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quinta-feira, 1 de março de 2018

Beber e apreciar




Meu livro "Vinhos e Espumantes, elaboração, degustação e serviço" editado em 1996, foi resultante das apostilas e lâminas de retroprojetor (alguém lembra deste equipamento revolucionário na época para dar aulas?) acumuladas desde 1988 nos Cursos de Degustação organizados na sede da Cantina De Lantier em Garibaldi.

Foram anos magníficos do despertar da curiosidade do brasileiro em relação aos "tabus e mistérios" que envolviam o vinho.
Entendi que minha missão seria desmistificar estes conceitos que, a meu ver, distanciavam o consumidor do vinho, o amedrontavam, o tornavam vítima do dessaber.

Naquela época já insistia que o vinho não tem mistérios, é natural, é da terra, é da região com seu clima e características, é feito pelo homem auxiliado pela natureza. Destacava que justamente por ser da terra, da região, era diferente das outras bebidas por ser diferente entre si.

Como achar melhor um Cabernet Sauvignon importado do que um nacional?
Nem melhor nem pior, diferentes.

E esse é o maior valor do vinho, ser capaz de ser diferente pela uva, pela região, pela idade, pela técnica de elaboração, pela decisão indiscutível do enólogo ao engarrafa-lo.

Complicado? Não, amplo, desafiador, infinitamente variável.

Gosta de produtos mais padronizados, mais "iguais"?
Quem sabe não bebe refrigerantes ou as bebidas fabricadas?

O vinho é elaborado.

Ante este desafio que é falar de um produto tão simples, mas tão variável, nós responsáveis pela divulgação do vinho e dos espumantes, temos de fazer todo o possível para não complicar com regras rígidas, sejam operacionais (temperatura, tipo de copo, decanter, arejamento, horário, harmonização, etc.) ou de postura (como tomar o copo, quanto encher, como cheirar, como engolir, bla, bla, bla.). Não é a única forma de beber vinho.

Em meu livro em 1996 já recomendava separar o ato de "tomar vinho" do ato de "apreciar vinho". Faze-lo nos ajudará a sair da camisa de força que alguns "prêmios nobels" da enologia insistem em nos colocar.

Simplifique o ato rotineiro de "tomar vinho"

Ou seja, beba vinho na hora que quiser, no copo que tiver, misturado ou não.
O vinho é e sempre será a única bebida capaz de satisfazer a sede do corpo e da alma.

Devemos lembrar que o consumo de vinho diluído ou misturado com água e/ou gelo permite a alguns países tradicionais manter elevado o consumo per capita e ainda educa o paladar aos sabores típicos do vinho.

Alguma vez experimentou o refresco de vinho (com água gaseificada e gelo) num dia quente, como substituto de uma eventual cerveja?

Nunca esquecerei quando nas visitas que fazia a minha família lá pelos anos oitenta, tinha encontros com meu cunhado Diego, longos, demorados, lentos, ao redor da mesa familiar onde repousava um garrafão de Malbec comprado por "chirolas" no armazém da esquina.

O bebíamos com naturalidade, num copo de vidro parecido aos de geleia, acompanhado de um pão caseiro dividido com a mão, um queijo "fresco" e um salame cortados a faca.
Eram horas e horas, divertidas, alegres, que passavam sem perceber.
O vinho? "Um malbec, se faltar pego outro garrafão" dizia o Diego.

Valorize o ato especial de "apreciar um vinho"


Reserve para estas ocasiões as pequenas regras que permitirão aproveitá-lo ao máximo.
Neste caso sim são importantes tipo e tamanho do copo, temperatura correta, abertura antecipada, sequência correta, etc.

Saber apreciar vinhos exige um mínimo de investimento pessoal, como tempo, dedicação, interesse e, principalmente, humildade para nunca achar que já conhece tudo.

O caminho passa invariavelmente pelo consumo habitual, quase diário.

Proporcione ao vinho as mínimas condições para que possa lhe oferecer o melhor de si.

Certamente jamais se arrependerá disso.

2 comentários:

G&O na Vila disse...

Sr Lona,
Para corroborar com as tuas palavras, li recente artigo do Ivan Primo Bornes no estadão, acerca da queda de consumo de vinho n Argentina. http://blogs.pme.estadao.com.br/blog-do-empreendedor/como-o-vinho-perdeu-o-lugar-na-mesa-do-argentino/
Infelizmente não estamos vivendo a simplicidade de beber um vinho.
Abs
André do Monte

Adolfo Lona disse...

Caro André, obrigado por participar do blog enviando seu parecer. Lamentavelmente é verdade e estamos pagando o preço da cegueira comercial que tomou conta do setor vitivinícola.
Grande abraço