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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Verticais - Baron de Lantier Cabernet Sauvignon 1991 a 1996


Toda degustação vertical desperta variados sentimentos, ansiedade, curiosidade, expectativa, etc.

Para mim, que fiz parte da história do Baron de Lantier, a degustação que fizemos com este grupo de amigos, foi e será inesquecível.

Como na degustação do ORUS vou me abster das avaliações com notas que acredito algum dos participantes fará. Vou me limitar a descrever as impressões que tive deste vinho que foi ícone na época e que não degustava comparativamente desde 2003.
Minha primeira emoção foi comprovar o perfeito estado de todas as rolhas e a neutralidade das mesmas: nenhum vinho apresentou aromas ou gostos “de rolha”.
O rigoroso sistema de controle de qualidade que tínhamos na De Lantier desde 1985 cumpriu perfeitamente seu papel.

Paul Medder, sommelier do Aprazível, foi o responsável da abertura das garrafas e previamente concordamos que devido a idade não era recomendável areja-los.

Considerando que a vertical era composta por vinhos de idades compreendidas entre 17 e 22 anos, todos esperávamos maior evolução da cor, com maior presença de tons laranjas, perda de limpidez e brilho.
Não foi nada disso, a cor de todos se apresentou firme dando a primeira prova da equilibrada composição dos componentes da cor e acidez.

Os aromas vínicos invadiram o ambiente apresentando-se com muita complexidade onde as notas de frutas secas e geleias conviviam harmoniosamente com o moderado carvalho.

Ao gosto, o primeiro ataque nos entregava uma tanicidade marcante sem agressividade mostrando a perfeita maturação das uvas.
A safra 1991 foi o destaque especial pela potencia e vivacidade demonstrando que logos anos o esperam ainda.

Quem tiver alguma garrafa deste vinho não tenha pressa. O tempo passa lentamente para ele.

Quero destacar algumas das medidas tomadas ao idealizarmos o Baron de Lantier Cabernet Sauvignon.

1. Cadastro de produtor e cadastro de propriedade: Foi um levantamento que permitiu conhecer e controlar cada um dos talhões cultivados por nossos fornecedores. Cada parcela era medida, seu solo analisado e todos os pés plantados rigorosamente controlados em relação a origem do material, sanidade, tratos e produtividade. Lembro que muitos destes cadastros foram feitos pelo laboratório enológico que tinham Fábio e Adriano Miolo, jovens que se iniciavam na enologia e agora personagens da vitivinicultura brasileira moderna. As planilhas permitiam controlar a produtividade baixa por pé de modo a garantir o máximo de maturação possível.

2. Programa de colheita e transporte das uvas: Agrônomos controlavam a evolução da maturação das uvas, determinavam o momento exato da colheita e fiscalizavam a forma correta de transporte até a cantina quando eram imediatamente processadas. Era necessário encurtar ao máximo o tempo da colheita e processamento.

3. Maceração: A Martini foi a primeira empresa em utilizar os maceradores rotativos que atuam como grandes betoneiras e que fazem a extração lenta e delicada dos componentes da cor, sem machucar a pela, sem retirar componentes indesejados.

4. Controle de extração de componentes: Usando a espectrofotometria conhecíamos o tipo e a evolução da retirada dos diferentes componentes como antocianos e taninos. Esta fase é vital porque determina a capacidade de guarda do futuro vinho. Não é qualquer vinho que “sobrevive” a anos de maturação em carvalho e envelhecimento na garrafa.

5. Maturação em carvalho: Neste item também a Martini foi pioneira porque foi a primeira vinícola a importar barricas de carvalho francês de 225 litros. Decidimos pelas francesas após um ano de testes comparativos com as de carvalho americano. A diferença é notória em termos de elegância e presença sutil da baunilha.

6. Tempo de maturação: Inicialmente estimada entre 8 e 10 meses, foi diferente de ano para ano. Não éramos nós que determinávamos, era o vinho. O de 1991 permaneceu por 18 meses. Foi necessário esse tempo para doma-lo.

7. Envelhecimento: Fase fundamental para dar complexidade aromática e maciez gustativa. Nesta o vinho “era esperado”, não havia prazos. Novamente o 91 foi o mais aguardado, somente chegou ao inicio do ciclo de consumo dois anos depois de engarrafado.

O que me deixa mais orgulhoso é comprovar o bom trabalho realizado por nossa equipe nesses anos começando pelo esforço feito no campo pela dupla Osvaldo e Evalde Filipon, complementado pelo fantástico trabalho de Carlos Zanuz na cantina.

O incrível é que os vinhos preferidos da degustação foram os das safras 1991 e 1992 e na planilha acima se observa a enorme diferença que existiu no comportamento do clima.


Para aqueles que subestimam a capacidade dos enólogos brasileiros para elaborar vinhos tintos, os dados acima são uma clara demonstração da enorme variação que o clima apresenta, resultando na mudança radical da composição dos caldos. A chuva tem um efeito diluidor e por isso quantidades fortes prejudicam as uvas acentuando a necessidade de um rigoroso controle da produção.

Quando analisamos a amplitude térmica no período final da maturação, diferença entre as temperaturas máximas e mínimas, observamos que neste item a safra 1991 foi um destaque.

Sinto-me com o dever cumprido porque o tempo comprovou que todos nossos esforços foram premiados. Minhas homenagens para a jovem equipe, da qual mencionei alguns, que me acompanhou.

Sintam-se orgulhosos por fazer parte da história da vitivinicultura brasileira. Por ter conseguido, vinte anos atrás, elaborar um vinho que muitos não conheceram mas que é um digno representante da enologia gaúcha.

2 comentários:

Rafael Silva disse...

Boa noite, gostaria de uma informacao qual seria o valor de um.baron de.lantier safra 1987 poderia me ajudar?

Teruo Ogura disse...

Meus parabéns pelo Grande Trabalho!
Como bebedor destas safras, mas sem o sendo crítico atual, fico muito feliz pelo excelente resultado.
Agora, a minha curiosidade seriam o estado dos vinhos da casta Pinot Noir, que bebi com grande prazer.

Abraços