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quarta-feira, 20 de maio de 2015

É bom lembrar..




Frequentemente leio comentários do tipo, “somente na última década o Brasil começou a fazer vinhos de qualidade”, “agora os vinhos são melhores que antigamente” e outros.

Não concordo em absoluto com estas afirmações e acho importante refrescar a memória dos maduros e informar os mais jovens.

O Brasil iniciou uma mudança radical na sua vitivinicultura na década de setenta com a chegada das empresas estrangeiras à Serra Gaúcha. É inegável a importância que estas empresas tiveram na criação das novas bases sobre as quais cresceria o setor.

Vou dar alguns exemplos:

Material vegetativo e variedades disponíveis:
Havia uma enorme confusão, ás vezes proposital, entre as variedades existentes de origem europeia e as americanas. As brancas tradicionais como Peverella, Trebbiano e Moscato que predominavam começaram a ser substituídas pela Riesling Itálico, com mais potencial para aumentar a qualidade. Tanta foi a procura por esta uva que surgiu pelas mãos de alguns expertos, a Riesling “falsa” que na verdade era a Seyve Villard, uma híbrida interespecífica produtiva e que quando bem vinificada engana até os entendidos. As variedades tintas de origem italiano como Canaiolo, Barbera e Bonarda se confundiam e vinificavam junto a americanas tintas. Era uma confusão.

As empresas que chegaram, em especial Château Lacave do Uruguai, a Martini e Rossi da Itália e a Chandon da França que foram as pioneiras, identificaram imediatamente estas variedades e fixaram preços atrativos para estimular a baixa produtividade e sanidade das européias. Estas empresas às quais se juntaram os grupos Seagram e Heublein, fizeram um esforço descomunal para introduzir novas variedades de maior potencial como Chardonnay, Semillón, Sauvignon blanc, Merlot, Cabernet Sauvignon que se somaram à Cabernet Franc já adaptada e com excelentes resultados.

Foram importadas centenas de milhares de mudas selecionadas dos principais viveiros europeus e distribuídas gratuitamente a produtores dispostos a melhorar seus vinhedos.
Famílias como Miolo, Carraro e outras começaram a produzir uvas de qualidade nessa época com material entregue pelas vinícolas.

Caixas para transporte da uva:
A Martini introduziu as caixas plásticas de 18 quilos para o transporte da uva de modo a preservar sua integridade.

Este foi um fator de qualidade e rapidamente foi acompanhada pelas outras vinícolas. Ela chegou a ter 40.000 cxs que emprestava aos produtores. Posteriormente se implantou um programa para venda destas aos produtores.

Prensas para retirar o suco das uvas brancas:
A Chandon introduziu as prensas de discos Vaslin e a Martini as prensas pneumáticas Willmes. Foi um divisor de águas para os brancos de qualidade.

Controle de temperatura de fermentação:
A Forestier introduziu na época os tanques com cintas para circulação de material refrigerante. Todas as vinícolas adotaram esta tecnologia hoje utilizada unanimemente. O aço, caríssimo na época, começava a substituir as velhas pipas de madeira que apesar de parafinadas à quente, transmitiam gosto aos vinhos.

Barricas de carvalho:
A Martini importou as primeiras barricas de 225 litros de carvalho francês de florestas específicas no ano de 1982. Nem Argentina tinha madeira desta qualidade.

O descrito parece pouco mas podem ter certeza que foram estes investimentos, estas novas tecnologias que contribuíram para estabelecer um novo padrão de vinhos.

De lá para cá poucas novidades chegaram salvo as que possibilitam a maior intervenção nos vinhos como uso de chips de carvalho, osmoses inversa e outras que em pouco ou em nada contribuíram.

Do que sim tenho certeza é que o setor vitivinícola brasileiro aprimorou seu marketing que possibilita impor a crença que nunca na história deste país se elaboraram vinhos tão bons.

4 comentários:

Aurelio disse...

Sr Adolfo Lona,
Acabo de ler a obra “Memórias do vinho Gaúcho” de Rinaldo Dal Pizzol e Sergio Inglez de Souza. Me fez relembrar os fatos que ocorreram com o vinho nacional. Nessa obra ficou claro para mim a contribuição das multinacionais conforme citado no seu artigo. E também a sua contribuição e de outros enólogos em prol do vinho nacional. E concordo com suas palavras quando diz que não houve quase nada de novo na última década que tivesse implementado nosso vinho. Tivemos a aderência de muitos aos modismos ditados pelo mercado como vinhos com mais álcool, amadeirados, o surgimento de termos como vinhos cult, vinhos de garage e outros que tais. Mas também tivemos algumas novidades como o surgimento embora tímido de vinhos em novas regiões brasileiras como é o caso do sul de Minas e norte de São Paulo e Goias sem esquecermos de Santa Catarina.

Adolfo Lona disse...

Caro Aurélio, perfeito. Suas observações são pertinentes. As novas regiões são um sopro no futuro da vitivinicultura. Poderão, conforme o caminho que tomem, contribuir para aumentar a oferta de bons vinhos.

melaine negreli disse...

ai quem nao gosta de um bom vinho em!! e a historia por traz dele me agrada
seguindo bjos da mel
http://artmelzinha.blogspot.com/

Adolfo Lona disse...

Obrigado Melaine pelo comentário e por participar de meu blog.
Grande abraço