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domingo, 6 de julho de 2014

A enologia arte

O saudoso Francisco Oreglia, padre salesiano diretor da Escola de Enologia “Don Bosco” na cidade de Mendoza, Argentina onde me formei, afirmava com veemência: a enologia é uma arte que precisa de artesãos e não de cientistas.

O padre Oreglia foi o professor de centenas de enólogos espalhados pelo mundo que aprenderam com ele a enologia prática na verdadeira essência, aquela que traduz num honesto vinho a vocação da vinha.

Não há mistérios, não há fórmulas mágicas. Há vinhedos bem formados, pacientemente aguardados, sabiamente conduzidos que produzem uvas sadias e justamente maduras que nas mãos de pessoas que praticam a “enologia arte” se transformam em vinhos dignos e representativos desse vinhedo.

Fazer vinhos bons e honestos que representem o caráter da uva que o origina não tem nada de extraordinário nem exige estudos científicos profundos. Uma boa porção de matéria prima sadia e madura, uma pitada de sensibilidade, outra de moderação e uma de equilíbrio.

Assim surgiram os grandes vinhos do mundo e assim surgirão outros.
Quando perguntaram a Paul Pontallier, enólogo do Château Margaux qual o mistério da qualidade e prestigio de seus vinhos respondeu: Duzentos anos de tradição cuidando das uvas que a natureza nos entrega e conduzindo o processo natural de transformação em vinho sem maiores intervenções. Assim de simples.

Exemplos assim mantendo as devidas proporções existiam em todo o mundo e o vinho representava com mais clareza a vocação das diferentes regiões.

Lembro que em 1970, quando trabalhava com o saudoso Raul de la Mota na Bodega Arizu de Mendoza, elaborávamos um vinho tinto genérico (não tinha ainda a moda dos varietais) da marca Valroy a partir de uvas Malbec e Bonarda que era tão autêntico, marcante e especial que durante anos guardei na minha memória gustativa seu aroma e seu gosto.

Era elaborado de forma simples, sem manobras, sem manuseios, maturado em barris grandes de carvalho francês e envelhecido pacientemente por pelo menos um ano.

Mas infelizmente com a abertura dos mercados no mundo nos anos noventa, ótima em certos aspectos, veio também a globalização de costumes e gostos induzindo o surgimento de produtos padronizados.

Isto afetou marcadamente a enologia no mundo e o estilo dos vinhos produzidos. Os vinhos começaram a ser cada vez mais parecidos uns com os outros.

O despreparo e insegurança dos novos consumidores de vinhos em alguns países importantes e a curiosidade que esta bebida despertou nas pessoas e na mídia, acabou facilitando o surgimento dos chamados “formadores de opinião” que com maior ou menor peso começaram a influenciar no estilo dos vinhos considerados “de qualidade, dignos de serem bebidos”.

O mais famoso de todos capaz de consagrar ou condenar regiões, uvas e marcas, foi Robert Parker.
Se na enologia predomina o equilíbrio, na de Parker predominam os excessos: de madeira, de corpo, de álcool.
As notas de Robert Parker (reconhecidas como RP nos rótulos das garrafas) se transformaram em sentenças capazes de elevar o preço de vinhos desconhecidos a valores estratosféricos.

Depois surgiram centenas, milhares de “formadores de opinião”, pessoas, revistas, jornais, com muito menos peso que Parker, mas influentes.

O “estilo Parker” (que afortunadamente afetou o estilo somente dos vinhos tintos deixando incólumes os brancos e espumantes) se transformou no sonho de consumo de muitas cantinas que almejavam produzir vinhos parecidos capazes de ganhar mercado rapidamente.

Houve uma correria em direção ao “estilo Parker” e como não há formas naturais de encurtar o tempo, surgiram alguns “artifícios” travestidos de “tecnologia” como o uso de lascas (chips) de carvalho e a micro oxigenação para substituir as demoradas, caras e chatas barricas de carvalho, os processos como osmose inversa e concentração a baixa temperatura para retirar água dos sucos e obter mais cor e álcool que servem para substituir uvas bem conduzidas, moderadamente produtivas, sadias e maduras, etc.etc.

Os vinhos tintos modernos em especial do Novo Mundo como Argentina e Chile são muito parecidos entre sim. Boa cor, aromas intensos de madeira, quase achocolatados e sabores macios e aveludados. Pouco importa se são feitos com Carmenere, Merlot ou Cabernet Sauvignon e muito menos de regiões diferentes.

Mas como o consumidor de vinhos é progressivo, se aprimora, se torna mais exigente, esta fase parece estar acabando.

As pessoas cansaram dos vinhos padronizados e buscam produtos mais autênticos e diferenciados.

O futuro parece reservar um lugar privilegiado aos produtores que ofereçam vinhos com estilo próprio, que mantenham a cor, os aromas e o sabor da “terra e do clima” que originou suas uvas.

Esperemos que assim seja!

Um comentário:

Ignacio Carrau disse...

FELICITACIONES estimado Perico Lona, está brillante toda ésta descripción sobre la EVOLUCIÓN ó INVOLUCIÓN de la tendencia en la elaboración de los vinos finos especialmente los tintos en función de los críticos más prestigiosos a nivel internacional . Leyendo tu artículo me vino a la cabeza inmediatamente el recuerdo de nuestro padre Juan Francisco Carrau Pujol e inclusive de nuestro abuelo don Juan Carrau Sust que fue quien trasladó nuestra familia desde Catalunya a Uruguay en 1930 . Ellos dirían exactamente lo mismo y nuestro padre era un gran amigo y admirador tanto del Padre Oreglia como del recordado don Raul de la Motta que fuera por muchos años el Enólogo principal de la Bodega WEINERT . Gran abrazo y gracias por aportar comentários tan profundos e interesantes para los que amamos la vitivinicultura en todos sos aspectos .