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domingo, 16 de junho de 2013

Me incomoda


Egocentrismo

A falta de união do setor da uva e do vinho me incomoda, a falácia de alguns cutucando outros me incomoda, o marketing exagerado que chega a ser mentiroso e comprometedor, me incomoda.

É verdade que nós enólogos, por força de nossa atividade que exige uma defesa ferrenha do produto que logramos com esforço temos tendência a sermos individualistas, egocêntricos.

É curioso que isto aconteça numa profissão tão insegura na qual ano a ano, TUDO COMEÇA NOVAMENTE. A safra é o grande desafio que se apresenta ano traz ano, propondo variáveis diferentes, às vezes surpreendentes, imprevistas.

Formei-me em 1964 e por causa de alguns desvios (estudar engenharia química e publicidade), tenho nas minhas costas somente 41 safras, que me serviram para comprovar repetidas vezes algumas das minhas convicções:

1. A uva precisa de pelo menos oito-dez anos após o plantio para manifestar sua potencialidade.

2. Para afirmar com certa segurança que uma região é diferenciada desde o ponto de vista enológico são necessários pelo menos quinze anos (oito-dez somente de viticultura)

3. Para afirmar que uma variedade achou seu hábitat são necessários pelo menos vinte anos (oito-dez + oito-dez)

4. Tudo isto se não foram cometidos erros como escolha errada do cavalo (ou porta-enxerto), do sistema de condução, do tipo de solo, corretivos, tratamentos, elaboração, maturação, etc,etc.etc.

Então:

POR QUÊ?

- ALGUNS PRODUTORES NOVOS (NÃO SOMENTE DO BRASIL) QUE TEM MUITO MENOS DESTES TEMPOS DE EXISTENCIA JÁ DECLARAM QUE SEUS VINHOS SÃO OS MELHORES DA REGIÃO?

- ALGUNS PRODUTORES NOVOS FAZEM DECLARAÇÕES QUE ALÉM DE EXALTAR DEMAIS SUAS VIRTUDES AS COMPARAM COM AS “DEFICIENCIAS” DE SEUS CONCORRENTES?

Lembro com muita saudade da declaração do diretor técnico do Château Margaux. Paulo Pontallier, ao ser perguntado sobre a razão da qualidade constante de seu vinho: “Talvez sejam os quinhentos anos de existência”.

Loco é quem acredita

Provei o famosíssimo Toro Loco, vinho espanhol consagrado depois de ganhar medalha de prata (junto com outros 969 vinhos!!!! – isto não foi dito) num concurso do Reino Unido.
É um vinho medíocre que não vale nada mais (ou talvez menos?) que os R$ 25,00 que cobram por ele.
Este vinho, descarada e mentirosamente, foi anunciado como um dos melhores vinhos do mundo.
Golaço dos marqueteiros da vinícola, ou melhor, dos importadores “pega ingênuo”.
Este absurdo, próprio do generoso, inocente e ingênuo mercado mundial de vinhos, é um exemplo claro de como as pessoas podem ser enganadas quando querem ser enganadas.



4 comentários:

Carlos Eduardo Oliveira disse...

Caro Adolfo,
Como você disse tão bem, esses "Toro Loco" por aí só pegam os ingênuos, por isso é tão importante o trabalho de pessoas como você aqui no Brasil (ao entrar no site da importadora em questão e constatar que sequer sabiam escrever "Bordeaux" eles não me pegaram...). Estamos degradando alguma tradiçao europeia que nos sobrava, mas tenho para mim que ainda somos jovens e ainda vamos aprender um dia...

Cezar Duarte disse...

caro Adolfo, procurei por todos os lugares onde fazer-lhe uma pergunta, só restou aqui! Então, lá vai:
O teor de açúcar de um vinho "demi sec" (ou de um suave) é produzido durante o processo de fermentaçao do vinho ou "introduzido" posteriormente, na forma de açúcar de cana ou qualquer outro tipo de sacarose?
Em sendo a produção de açucares inerente ao processo fermentativo, como o teor é controlado para a produção de um vinho seco (<3 g/l)?
Grato por sua atenção
Duarte, CML

Adolfo Lona disse...

Caro Cezar:
A lei brasileira determina que os vinhos, em relação aos teores de açúcares são classificados como:
Seco: <5 gramas g/l
Demi-sec: >5 e <20 g/l
Suave: > 20 g/l
O açúcar do vinho demi-sec é exógena ou seja, não da uva, geralmente de cana pela facilidade de fornecimento e colocado ao vinho seco antes do engarrafamento. A legislação assim o permite. É possível elaborar um vinho demi-sec com açúcares remanescente da uva? Sim mas é mais complicado porque seria necessário interromper o processo fermentativo quando o teor atingisse o valor desejado. No Brasil, em especial na Serra Gaúcha, as uvas não maturam tanto e por isso não possuem açúcar suficiente para elaborar um vinho demi-sec ou suave. Espero ter ajudado. Abraço Adolfo

Team-OF disse...

Carissimo Lona

Essa história surgiu em um portal da internet, que tem a sede na Europa. Algum repórter lá surpreendeu-se por um vinho que custa 2 EUROS na Espanha ( e incriveis 3,59 libras na inglaterra), pudesse ter ganho uma medalha de prata em um concursos. Daí até o estagiário do portal aqui traduzir que uma medalha de prata em um concurso significa ser um dos melhores vinhos do mundo... foi um pulinho... a noticia original, no tal portal, está aqui http://culinaria.terra.com.br/vinho-de-r-1150-e-eleito-um-dos-melhores-do-mundo,00e04876d9387310VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html

forte abraço