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sábado, 30 de julho de 2011

As Medalhas


Freqüentemente sou questionado da validade dos Concursos internacionais de Vinhos e invariavelmente digo que se medalha fosse sinônimo de qualidade, Château Margaux, Petrus, Chandon e Veuve Clicquot, por citar alguns exemplos, não teriam lugar onde colocar tantas.
Medalha ganha em Concurso é uma referência não sempre confiável e por isso deve ser utilizada moderadamente no marketing das empresas.
Referência não sempre confiável porque os Concursos compõem geralmente seu corpo de jurados por convidados representativos da região onde é feito o evento e de outras regiões do país ou fora dele. Ultimamente foram incorporados a este corpo convidados especiais como jornalistas, enófilos e pessoas famosas. Se para os profissionais é difícil avaliar dando notas, imaginem a dificuldade dos não profissionais. Evitar que a subjetividade tome conta antepondo o gosto pessoal às verdadeiras qualidades e defeitos do produto em análise não é tarefa fácil. Quem gosta de vinhos envelhecidos terá predisposição para avaliar melhor estes vinhos em detrimento dos vinhos jovens e frescos. Quem gosta de carvalho será também influenciado por este gosto. Imaginando um concurso com grande participação de vinhos de diferentes países, elaborados com uvas diversas, em solos e clima específicos fica difícil julgar sendo “justo”. Já participei de concursos e presenciei o total despreparo de alguns jurados que para não correrem maiores riscos mantêm suas notas numa média nada comprometedora, entre 75 e 85 pontos. Se a média da mesa é 90 pontos, será o jurado mais rigoroso, se for 70, o mais generoso.
Outro fator complicador é o insano número de amostras degustadas por sessão, às vezes superiores a trinta, quarenta vinhos. Todos sabem da capacidade de saturação que nossos sentidos tem, em especial o olfato e o gosto. Os enólogos chegamos a degustar 30 ou 40 amostras alguns dias, mais em avaliações simples de cantina, onde se procuram defeitos que o vinho não deve ter quando bem conservado.
Existem além dos concursos, as avaliações de especialistas, estas sim com menos credibilidade ainda. Salvo Robert Parker, o famosíssimo degustador de dezenas de milhares de vinhos anualmente, não devemos levar a sério as avaliações individuais já que são a clara demonstração o que é subjetividade. Até as opiniões de Parker, que já consagrou e condenou alguns vinhos nestas décadas, estão perdendo valor junto ao consumidor. Todos começam a entender que apesar de ser um homem extremamente capaz, trata-se de sua opinião, pessoal e única.
Acho que todos os que participamos da vitivinicultura temos de contribuir para a formação dos consumidores, entendendo duas verdades absolutas: é um consumidor progressivo, ou seja, se aprimora com o hábito do consumo diário, e tem idêntica capacidade de sentir que o maior dos especialistas. Não tentemos enganar-lo com notas altas ou medalhas reluzentes porque a verdade está no copo. Não insistamos em disser que tipo de vinho ele deve gostar. Demos ferramentas para que entenda as razões pelas quais ele gosta de um determinado vinho. Estaremos ajudando a cultura da uva e do vinho porque consumidores rigorosos estimulam a concorrência focada em qualidade.

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