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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Medo de que?

A Serra Gaúcha é uma região vitivinícola singular, única.

Seu perfil produtivo, sua geografia sinuosa, seus habitantes com o sotaque arrastado, seus costumes, cânticos e gastronomia formam parte do maior patrimônio cultural do Rio Grande do Sul. Não há igual na América do Sul.

A Serra se destaca pela excelente distribuição de renda, uma das melhores do país, graças ao perfil minifundiário das propriedades vitícolas. Na região, mais de 15.000 famílias vivem da uva e do vinho, quase todas de descendência europeia, do norte da Itália. As cabeças virtuosas acham que o pequeno produtor é digno de pena, precisa ser protegido, conduzido, “comandado”. A realidade é que se trata de um empresário dono de seu negocio, de seu nariz, de seus erros e acertos. E podem ter certeza que os acertos são maioria.

A vitivinicultura de uma região é feita, se constrói pelas mãos calejadas do pequeno produtor.
Ele tem a vitivinicultura no sangue, herança de seus antepassados, no DNA.
Ele não vê a uva e o vinho como um negócio, que precisa ter retorno, que deve ser depreciado, que tira o sono.
Ele faz tudo por amor, com paixão, sem medir esforços. E essa paixão é percebida no olhar, nas palavras, nos gestos.
Ele, ao receber pessoalmente o visitante em sua pequena cantina, com simpatia e receptividade, faz muito bem para a imagem da região, faz muito bem ao vinho brasileiro.

Um tempo atrás participei de uma inútil reunião para discutir a estupidez da implantação do selo fiscal com um gênio da CONAB, numa pequena cantina. A reunião transcorreu no meio das pipas de madeira e me lembrei das velhas épocas da De Lantier. Ao final da reunião descobri que a cantina era da família Cristofoli, dos descendentes do saudoso Duilio, produtor de uvas com o qual tive o privilegio de conviver nas décadas de setenta, oitenta e noventa. Duilio era uma pessoa que iluminava nossa cantina quando chegava cantando, contando causos e piadas, sempre alegre. O corpo forte como um touro escondia um coração enorme e uma pureza própria do homem de campo simples e direto. Descobri nesse dia que sua neta Bruna, formada em enologia, tinha assumido a missão de dar continuidade ao legado do vô, agora fazendo vinhos de seus vinhedos, de boa qualidade, preservando o nome com dignidade.
Este exemplo se aplica a outros produtores como Zanini, Anghebem, Carraro, Brandelli e centenas mais que desiludidos do modelo de manter vinhedos para fornecer suas uvas às grandes cantinas, iniciaram a carreira solo. A saída das grandes empresas multinacionais, que muito fizeram para construir a região, que parecia presságio de um negro futuro, estimulou que muitos viticultores completassem a cadeia produtiva elaborando seus vinhos e colocando-os no mercado. Estas pequenas cantinas constituem o futuro da região, são as que agregam valor, por isso devem ser apoiadas, valorizadas, destacadas.

A criação do Vale dos Vinhedos criou uma ferramenta fantástica de subsistência destas vinícolas e de valorização do produto nacional. Este exemplo que está sendo seguido por outras regiões ajudará a acelerar o fortalecimento da imagem de nossos produtos. Se algumas lideranças não reconhecem estas ações como o caminho lento a ser seguido, pelo menos que não atrapalhem criando selos e tomando medidas aparentemente em defesa do setor mas contrárias aos interesses dos consumidores.

Argentina e Chile, países produtores que invadem o mercado com um volume importante de vinhos baratos de qualidade duvidosa, não possuem uma estrutura produtiva com tanta carga de tradição e cultura.

Então, medo de que?

6 comentários:

Lizete Vicari disse...

Lindo!!!
Obrigada por escrever com tanta clareza e delicadeza!
Venho de uma família destes colonos e fui criada dentro destes valores.
Moro em Santa Catarina e produzo com meu filho um vinho com as uvas vindas de um coração desses.
Um abraço!
Lizete Vicari

Nilson disse...

Olá Adolfo!
A questão que envolve a salva-guarda não é uma questão de medo, somente; é uma questão de manipulação.
A manipulação dos grandes grupos e de seus marionetes na Ibravin e em outros.
Vinho não é um mero produto industrial mas sim o fruto da maneira de agir e pensar de um povo em um determinado contexto geo, climático. Temos ótimos exemplares por ai e os vendo muito bem!!

Adolfo Lona disse...

Prezada Lizete: Com certeza o vinho que elabora em família, com seu filho, de plantas herdadas do vinhedo paterno, sempre terá um sabor especial para todos vocês e para quem tiver o privilegio de compartir uma taça.Grande abraço

Adolfo Lona disse...

Meu caro Nilson: Por essa sua sensibilidade em reconhecer os valores de alguns pequenos produtores é que tenho certeza de uma longa e prazerosa parceria. Meu abraço

vinhofortaleza disse...

Adolfo, faço minha suas palavras, venho de uma semana de filagens na Serra Gaucha onde foi fantástico observar as transformações, proporcionadas pela apropriação de suas tradições culturais, pela qual passou uma terra inóspita que os italianos desbravaram, na região com um dos maiores PIB da América Latina, fiquei feliz da comprovar a alta qualidade de muitos vinhos que degustei, apenas lamento certo preconceito e descaso com o qual é tratado o vinho brasileiro nos principais mercados consumidores do país. Uma pena.

Anderson Wenningkamp disse...

Existe muito interesse e política por trás disso tudo...Se o próprio Brasileiro não tem costume de beber, se quer 2 litros por ano, ainda brigam para bloquear importações, deveriam sim incentivar o consumo moderado e o conhecimento dos bons vinhos fabricados no Brasil. Também convido você a conhecer meu blog sobre curiosidades e produtos de vinho http:\\www.gestaoevinho.blogspot.com.br e a loja de uma amigo meu, muito boa. http:\\www.vinhobr.com.br

Abraço