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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Receita




A facilidade com que os enochatos emitem longas e fantasiosas opiniões sobre alguns vinhos nos permite entender o alcance da sua ignorância.

É tal o grau de generalidade em seus conceitos que devem pensar que o vinho é resultado de uma receita única, fácil de aplicar, universal. E nada é mais falso.

As características de cada vinho são resultantes de duas variáveis inseparáveis: a matéria prima e a mão de quem o criou.

Estas duas variáveis, ao serem tão maravilhosamente “variáveis” constituem a verdadeira essência do vinho, um produto único, incomparável, típico, com DNA, com nome e sobrenome.

Vejam que falei características, não qualidade, para fugir da subjetividade. O que é bom para mim, pode que não o seja para outra pessoa.

A videira, apesar de ter características que a assemelham a uma trepadeira, é uma planta extremamente sensível ao tipo de solo, argiloso, pedregoso, arenoso e todas as variáveis, a sua composição química e nutricional, à topografia, etc. É sensível ao clima, mais seco ou chuvoso, às temperaturas e sua variação, à amplitude térmica, às mudanças próprias de cada estação, etc.

Todas estas alternativas resultam em diferentes condições conforme a combinação entre elas já que não sempre uma exclui a outra.

Se isso fosse pouco, podemos acrescentar que o tipo de videira não é único, existem as variedades e o tipo de planta, pé franco ou muda enxertada.

Entre as variedades existem as de ciclo vegetativo mais curto, as chamadas precoces entre as quais podemos citar Chardonnay, Pinot Noir e Cabernet Franc e as de ciclo vegetativo mais longo como Cabernet Sauvignon.

Também se diferenciam pelo potencial que possuem para produzir vinhos mais leves, como Cabernet Franc ou mais encorpados como Cabernet Sauvignon, mais frutados como Chardonnay ou aromáticos como Riesling Itálico.

Claro que dispor destas informações não é suficiente para obter bons resultados já que como dizemos inicialmente a videira é sensível a todas as variáveis, é necessário protege-la, conduzi-la, acompanha-la. Para se ter uma ideia de quanto é preocupante sua vulnerabilidade, podemos afirmar que bastam alguns dias de descuido para perder produção, qualidade ou ambos.

Tendo a matéria prima adequada as características da região, entra em jogo o “elaborador” que pode ser enólogo, engenheiro agrônomo ou simples prático, o importante é que saiba extrair dessa uva, obtida com esforço e paciência, todo seu potencial respeitando a influencia da natureza sobre ela.

O vinho é um espelho onde se reflete a figura do fazedor.

Quando é um intervencionista daqueles que seguem a receita do bolo que seduz pela rapidez e simplicidade, utilizará todo tipo de insumo, para criar um monstrengo que os ingênuos bebem e as farmácias agradecem porque proporcionam aumento dos remédios para dor de cabeça e mal-estar estomacal.

Se for um “elaborador” de verdade, deixará que a uva se manifeste, conduzirá o ciclo produtivo com atenção, sem interferências, sem presa, com calma e sabedoria.

E seu produto será admirado e saboreado ao chegar aos paladares dos que, sem serem conhecedores, reconhecem a tipicidade e honestidade de um vinho.

O parecer do enochato? Quem se importa com isso?

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