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quarta-feira, 10 de abril de 2013

A Serra Gaúcha que eu conheci 7


Os anos de exagero e perdas

Até o ano de 1989 a relação entre produtores e grandes cantinas como Heublein, Maison Forestier, Chandon e De Lantier era de respeito e parceria.
As cantinas davam assistência técnica através de agrônomos fantásticos como Ciro Pavan, Idalencio Anghebem, Onofre Pimentel e Osvaldo Filipón, forneciam mudas, insumos para implantação de novos vinhedos e remuneravam a uva conforme a qualidade obtida. Por sua vez os produtores se esforçavam produzindo moderadamente fazendo os trabalhos culturais recomendados. Eram acordos “firmados” com o fio do bigode, na confiança mútua.

A comercialização de vinhos tintos começava a superar os brancos e a demanda de uvas deste tipo era maior que a oferta. Para piorar a situação, a safra de 1998 foi pequena e houve uma correria para adquirir Cabernet Sauvignon e Merlot, as mais visadas. A consequência foi uma das maiores estupideces que o setor cometeu comandado por algumas cantinas desesperadas por uva. O preço chegou aos R$ 3,00 ao quilo, o normal teria sido em torno de R$ 1,00, e o que é pior, pagos por uvas sem qualidade.

Acredito que este foi o inicio da fase de aumento dos custos dos vinhos brasileiros que prejudicou sua competitividade. Nas safras dos anos 1999 e 2000 continuou a farra. A disputa insana por uva, com compradores de algumas vinícolas com cheques na mão, fez com que alguns produtores leiloassem sua produção com o que a velha e firme parceria com as vinícolas tradicionais se quebrou.

Esta situação foi lastimável porque a trabalho de décadas estimulando qualidade e baixa produtividade se perdeu e a consequência foi um longo período de uvas de má qualidade, impróprias para elaborar vinhos de alta qualidade.
Os Sindicatos dos Produtores Rurais pouco fizeram para evitar este descalabro e hoje lamentam os abusos que algumas vinícolas cometem quando oferecem preços vergonhosamente baixos aos viticultores.

Esta situação de desigualdade consequência da perecibilidade da uva favorece quem compra mas quando chega a vez do produtor ele não perdoa. Todos se prejudicam, em especial o vinho brasileiro.

A chegada da enologia “moderna”

Nos anos noventa chegou á Serra Gaúcha a nova enologia pelas mãos de enólogos estrangeiros que vieram ao RS para orientar algumas cantinas contratadas para fornecer vinhos para duas redes de lojas inglesas. O líder deste grupo era um enólogo australiano que orientava as elaborações com o uso de técnicas novas para a época.
A novidade era o uso de pó ou serragem de carvalho aplicado durante a maceração ou nos vinhos prontos. Este insumo agregava um forte aroma e gosto de carvalho, característica fundamental para os vinhos destinados ao mercado do Reino Unido que os preferia nesse momento.

É bom lembrar que o mercado inglês, importante importador de vinhos de todo o mundo, sempre foi e continua sendo um “campo de testes”. Este mercado já consagrou os vinhos carregados de madeira (verdadeiros chá de carvalho), os extremamente alcoólicos e atualmente prefere os vinhos mais ligeiros, de mediana estrutura, menor graduação com pouca o nenhuma presença de carvalho.

A entrada dos chamados “chips” de carvalho foi simultaneamente no Brasil, Uruguai, Argentina e Chile e a moda pegou também para os vinhos produzidos para consumo interno.
Resultado?
Algumas cantinas começaram a destacar nos rótulos de seus vinhos tintos a passagem por “longos períodos de envelhecimento em barricas de carvalho” sem possuí-las.
Infelizmente os consumidores gostaram das notas de baunilha e chocolate que tornavam os vinhos mais amáveis e fáceis de beber e os formadores de opinião destacaram a chegada desta nova tecnologia.

Pessoalmente sempre condenei, não o uso de chips, mas a falta de informação precisa e clara sobre o uso deles. Não é justo que vinhos que não foram afetados pelo alto custo do uso de barricas compitam em igualdade de condições com aqueles “aromatizados” com serragem.

Após a chegada dos chips que substituíam as barricas vieram os equipamentos de micro-oxigenação para simular os efeitos das barricas, a osmoses inversa e a evaporação para retirar água e concentrar o vinho e outras bobagens mais que representaram a “nova enologia”, intervencionista, oportunista, que encurta o tempo e produz vinhos “redondos”, quase adocicados, pouco honestos.

Lamentavelmente alguns formadores de opinião em especial de São Paulo destacaram e deram boas vindas aos novos tempos, aos vinhos que conseguiram quebrar paradigmas, fabricados (não elaborados) com a mais moderna tecnologia.

Como o consumidor de vinhos é progressivo, aprende e educa seu paladar com o tempo e em especial por não ser bobo, a moda destes vinhos com excesso de madeira passou e o mercado começou a valorizar os vinhos honestos que preservem as características do solo, do clima e do homem que o elabora.

A prática do uso de chips continua em muitos países, inclusive no Brasil, sem a obrigação de ser declarada por conta de legislações omissas e pouco direcionadas a preservar quem produz qualidade.

A entrada constante de novos consumidores que pouco exigem mantem as portas abertas para os vinhos “fabricados” de baixo custo para serem baratos. Felizmente o consumidor mais habituado detecta facilmente quem é gato e quem é lebre.

Quando algumas pessoas me perguntam quanto melhorou a qualidade do vinho tinto brasileiro, não me admira que não entendam minha resposta: alguns melhoraram muito, outros nada, outros pioraram.

3 comentários:

Schiffini's disse...

Caro Lona, este depoimento seu, simples, é histórico.....
Pois muita coisa aconteceu desde o final dos anos 80 na Enologia mundial e com algum atraso vem se propagando e atingindo o Brasil.
A França deixou de ser o grande centro de pesquisa nesta área e o eixo se deslocou para USA e Austrália....Como o vinho serve à culinária dos países: O estilo mediterrâneo, deu lugar ao "estilo" mais pimenta e mais sal, exigindo vinhos menos tânicos e mais alcoólicos. Hoje qual a culinária "fusion" que arrasta o vinho: a Tailandesa a Chinesa...
Acho que no Brasil a culinária da cerveja atrapalha nosso mercado de vinho....

Adolfo Lona disse...

Meu caro Schiffini: Creio que os vinhos atuais ficaram muito iguais por conta desta padronização da metodologia de elaboração. Talvez por querer "agradar" os novos consumidores. Ficaram um pouco sem graça, não acha?
Abraço

Alexandre Sousa disse...

Sr. Adolfo Lona,
Muito interessante essa série de posts.
Verdadeiros testemunhos.
Abraço!