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quarta-feira, 25 de julho de 2012

A importância da intensidade



Ao degustar ou apreciar um vinho tinto o aspecto visual, porta de entrada da análise sensorial, é muito importante porque transmite a sensação de estrutura e idade.
A estrutura é mostrada pela intensidade da cor, associada a transparência. Um vinho de cor intensa é pouco transparente, ou seja, a luz não passa por ele.
A idade é mostrada pela tonalidade da cor que evolui com o passar dos anos do vermelho para o laranja por ação da luz e da micro-oxigenação. Quando jovem, sua cor tem predominância de tons vermelhos, as vezes violáceos e com o passar do tempo a cor vai mudando e adquirindo tons alaranjados.
A preocupação de todos nós enólogos e que o vinho desafie o tempo e mature e envelheça dignamente. A evolução da cor nos vinhos é como as rugas nas pessoas. Quando aparecem de forma precoce transmitem idade que não é real. E convenhamos que ninguém gosta de aparentar mais idade da que tem.
Na ilustração acima fica evidente como a evolução da cor é mais gritante no vinho de baixa intensidade. O vinho mais claro tem “cara de velho”, parece decrépito, passado, mal conservado. No vinho mais intenso os tons laranjas estão escondidos e compõem com os vermelhos o tom marrom, muito próprio dos tintos encorpados, elaborados com uvas maduras e boa carga de componentes.
No RS as safras mais “secas”, ou seja com menor quantidade de chuvas na época de pre-maturação e maturação, proporcionam uvas mais concentradas com as quais é possível elaborar vinhos tintos mais longevos. Por isso durante esta época ficamos com um olho no vinhedo e outro no céu, um pouco espiando, um pouco orando.

sábado, 21 de julho de 2012

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Intervencionismo

Por curiosidade e razões profissionais estive visitando algumas cantinas recentemente no Brasil e na Argentina e confesso que fiquei algo decepcionado pelo nível de “intervencionismo” que existe em boa parte delas.

Parece que os tempos da enologia natural, quando a elaboração dos vinhos se resumia à escolha da uva e acompanhamento do processo natural da fermentação e as operações específicas da elaboração em brancos ou em tintos, acabaram ou ficaram restritos a poucas cantinas.

A missão do enólogo era, e defendo que continua sendo, deixar a uva se expressar, mostrar sua peculiaridade, sua espontaneidade, seu caráter. Os vinhos tintos elaborados de forma simples são saborosos, tem personalidade, são únicos.

O uso de auxiliares que tem como efeito amaciar, arredondar, aromatizar, em fim, mascarar, acabam deixando todos os vinhos parecidos, as vezes iguais.
Recordo a frase de um querido amigo quando ouvia o martelo amaciando a carne: “Estão aminhonando o alcatra”. O martelo sobre o vinho não é legal.

O uso de chips, a meu ver a maior praga da enologia moderna, parece resolver tudo e é usado de forma indiscriminada.

É justificável usar este “ingrediente” na elaboração de vinhos da uva Malbec, sadia, madura, perfeita para conseguir maravilhosos e saborosos produtos jovens ou de guarda em Mendoza?

Ao perguntar estranhado o porquê desta técnica ouvi a justificativa de que serve para “fixar a cor dos vinhos”. Será que esta uva, que atinge magníficos índices de maturação, está livre de chuvas predatórias e de doenças fúngicas, precisa ser assassinada desta forma?

O pior é que este tipo de iniciativa geralmente parte de consultores internacionais que não querem nem podem correr o risco de “errar”. Então partem para a padronização, para o estilo refrigerante onde cor, aroma e sabor tem de ser sempre exatamente iguais. Fabricam o vinho, não o elaboram.

O consumidor de vinhos poderá perguntar: como saber se o vinho que bebo foi manuseado demais? Se for muito cheiroso, redondinho, quase adocicadinho, aposte na habilidade do químico (desculpe, enólogo) que o fabricou.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Brasileiros em Mendoza




Se a paixão não move montanhas, leva até elas.

Um grupo de cinco brasileiros decidiu transformar sua paixão por vinhos num desafiador empreendimento em Mendoza, capital da uva e do vinho da Argentina.
Em 2005 adquiriram uma propriedade de 69 hectares, parte dela com vinhedos, e hoje já dispõem de quarenta e oito hectares de uvas finas entre as quais se destacam a Cabernet Sauvignon e a Malbec, variedade emblemática da Argentina.

Em recente viagem a Mendoza, tive a oportunidade de visitar a propriedade, os vinhedos, a cantina e em especial degustar os vinhos produzidos a convite de meus amigos João Carlos Dantas e José Caetano Lacerda, sócios da Finca Don Otaviano Bodega e Viñedos.

A propriedade está situada em Alto Agrelo, distrito do município de Luján de Cuyo, berço do maravilhoso malbec mendocino, ao pé da montanha, e a paisagem dos vinhedos, da cantina e dos Andes nevados é deslumbrante como mostram as fotografias acima.

Os vinhedos mostram um manejo profissional, fileiras perfeitamente alinhadas, espaço entre filas e plantas adequado à necessidade de mecanização, tela “antigranizo” total para proteger eventuais acidentes climáticos, fileiras limpas, plantas desfrutando do merecido descanso, silencio, tranquilidade em todos os cantos.

A cantina é pequena e moderna construída modularmente para atender o futuro próximo do aumento de produção de uvas e vinhos. Tanques de inoxidável, equipamentos modernos, instalações iluminadas naturalmente e arejadas constantemente. Já no hall de entrada o que chama atenção é um poço de vidro de onde se observa a cave onde repousam as barricas de carvalho francês de 225 litros e os nichos onde envelhecem os vinhos.

Na entrada da cave o visitante é invadido pela quase irresistível vontade de aí ficar, sentado, em silencio, segurando numa mão uma farta fatia de queijo e pão caseiros e na outra, aguardando sua vez, um generoso copo de Malbec Penedo Borges.

Por que essa é a marca dos vinhos aí produzidos e já distribuídos no Brasil.
O nome é uma homenagem a um dos sócios, Euclides Penedo Borges, enófilo, escritor de obras importantes sobre o mundo da uva e do vinho.

Provei e gostei muito de todos os vinhos que me apresentaram: Cabernet Sauvignon Reserva, boa cor, aromas intensos e envolventes, excelente estrutura de boca, taninos marcantes e elegantes, Malbec Gran Reserva, muito expressivo, traduz com clareza o caráter desta variedade que Mendoza trata tão bem e por último o Malbec Ícono que surpreende pela força aromática, um verdadeiro ataque de sensações. Na boca é daqueles vinhos dignos de serem guardados na memória e no coração.

Está com água na boca, não? Fique calmo. Estes vinhos poderão ser adquiridos no Brasil, no RJ na Ana Santos Alimentos, em BH na Casa Rio Verde, na Bahia na Malbec e em Natal na Magazzino.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Agora é vinho branco

Talvez seja consequência do frequente consumo de espumantes, talvez seja pela idade, pelo clima, pelo humor,,,em fim não sei. O fato é que ultimamente estou preferindo um refrescante vinho branco que um encorpado tinto.

Não sei explicar o motivo mas quando sento na mesa, penso na elegância de um Chardonnay ou na exuberância de um Sauvignon blanc. Vem logo a minha mente despertando meus sentidos, as cores douradas pálidas, os aromas intensos e envolventes de frutas semi-maduras e o sabor que invade com seu frescor, acidez e juventude. E não me resisto. E peço um vinho branco.

Sei que muitas pessoas acham que o verdadeiro vinho é o tinto, que o vinho branco é para pessoas iniciantes e despreparadas, que quem bebe vinho branco não está com nada, etc. etc. Mas como disse um sábio: gosto não se discute...se aprimora.

E por isso acho que aprimorei meu paladar antes muito direcionado a espumantes e vinhos tintos. Agora acho que fechei o círculo.

Tenho minhas fases mas em principio me deixo levar pelo que o corpo pede nesse momento. Sem dar explicações a ninguém, sem estresse, sem ficar amarrado a “vinhos que casam com pratos”.

O vinho e o prato devem casar comigo, assim seremos felizes para sempre.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

terça-feira, 22 de maio de 2012

Vamos construir o futuro

Creio que todos os que estivemos envolvidos neste episódio da Salvaguarda, Ibravin inclusive, deveríamos, à luz das reações acaloradas em pro e contra a medida, refletirmos sobre o problema da redução drástica de participação do vinho fino nacional no mercado. É fundamental ir a fundo, com objetividade, transparência, sem melindres e sem temores.
Creio ainda que os acontecimentos deixaram uma lição: a parte mais importante é que o mercado consumidor é capaz de manifestar-se através de seus representantes nas redes sociais, internet, mobilizando-se e reagindo contra ações de todo tipo que possam ameaçar sua liberdade de escolha.
Num país como o Brasil, com a maior população da América, com um consumo ainda insignificante, com uma evidente melhoria na distribuição de renda, com uma população “sedenta” de conhecer sobre a cultura da uva e do vinho, o mercado futuro oferece condições para todos participarmos, sem guerras, com honestidade nos preços e na qualidade de nossos produtos. Tenho certeza que todos poderemos construir um futuro brilhante para o mercado onde o vinho nacional ocupará o lugar merecido.
O consumidor tem preconceito sobre o vinho nacional?
Se a estatística do consumo de espumantes nacionais e importados mostra a enorme predominância dos primeiros, porque imaginar que a situação inversa nos vinhos é resultado de preconceito? NÃO É.
A verdadeira razão é que o consumidor CONFIA na qualidade do espumante e NÃO CONFIA na qualidade do vinho. Trata-se de um problema de imagem. É necessário mudar esse conceito tendo muita paciência e ideias claras.
Paciência porque é mais fácil GANHAR CONFIANÇA que RECUPERAR A CONFIANÇA PERDIDA.
Ideias claras porque se não forem atacadas as causas do problema com inteligência, modéstia e profissionalismo, em pouco tempo as consequências serão piores e não haverá solução.
A falta de confiança é tamanha que o consumidor prefere beber um vinho argentino ruim comprado a menos de 10 reais do que um nacional do mesmo preço e com certeza de melhor qualidade.
O Ibravin tem uma tarefa faraónica e este respeito e já começou a executá-la. Esperemos que continue ficado nisso promovendo degustação, palestras, apresentações e cursos que aproximem o setor ao consumidor.
O Ibravin tem de estimular e apoiar fortemente todas as novas regiões que estão surgindo e em especial os pequenos produtores. São através deles que a cultura da uva e do vinho se consolida nestas novas regiões. Já é conhecida a inutilidade da passagem por algumas regiões de vinícolas de grande porte, nacionais e multinacionais. Passaram e não deixaram nada.
O mercado se alargou em termos de oferta e o Brasil pouco fez. Há uma década países como Portugal, Itália e Espanha chegavam ao Brasil representadas por vinhos de pouquíssimas regiões. Espanha com Rioja, Itália com Valpolicella e Portugal com Douro e Verde. Agora são dezenas de vinhos de boa qualidade, curiosos, inovadores, com novas propostas. Nós fizemos muito mas as iniciativas regionais não recebem apoio, incentivo, divulgação. Regiões que surpreendem por seus vinhos como Encruzilhada do Sul, Bagé, Pinheiro Machado e outras são sustentadas pelo esforço dos pequenos empreendedores. Pouco ou nada de apoio recebem.
Iniciativas como o Consórcio de Produtores de Espumantes de Garibaldi, criado para normatizar a metodologia de elaboração e monitorá-la através de auditorias externas, foi ignorada pelo Ibravin.
Promover uma mudança drástica nas regras da elaboração de vinhos e espumantes realizando alterações na Lei de vinhos será a ferramenta mais eficaz para um novo salto de qualidade. Acabar com a chaptalização para vinhos finos de imediato é fundamental, não pelas poucas gramas de açúcares que serão deixadas de colocar mas pelo efeito benéfico sobre a maturação das uvas e a maciez e harmonia dos vinhos, em especial da Serra Gaúcha.
Seria muito saudável que as entidades de classe representativas do setor e o Ibravin saiam mais de seus gabinetes e caminhem o mercado, ouvindo o consumidor, os formadores de opinião, os pequenos produtores. Chega de lamentações e de previsões apocalípticas. O mercado está aí, aguardando que arregacemos as mangas e trabalhemos juntos para crescer.
A instituição VINHO deve estar por cima de tudo. Lutemos para que a cultura da uva e do vinho se consolide e expanda. Mas não lutemos entre nós porque nos enfraquecemos e neste esforço vamos precisar de todas nossas forças.