles que afirmam que o vinho brasileiro de qualidade nasceu com as vinícolas familiares como Miolo, Valduga, Salton na década de noventa, posso assegurar que não é bem isso.

Apesar da carência de ofertas de uvas viníferas na época, a CVRG produzia o magnífico Merlot, amável, agradável, com forte caráter varietal, digno. Era pouco conhecido pela limitada área de distribuição, mais concentrada no Rio Grande do Sul, mas com um potencial enorme pelo apelo e qualidade.

A qualidade e honestidade desta marca não era por acaso. Por trás dela haviam técnicos sérios e sábios que a partir de uma matéria prima diferenciada, produziam vinhos tintos e brancos surpreendentes. Me refiro especialmente a Mario Pasquali, Onofre Pimentel e Danilo Calegari.

Com certeza que a viticultura da época teve no engenheiro agrônomo Onofre Pimentel um pilar de sua evolução. Ele foi o responsável pela implantação dos vinhedos da Granja União em Flores da Cunha e o descobrimento do potencial do Município de Pinheiro Machado para a produção de uvas com capacidade diferenciada de maturação. Variedades como Riesling Itálico, Merlot, Malvasia foram sabiamente adaptadas e cultivadas servindo como base para os bons vinhos Granja União.

Pimentel estudou, durante toda sua vida, os melhores casamentos entre cavalo e enxerto para as diferentes regiões e variedades. Com o fim da CVRG prestou consultoria para a Casa Vinícola De Lantier e através dela assimilamos parte de seu enorme conhecimento.

Mario Pasquali era enólogo da CVRG e responsável pela cantina de Caxias do Sul, onde eram elaborados os vinhos Château Duvalier e Granja União. Foi meu primeiro contato em 1973 e dele comecei a gostar de imediato. Aparentemente sério e fechado, era um homem de uma generosidade impar e por isso com ele conheci a forma de elaboração no Brasil e as limitações tecnológicas que existiam na época.

Danilo Calegari, enólogo chefe, comandava a CVRG e todas as unidades espalhadas pelo interior de Garibaldi, Bento e Farroupilha com maestria. Com os papos demorados que tive conheci a história da vitivinicultura gaúcha e aprendi a respeitar os velhos enólogos-heróis que faziam milagres com a matéria prima muitas vezes inadequada para elaborar vinhos de qualidade.

Com o desaparecimento da CVRG na década de noventa a marca foi adquirida pela antiga Cordelier e posteriormente pela Cooperativa de Garibaldi.

Mudaram os vinhos, mudou o estilo, mas ficou a lembrança de uma marca que foi orgulho dos gaúcho e que os representou dignamente por décadas.

Deixo o registro de meu agradecimento a estes homens e seus feitos sem os quais dificilmente a vitivinicultura teria chegado onde chegou.

O Rio Grande deveria reverencia-los.