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sábado, 9 de março de 2013

A Serra Gaúcha que eu conheci 3



A realidade do campo

O perfil acentuado de minifúndio que vigorava (e ainda vigora) na Serra me colocou de imediato numa realidade totalmente diferente da que conhecia de Mendoza.
As propriedades eram pequenas e toda a família colaborava desempenhando diferentes tarefas. A geografia era íngreme, o que impedia a mecanização e por isso tive meu primeiro contato com a “junta de bois” com os quais os agricultores aravam e tratavam a terra. A “colônia” era uma preciosa reserva cultural onde a gastronomia, costumes e uso do dialeto constituíam um pequeno rincão do Vêneto italiano.

Até hoje recordo o Sr. Cavazza, italiano diretor técnico da Martini da França que ao visitar uma festa colonial ficou emocionado e me disse baixinho, “estas canções não se ouvem mais na Itália. Isto é um tesouro”.

Esta situação permanece pouco alterada para algumas famílias e por isso a necessidade de preservar esta cultura apoiando o pequeno agricultor, o pequeno produtor de vinhos já que constituem o verdadeiro patrimônio cultural da região.

Para adquirir uvas era necessário contatar um importante número de produtores e isso exigia conhecer cada um deles, sua propriedade, suas uvas e sua forma de trabalhar.
Para esta tarefa contratamos uma “prata da casa”, Osvaldo Fillipon, pessoa experiente que tinha trabalhado na Cooperativa Garibaldi e que conhecia como ninguém a idiossincrasia da região. Osvaldo se transformou ao longo dos anos na ponte entre nossa vinícola e o produtor, confiável, amigo, preocupado em oferecer um bom serviço à empresa sem desproteger o “colono”.

É importante lembrar que no inicio dos anos setenta existia uma oferta relativamente limitada de uvas viníferas sendo que o patrimônio varietal da época era predominantemente de origem italiano. As tintas eram Barbera, Bonarda, Canaiolo e Cabernet Franc e as brancas Riesling Itálico, Moscato, Peverella e Trebbiano.

A primeira surpresa que tivemos foi descobrir que existiam duas uvas chamadas Riesling, a “verdadeira” e a “falsa”. Os preços variavam conforme o volume da safra: quando faltava uva os preços se igualavam, quando sobrava, o preço da falsa era menor. Na primeira prova de vinificação verificamos que os vinhos não eram iguais, um mais elegante, mais refinado, mais harmônico, o outro era bastante frutado mais de curto ciclo maturando aceleradamente, mais “verde”, mais grosseiro. Pesquisando chegamos a conclusão que a falsa era a hibrida produtora direta branca Seyve Villard e passamos a chama-la por seu verdadeiro nome, pagar o preço justo e a destinamos a base vermute.

Entre as barberas e bonardas havia uma mistura impossível de decifrar. A solução foi o inicio imediato da propagação de material importado de novas variedades junto aos produtores. Para tal fim importamos mudas enxertadas das variedades Cabernet franc, Merlot, Semillón, Riesling renano e Pinot Noir seguidas de Cabernet Sauvignon e Chardonnay.
Estas últimas chegaram no inicio dos anos oitenta.

Como todas as mudas eram originárias da França os viveiros dispunham de plantas enxertadas sobre o cavalo mais utilizado lá que era o SO4 (Teleki 4 Sel. Oppenheim) originário da Alemanha. Este cavalo se mostrou (uma década depois) muito sensível a algumas doenças e ao excesso de umidade, por isso algumas mudas importadas nos primeiros anos tiveram problemas e morreram.

A falta de experiência e conhecimento de campo nos levou a este tipo de erro e infelizmente em viticultura para corrigi-lo leva de 8 a 10 anos. Outros cavalos foram solicitados posteriormente como Paulsen 1103 e 101.14.

Por esta razão me chama muito a atenção quando algumas vinícolas, magicamente, declaram antecipadamente logo após o plantio de algumas uvas que delas sairão vinhos ícones, prêmium, super premium, premio Nobel, etc.

É o marketing agressivo que impõe inverdades, conceitos errados que levam o consumidor ao engano. Isto deve ser combatido.

O controle da produção

Não existiam critérios técnicos para produzir uvas finas e os agricultores acostumados a cultivar uvas americanas, exageravam na produção como forma de compensar os baixos preços praticados. Na época a uva não estava enquadrada na Política de Preços Mínimos e os mesmos eram definidos pelas maiores compradoras: Cooperativa Garibaldi, Vinícola Riograndense e Dreher que produzia em Bento Gonçalves o conhaque com o mesmo nome feito com vinhos de americanas.

Iniciamos o Cadastro de Propriedade de cada um dos fornecedores que chegou rapidamente a 350 produtores. Uma equipe (da qual formou parte entre outros, Adriano Miolo que era estagiário) foi a campo a levantar:

- Área total da propriedade
- Área de vinhedos, área por variedade, área por talhão.
- Área de terra disponível para ampliar cultivo.
- Número de pés por variedade e por talhão.
- Tipo e origem do cavalo, enxerto ou muda.
- Ano de plantio por variedade e talhão.
- Identificação de pés sadios e suspeitos de viroses.

Desta forma levantamos a produtividade por pé já que o total por hectare é relativa porque o importante é quanto produz cada pé, o total de área produzindo por produtor, região e variedade.
Como foi levantada a origem o material vegetativo foi possível depois conferir a qualidade da uva e relaciona-la a esses dados.
Tudo isto parece excessivo mas foi a única forma que encontramos para dispormos de dados confiáveis que permitissem atuar efetivamente nas mudanças a serem feitas para melhorar a qualidade da matéria.

Não tenho dúvidas que a De Lantier na década de oitenta chegou a ter a cantina mais moderna e versátil do Cone Sul com prensas pneumáticas (as primeiras que chegaram ao Brasil), desengaçadeiras especiais, filtros, reservatórios de aço inox com controles, maceradores rotativos automáticos (o equipamento perfeito para extrair cor delicadamente), etc.

DE NADA ADIANTAVAM OS RECURSOS TECNOLÓGICOS SE A MATÉRIA PRIMA NÃO ERA ADEQUADA A ESSES AVANÇOS.
.
Como resultado do esforço em campo associado a uma política de preços que estimulava a qualidade, estado sanitário e a justa maturação das uvas foi possível estabelecer uma parceria confiável com os agricultores com os quais mantínhamos uma relação de confiança, sem contratos, sem cláusulas. Era no fio do bigode, mesmo.

Como resultado desta parceria confiável conseguimos elaborar um vinho tinto magnífico como foi o Baron de Lantier, primeiro vinho tinto a ganhar medalhas em concursos internacionais (quando ainda eram confiáveis). Não tenho dúvidas que apesar de nunca termos tido o atrevimento de chama-lo assim, o Baron de Lantier foi um ícone da época.

Infelizmente por razões diversas este vinho não existe mais. Foi assassinado pelas circunstâncias.

Uma perda irreparável para o setor.

sexta-feira, 8 de março de 2013

A Serra Gaúcha que eu conheci 2



A equipe

Com 25 anos e alguma experiência na elaboração de espumantes, tive o privilégio de formar parte da equipe técnica que a meu ver, influenciaria de forma marcante nas mudanças que aconteceriam a partir da década de setenta na região.
A Martini não mediu esforços em proporcionar a essa equipe todos os recursos técnicos e financeiros para tingir o objetivo: produzir um espumante brasileiro de nível internacional.

Logo à minha chegada conheci duas pessoas com as quais trabalharia de imediato e aprenderia muito. Eram Remo Lovisolo e Mário Tomaselli, dois enólogos italianos muito experientes e sérios. Remo era uma pessoa estudiosa, disciplinada e com conhecimento prático de elaboração, Tomaselli um enólogo-engenheiro, extremamente inteligente que conhecia os diferentes equipamentos e instalações enológicas como poucos. Os anos passados com eles foram enriquecedores e divertidos.

Eu disse que Reti não media esforços e uma prova disso foi que contratou os serviços de um enólogo francês, da região de Champagne para contribuir no projeto do espumante De Gréville.
Silvain De Sournac, diretor técnico da casa Casanove de Champagne se integrou já em 1974 e nos trouxe o “modo francês” de elaborar espumantes. A experiência vivida junto a ele foi extraordinária já que aprendi a importância da separação correta dos sucos através da prensagem suave e pausada, da preservação das características naturais do suco com limitadíssima intervenção, do esforço e concentração que exige obter um assemblage complexo e único, das mudanças fantásticas que proporciona a maturação e o envelhecimento do vinho base e do espumante.

Foram as experiências vividas com estes magníficos profissionais que moldaram minha forma de “fazer vinhos e espumantes” e da qual tenho tanto orgulho.

A cantina

Num quarteirão onde existiam um posto de gasolina Ipiranga, uma concessionária Chevrolet e uma serraria, todos desativados, começamos o projeto da nova cantina.
Na primeira visita que fiz ao local, ao abrir o portão um rato enorme, do tamanho de um gato, cruzou à minha frente. Foi um momento de dúvida ...”que estou fazendo aqui?”
Demolimos, construímos e reformamos o local de modo a ter áreas específicas para cada tarefa: recepção das uvas, pesagem e prensagem, local com reservatórios onde seria feita a elaboração dos vinhos, uma área para tomada de espuma em autoclaves e engarrafamento e um amplo espaço para armazenagem e maturação dos produtos semi-elaborados.

Como disse as cantinas locais eram bem completas mas tecnologicamente muito atrasadas.

Para ter uma ideia das novas tecnologias que as empresas estrangeiras aportaram nessa época vou citar:

- Substituição do sistema “escorrido” do suco pela prensagem, lenta e controlada.
A elaboração de vinhos brancos era feita desengaçando as uvas (retirando o cabinho) e enviadas imediatamente moídas a reservatórios (todos de madeira) onde o vinho era retirado pela torneira inferior por gravidade o que se chamava “escorrido”. Esta forma incorporava ao suco componentes de oxidação que depois eram retirados com o auxilio de clarificantes potentes que provocavam danos irreparáveis aos vinhos desde o ponto de vista aromático e gustativo. A prensagem retirava com cuidado as frações de suco flor ou gota evitando o contato com as cascas e sem fazer dano às mesmas resultando em sucos limpos, sem componentes de oxidação com alta carga aromática e marcante sabor.

- Substituição das pipas de madeira por tanques de aço inoxidável, mais higiénicos e capazes de proteger mais os vinho neles depositados.

- Controle automático da temperatura de fermentação através de dispositivos de circulação de águia esfriada e eletrônicos de controle.
Com esta inovação o vinho deixou de IR AO FRIO e o FRIO VEIO AO VINHO, evitando movimentos desnecessários que provocavam danos ao vinho. Ao ser automático o enólogo ficou liberado para cuidar de coisas mais importantes que a temperatura de fermentação. Com o frio as fermentação passaram a serem menos tumultuosas com ganhos relevantes nos aromas secundários.

Eram outros vinhos.

Estas e outras novidades tecnológicas resultaram em melhora substancial dos vinhos e vieram para ficar.

Foi um divisor de águas entre a velha e nova forma de fazer vinhos. A Serra Gaúcha passou a utilizar recursos tecnológicos mais avançados que Argentina e Chile na época.

quarta-feira, 6 de março de 2013

A Serra Gaúcha que eu conheci 1



Os quarenta anos de atuação no setor vitivinícola gaúcho, completados em janeiro de 2013, me permitiram ser testemunha dos esforços feitos na melhoria da qualidade dos vinhos e espumantes brasileiros na Serra Gaúcha.

Decidi escrever sobre este tema porque existe a ideia equivocada que a qualidade dos vinhos gaúchos somente melhorou a partir da década de noventa.
Na realidade foi e continua sendo um processo lento, dispendioso em esforços humanos e financeiros.

Cheguei ao Rio Grande do Sul em janeiro de 1973 para iniciar um empreendimento da Martini e Rossi (aquela do vermute) na cidade de Garibaldi direcionado à elaboração de espumantes pelo método charmat. Contratou-me em Mendoza o enólogo Carlos Gonzalez que apos cinco anos no Brasil estava voltando para Argentina. A decisão final sobre minha vinda coube a Francesco Reti, presidente da Martini e a pessoa mais admirável que conheci, um visionário, motivador, com uma fé enorme no futuro dos espumantes no mercado brasileiro.

Minha primeira tarefa, paralela à construção da cantina, era acompanhar a produção e engarrafamento do Château Duvalier, marca de propriedade da Martini e Rossi lançada em 1966 e que era campeão de vendas de vinhos finos nessa época com mais de 600 mil caixas de 12 unidades ao ano. Nos tipos tinto, branco e rosado demi-sec este vinho era produzido na Companhia Vinícola Riograndense de Caxias do Sul.

A magnífica rede de distribuição da Martini levou o Château Duvalier aos locais mais recônditos e o transformou no primeiro vinho gaúcho presente em todas as mesas. Encontrava este vinho no botequim da esquina ou no restaurante do Terraço Itália, considerado o mais requintado de São Paulo.

Apesar das críticas feitas a este tipo, o rosado foi a porta de entrada de muito consumidor novo.

Sempre afirmei que o vinho rosado demi-sec era na época o caminho intermediário entre um guaraná e um cabernet.

A Vinícola Riograndense para quem não lembra, produzia os vinhos Granja União cujo Merlot foi o primeiro varietal gaúcho. Danilo Calegari e Mario Pasquali eram os dois enólogos que comandavam com muita competência a cantina que era, junto com a Cooperativa Garibaldi, uma das maiores do país. O setor de viticultura era comandado pelo agrônomo Onofre Pimentel, um homem extremamente competente, sério e dedicado com o qual comecei a entender melhor a viticultura gaúcha.
Pimentel foi um agrônomo fantástico que teve a visão de indicar Pinheiro Machado na Serra do Sudeste como região excelente para plantar uvas finas e onde a CVRG adquiriu uma propriedade de quase 300 ha. Eram deles os vinhedos que hoje pertencem a Serrasul de Flores da Cunha.
As instalações da CVRG eram muito completas apesar de pouco modernas. A filtração dos vinhos era através de filtro de massa que na Argentina já tinham sido substituídos pelos de terras e de placas. Os reservatórios que predominavam eras as pipas de madeira (tronco-cônicas) donde predominavam pinho, imbuia e canafistula. Para evitar a transmissão de gosto de pinho estas pipas eram parafinadas à quente na construção.

Infelizmente a CVRG na década de noventa passou por problemas muito sérios de sucessão diretiva que a levaram ao feche definitivo. O Rio Grande do Sul perdia uma referencia da vitivinicultura nacional.

Meu primeiro referencial

Provando os diferentes vinhos finos produzidos na Serra um me chamou a atenção de forma especial: o Cabernet Château Lacave, feito pela vinícola do mesmo nome de Caxias do Sul.
Era excelente, elegante, sem artifícios, magnífico representante do Cabernet Franc gaúcho.
Imediatamente o tomei como referencia: se alguém elaborava um vinho desta qualidade então era possível com boas uvas, conseguir nível semelhante.
O proprietário do Château era Juan Carrau, um uruguaio visionário que chegara ao Brasil com o propósito de elaborar bons vinhos e o lograra com perfeição.
Tive o privilegio de conviver com Carrau durante muitos anos e aprendi a admira-lo pela sua honestidade e conhecimento. Com esta cantina e a Chandon constituíamos o maior grupo comprador de uvas finas e por tal razão nos momentos prévios à colheita estabelecíamos os critérios de prêmios de estímulo à qualidade.
Infelizmente a vinícola Château Lacave, pelo falecimento prematuro de Juan Carrau, passou a outras mãos e deixou de cumprir o papel importante no futuro da vitivinicultura gaúcha a ela reservado.

Foi outra perda importante do setor.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Não poderia acontecer

Apesar da existência do Preço mínimo que aparentemente protege os produtores de uva da Serra dos abusos de algumas cantinas e do acordo informal que fizeram as entidades de classe, há noticias de que algumas vinícolas estão dispostas a receber uvas comuns ao preço de R$ 0,35 ao quilo, R$ 0,20 abaixo do estabelecido por lei.

Como a uva é um produto perecível, de curtíssima vida, a pressão que alguns produtores recebem por esta situação favorece esta barbaridade.

Correm boatos que alguns expertos se aproveitando desta desigualdade, estão “aceitando” receber algumas tintas finas (excedentes) desde que ao preço de comuns.

É o velho jogo de gato e ratão aplicado livremente, sem punições, que levará mais cedo ou mais tarde ao total desestímulo, ao desespero dos produtores de uva. Como estes tem enraizada esta cultura provavelmente não arrancarão as vides, mas dificilmente entenderão os repetidos discursos das cabeças pensantes do setor que afirmam que o futuro está na qualidade. Que qualidade? Quem paga por ela?

Esta situação é constrangedora, pouco digna, inadequada.

A viticultura da Serra gaúcha se caracteriza pelo perfil mini fundiário das propriedades que explica o forte vínculo que existe entre o homem da terra e suas uvas. Toda a família trabalha e depende desta cultura, tem orgulho do que faz, não mede esforços para produzir em condições não sempre favoráveis. É um trabalho artesanal e como todo artesão, espera o reconhecimento e a valorização de seus clientes.

O setor tem a obrigação de defender este patrimônio cultural que é a viticultura da Serra gaúcha. Tem obrigação de preservar a pequena propriedade criando mecanismos que garantam uma remuneração justa e digna, que estimulem a qualidade, que corrijam os erros, que orientem.

Um exemplo de minifúndio bem sucedido é a região de Champagne, na França onde a relação entre viticultor e produtor de espumantes parte da premissa básica que um depende do outro. E todos desfrutam da riqueza gerada pelo negócio.

Não adiantam os trabalhos científicos que pretendem estabelecer estratégias e visões futuras se não se resolvem os velhos problemas que atingem a matéria prima.

As propostas defendidas por algumas entidades de classe fazem pensar que o futuro está somente na grande propriedade, na grande vinícola, nas novas regiões, no aumento de produtividade, da redução de custos, etc.

Sempre insisti que a Serra gaúcha oferece grandes dificuldades para o produtor de uvas mas a existência de vinhos excelentes são uma demonstração que é possível vencer as dificuldades.

É importante lembrar que as grandes regiões produtoras do mundo surgiram da superação, do esforço, da união de todos ante as dificuldades.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Moscatel espumante: 35 anos de história no Brasil


O agradável Moscatel Espumante não é um produto novo. No ano de 1978 o mercado brasileiro conheceu o primeiro Moscatel Espumante elaborado na Serra gaúcha por iniciativa da Martini e Rossi, empresa italiana produtora do famoso vermute, que iniciara suas atividades vitivinícolas na cidade de Garibaldi em 1973, e se inspirou no Asti Spumante italiano.

Definição legal
A lei 10.970 de 12 de novembro de 2004 o define assim:
Vinho moscato espumante ou Moscatel Espumante: “É o vinho cujo anidrido carbônico provém da fermentação em recipiente fechado, de mosto ou mosto conservado de uva moscatel, com uma pressão mínima de 4 (quatro) atmosferas a 20º C e com um teor alcoólico de 7% a 10% em volume e no mínimo 20 gramas de açúcar remanescente”.

As diferenças entre o moscatel espumante e os espumantes clássicos são notórias:
Matéria prima: exclusivamente a uva Moscatel.
Graduação alcoólica: 7 a 10% em volume
Açúcar: sempre na categoria doce, entre 70 e 80 gramas por litro.
Característica organoléptica: Fresco, aromático, jovem, baixa graduação alcoólica, elevada quantidade de açúcares.

Nunca espere um Moscatel Espumante brut, NÃO EXISTE.


A busca da matéria prima
A produção de uvas na Serra Gaúcha nessa época pouco privilegiava a qualidade e por tal razão não havia maiores controles sobre a produtividade. Com a ação maléfica do excesso de umidade durante a época prévia à colheita, as uvas não atingiam o grau mínimo de maturação e na maioria das vezes, por serem colhidas com muito tempo de antecedência e mal transportadas, chegavam às cantinas apresentando altas porcentagens de podridão.

A introdução em 1974 de caixas plásticas de dezoito quilos para a colheita e transporte das uvas foi uma iniciativa precursora da Martini de Garibaldi que resultou numa melhora tão evidente no estado das uvas que de imediato foi adotado por outras vinícolas.

Para viabilizar o projeto “Asti” na Martini foram selecionados aproximadamente trinta produtores fornecedores da região de Santa Bárbara e Monte Belo aos quais foi entregue material vegetativo de Moscato Bianco especialmente importado da Europa.
Foi feito cadastro de cada propriedade onde constavam as áreas plantadas, a identificação das variedades, números de pés e produção por talhão.
Com a supervisão técnica dos agrônomos da Martini começaram a ser feitos rigorosos controles sobre a produção por pé evitando o uso exagerado de adubos nitrogenados e podas longas. O propósito era buscar o máximo de maturação e sanidade nas uvas de modo a permitir obter mostos frescos e aromáticos.

A técnica de elaboração
A definição legal do Moscatel Espumante no Brasil traduz a definição do Asti italiano: espumante natural elaborado exclusivamente com a variedade Moscatel e cujo anidrido carbônico é resultante de uma única fermentação em recipiente fechado.

Por tratar-se de um suco semi-fermentado com baixa graduação alcoólica (de 7 a 9% vol) e alta concentração de açúcares finais (de 70 a 80 gramas litro), o desafio era obter, após o engarrafamento, produtos estáveis desde o ponto de vista microbiológico sem o uso de conservantes. O risco de re-fermentações tornava-os “perigosos”. Era necessário para iniciar a produção no Brasil, aplicar uma técnica segura que permitisse evitar o uso de conservantes e o sistema Mensio parecia atender estas exigências.

Sistema Mensio
Reconhecido como o sistema mais tradicional e adequado para a produção de Asti artesanalmente, consistia no empobrecimento dos teores de nitrogênio assimilável do mosto base, componente fundamental na formação do protoplasma das células na fase de reprodução. Através deste empobrecimento obtinha-se a estabilidade do produto mantendo inalteradas suas características de aroma e sabor tão típicos. Os teores inicias de nitrogênio total situados entre 250 e 350 mg/litro eram levados através de sucessivas multiplicações e filtrações, a valores inferiores a 50 mg/litro insuficientes para permitir a multiplicação de leveduras.
Como o projeto somente teria sentido se o produto fosse um “irmão gêmeo” do Asti Italiano, todos os cuidados foram tomados.

A elaboração do suco base
As uvas Moscato eram colhidas com rapidez e transportadas à cantina de imediato e adequadamente, e colocadas inteiras em prensas pneumáticas Willmes de origem alemã que iniciavam a extração do mosto aplicando pressões inferiores a 0,5 bar. Estas baixas pressões garantiam a retirada do mosto flor, equilibrado em teores de açúcares e acidez e com pouca carga de precursores de oxidação. A escolha de prensas pneumáticas para fazer este trabalho foi pelo fato que este tipo de extração garante, ao contrário de sistemas de pratos ou hidráulicos, a mesma pressão aplicada em toda a uva.

O suco que não superava 60% de rendimento, prévia colocação de pequenas quantidades de anidrido sulfuroso, é colocado em tanques de aço inoxidável onde recebe clarificantes de ação rápida. Entre oito e doze horas depois é trasfegado, esfriado a 0º C e transportado a outros recipientes localizados em câmaras frias onde permanece por aproximadamente sessenta dias.

Fase de empobrecimento
O suco frio é retirado da câmara e levado à cantina onde após alguns dias, ganha temperatura ambiente e inicia a fase de empobrecimento. Conhecidos os teores de nitrogênio total, o suco é inoculado com um pé de cuba contendo aproximadamente 3 milhões de células por cm3. Após 48 hs esta população sobe para mais de vinte milhões, os teores de nitrogênio caem entre 25 e 30% e há uma pequena produção de álcool, em torno de 1,5% vol. O suco é limpado através do uso de filtro de terras e colocado novamente no tanque quando os teores de nitrogênio caem até menos de 50 mg/litro e o álcool atinge em torno de 6,5-7% ideal para iniciar a tomada de espuma com segurança. Este suco é conservado ao longo do ano nos tanques refrigerados a temperatura situada entre -2 e 0º C e retirado em lotes conforme a capacidade de tomada de espuma.

Tomada de espuma
O teor alcoólico inicial de 6,5 a 7% vol permite fazer a tomada de espuma até 6 bar e atingir uma graduação final de 7,9 – 8,4% vol.
O suco base é colocado no autoclave inoculado com leveduras selecionadas e iniciada a fase de tomada de espuma que tem uma duração de 20 a 30 dias e é feita a temperaturas situadas entre 16 e 18º C. Finalizada esta fase o suco é rapidamente esfriado a – 4º C, filtrado e adicionado de açúcar de modo a atingir os teores finais desejados. A estabilidade tartárica é obtida após uma semana de baixa temperatura ao final da qual o produto é submetido a filtração esterilizante e engarrafado.

Método moderno de produção de Moscatel Espumante
Devido ao prejuízo na força aromática ocasionado pelas sucessivas multiplicações, o sistema moderno utiliza a mesma técnica para obtenção do mosto base que é conservado a baixa temperatura e graduação alcoólica próxima aos 6,5% em tanques climatizados até a tomada de espuma.
A estabilidade após engarrafamento é obtida através da garantia de esterilidade total de equipamentos, produto e insumos. No momento prévio ao enchimento as garrafas são submetidas à ação de uma chama na embocadura.

Evolução do Moscatel Espumante no Brasil

O Asti brasileiro, 1978 - 1986
Lançado com êxito em outubro de 1978 o primeiro Moscatel Espumante que tinha a apresentação exatamente igual do homônimo italiano cumpriu todas as expectativas desde o ponto de vista de qualidade e resposta do mercado. Foi muito bem aceito nas regiões com forte presença de italianos mais teve dificuldades em outras devido ao desconhecimento dos consumidores: poucas pessoas sabiam que tipo de produto era este chamado simplesmente de Asti Spumanti MARTINI.
A marca Martini era nacionalmente conhecida, o produto não. Era necessário um apoio constante às vendas através de ações de marketing dirigidas às degustações e apresentações do produto.
As vendas foram crescendo anualmente até 1986 quando o Consórcio de Produtores de Asti encaminhou à direção da Martini em Torino na Itália, uma queixa formal sobre o desrespeito à DOC que sua principal associada fazia no Brasil. O constrangimento que esta queixa criou na Itália fez com que uma decisão drástica fosse tomada: a suspensão imediata da comercialização do primeiro Asti Martini produzido fora do país de origem.

O Moscatel Espumante processo Asti, 1992-2000
A descontinuidade da comercialização do Asti em 1986 não tirou da direção técnica da Martini Brasil o convencimento que este espumante aromático, fácil de tomar, tinha o perfil de produto apreciado pelo mercado brasileiro. Por tal razão e após estudos de mercado decidiu-se pelo relançamento deste produto agora identificado como Moscatel Espumante processo Asti sob a marca De Gréville, nessa época reconhecida como produtora de espumantes de alta qualidade. A menção da expressão “processo Asti” no rótulo pretendia relacionar o produto ao original italiano e facilitar sua identificação pelo consumidor.

Os volumes inicias foram relativamente pequenos porque era o único Moscatel Espumante comercializado no Brasil mais sua presença possibilitou que os consumidores descobrissem este agradável produto tão adequado ao clima ameno existente em grande parte do país.

Em fins da década de noventa surgiram outras marcas de Moscatel Espumante que contribuíram a divulgar o produto aumentando pontos de vendas e presença nas prateleiras. Finalmente a região produtora da Serra Gaúcha descobrira a potencialidade de um espumante, que apesar de ter surgido utilizando o modelo italiano, apresentava características próprias de frescor, acidez e ligeireza que o tornavam mais fácil de beber que o original.

Moscatel Espumante, 2000 até hoje
Os volumes crescentes de comercialização no novo século impulsionados pela entrada de mais empresas a produzi-lo, chamaram a atenção novamente do Consórcio do Asti que sob o argumento do uso indevido da expressão “processo Asti” encaminhou uma reclamação formal ao Ministério da Agricultura do Brasília e as cantinas produtoras, fazendo ameaças de ações judiciais. Entendendo que devido à consolidação do produto no mercado e ante as argumentações válidas do Consórcio, o Ministério recomendou aos produtores locais o abandono da expressão que ocasionara a reclamação e deixou de emitir novos registros de produto. Finalmente o Brasil decidira identificar este produto com enorme potencial conforme a legislação local, abandonando definitivamente qualquer associação com o Asti da Itália.

O futuro
O espumante, que é uma bebida que possui somente atributos, é versátil e associado a momentos prazerosos e alegres, está sendo descoberto pelo consumidor brasileiro. As vendas crescem a cada ano, o consumo deixa lentamente de ser reservado a ocasiões festivas passando a fazer parte da gastronomia e o futuro parece ser brilhante.

No entanto, para evitar a concorrência predatória baseada em baixos preços semelhante à sofrida pelos vinhos finos, o setor produtor precisa ordenar-se através de normas específicas que resultem em maior rigor nas técnicas de elaboração. Infelizmente a legislação atual é omissa em relação às regras para produzir espumantes pelos métodos charmat e tradicional ou champenoise. Nada há que determine as variedades permitidas, as formas e rendimentos para obter os sucos e vinhos base e os prazos dos ciclos de produção.

Tanto os Moscateis como os espumantes clássicos precisam ser protegidos através de iniciativas que agreguem valor preservando as características típicas tão reconhecidas pelo consumidor e os formadores de opinião. Ninguém mais duvida da vocação que a região vitivinícola da Serra gaúcha possui para produzir espumantes de qualidade.

Neste sentido é elogiável a iniciativa dos produtores de espumantes do Município de Garibaldi que criaram em fins de 2007, o Consórcio de Produtores de Espumantes de Garibaldi – CPEG que tem como principal objetivo viabilizar um projeto de melhora de qualidade através da Certificação dos mesmos. No processo de certificação será utilizada uma empresa externa que auditará a adequada aplicação das normas acordadas no Regulamento de Avaliação de Conformidade conhecido como RAC. O RAC estabelece regras para a produção do vinho base, da tomada de espuma dos diferentes tipos e principalmente fixa prazos mínimos para o ciclo total de produção de cada um deles.
O capítulo reservado ao Moscatel Espumante define regras que tem por objetivo proteger a melhor técnica que resulte num espumante aromático de cores claras, alto volume de gás carbônico, perlage fino e persistente, aromas frescos e intensos da variedade Moscatel e gosto onde convivem harmonicamente a marcante acidez, a presença nítida dos açúcares e os sabores da uva.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Vai que não vai



A recente noticia da proibição da distribuição de caixinhas de tetra de vinho durante o Carnaval paulista, no qual o Ibravin gastou uma boa parte de seus (nossos) recursos, causou espanto em alguns, desilusão em outros. Para mim, é a comprovação do tamanho do equivoco que a entidade maior da vitivinicultura comete ao escolher as ações a tomar para reverter o desempenho preocupante do vinho nacional no mercado brasileiro.

Em primeiro lugar o Ibravin deveria se convencer que o problema é de longo prazo. Tantos anos de erro exigem tantos outros para corrigi-lo.

Não é necessário ser expert em vinhos para entender que o problema é de “imagem”. Basta ouvir 100 consumidores. Noventa deles vão disser que o vinho nacional ´´e ruim, e quando é bom é caro. Preconceito? Os mesmos consumidores ao serem indagados sobre a qualidade dos espumantes dirá “esse sim é bom, melhor até da grande maioria dos importados”. Ou seja, o consumidor confia num e não confia noutro.

Dito isto, cai de maduro que a estratégia de marketing não pode ser focada em ações que popularizem o vinho, o coloquem como uma bebida de consumo massivo, embalado em tetra, companheiro da cerveja.
O volume voltará com a melhora da imagem, não o contrário.

O consumo massivo vai contra as novas tendências de comportamento social.
A cerveja é uma bebida que vende irrealidades, o típico caso de propaganda enganosa.

Nos comerciais aBUNDAm jovens alegres, em situações descontraídas, transbordando saúde e alegria, quando a realidade são latinhas nas cabines de caminhões acidentados, latinhas no assoalho de carros onde jovens perdem a vida diariamente, garrafas e mais garrafas nas mesas de bares e botecos de todas as categorias e classes.

A mensagem do vinho tem de ser responsável, direcionada ao consumo prazeroso, moderado, inserido na gastronomia, saboreando a história, a região, o homem de mãos calejadas que produz as uvas, o dedicado enólogo que acompanha a natureza em sua manifestação.

Neste quesito somos iguais às outras regiões produtoras, das mais famosas às menos, das menores ás maiores. E este caminho não é o mesmo das festas populares como Carnaval, não é a venda massiva de vinho em caixinhas, nas arquibancadas, fomentando o excesso, a irresponsabilidade.

Não é por esse caminho. Pode ser divertido, dar repercussão em alguns jornais mas pouco ajuda a melhorar a imagem do vinho nacional.

O patético da proibição da venda das caixinhas durante o evento é que esta deveria ter sido a primeira informação a ser obtida e demonstra pelo menos ingenuidade.

O ridículo foi, caso fosse permitida a comercialização, faze-lo numa embalagem que não existe no mercado...e provavelmente nunca existirá...não é adequada...não é do vinho.

Haverá repercussão, as comitivas voltarão contentes com o sentimento da missão cumprida.

Mas, será que todo esse dinheiro não poderia ser melhor aplicado, será que tudo não acabará na quarta-feira?

Será que pensar em resolver o problema de estoques que aflige as grandes vinícolas está impedindo pensar em longo prazo, olhando o futuro?

O setor tem a obrigação de refletir sobre isso.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Liberamos o Nature




Quando o degustamos em outubro de 2012, data na qual completava dezoito meses, achamos que estava ligeiramente "verde", que não tinha atingido o nível qualitativo esperado e exigido, e com pesar comunicamos a todos nossos clientes e apreciadores do Nature Adolfo Lona, que no fim do ano haveria falta deste espumante.

Agora que o estamos liberando o fazemos com muito orgulho e convictos que colocar a qualidade de nossos espumantes acima dos eventuais interesses comerciais é nossa vocação.

O Nature está soberbo, agradável, convidativo, digno de levar o rótulo Adolfo Lona.

Com ele comprovamos mais uma vez que o tempo é fiel aliado da qualidade quando respeitado e inimigo quando encurtado.
Brindamos com todos nossos amigos!!!!